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segunda-feira, 10 de setembro de 2012

"Sobre a melancolia física do artista”

Do seu fantástico e lúcido livro "Música e Poder" passo a citar.

Em 2004 escrevi numa nota de programa da estreia da peça Reentering para orquestra, o seguinte texto, intitulado “Sobre a melancolia física do artista”:intima e desoladamente, vou estando cada vez mais convencido da inutilidade da arte e da música no quadro do espaço-tempo em que vivo. Uma nova obra portuguesa, amputada quase sempre dos seus modos actuais de sobrevivência – a edição da partitura e a edição discográfica – destina-se à categoria de desperdício patrimonial virtual e acrescenta-se às anteriores como alimento para a persistência do secular discurso lamentoso. É tempo de considerar esta situação definitiva, irreformável. Esta não é uma boa notícia mas mais vale considerá-la verdadeira para melhor se poder interpretar a hipocrisia dos discursos oficiais de sempre e a permanência das insuficiências de todo o Século XX.Resta ao criador considerar a sua obra como uma carta escrita aos amigos destinada a ser lida daqui por mil anos, na melhor das hipóteses. No entanto, quando componho, sinto-me como que deslocado para fora das determinações do real e concentrado na coisa-em-si e assim posto em sossego na atitude desinteressada kantiana.
António Pinho Vargas

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Concerto Final da Classe de Composição


Foi assim ontem, correu bem mas demasiado extenso, consequência natural tendo em conta o empenho dos alunos envolvidos e da qualidade das suas composições...
Todos mereciam ser ouvidos!
Parabéns aos compositores e um agradecimento especial ao Francisco pela força e capacidade de liderança inegável com os seus colegas. Obrigado a todos.



CONCERTO FINAL DA CLASSE DE COMPOSIÇÃO

Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga

Auditório Adelina Caravana               18:30, 28 de Junho 2012

Ladies and Gentlemen (eletrónica) - Diogo Silva (11º ano: Laboratório de Composição)

Passing dream ------------------------ Pedro Lima (12º ano: Composição)
piano, Júlia Durand
clarinete, Bárbara Dias Luis

Contraponto a Dois (flauta e violino) -- Patrícia Oliveira (10º ano: Composição)
flauta, Carlos Miguel Araújo
violino, David Correia

hereafter (eletrónica) -- António Novais (11º ano: Laboratório de Composição)

Pensées d'eau (chanson) -------------- Júlia Durand (12º ano: Composição)
poema, Júlia Durand
barítono Ernesto Clemente
piano Júlia, Durand

Contrastes (viola e guitarra) --------- Patrícia Oliveira (10º ano: Composição)
viola, Sofia Sousa
guitarra, Frederico Meireles

Strange Dream (eletrónica) - Ana Catarina Barros (11º ano: Laboratório de Composição)

Ocaso (quinteto) --------------- Ana Catarina Barros (11º ano: Composição)
direção, Francisco Fontes
flauta, Carlos Miguel Araújo
corne Inglês, Maria Fontes
trompa, Pedro Silva
violoncelo, Ana Carolina Ferreira
piano, Bárbara Dias Luís

Three whispers for a tree (quinteto) ---- Júlia Durand (12º ano: Composição)
direção, Francisco Fontes
clarinete, Pedro Lima
marimba, Cláudio Miranda
viola, Ana Teresa Alves
violoncelo, Carolina Freitas
piano, Júlia Durand

Electronik Peace (eletrónica) ----------- Jorge Ramos (11º ano: Laboratório de Composição)

Momentos Suspensos (quinteto) --- Francisco Fontes (12º ano: Composição)
direção, Francisco Fontes
flauta, Carlos Miguel Araújo
oboé, Maria Fontes
clarinete, Célia Teixeira
fagote, Inês Coelho
trompa, Pedro Silva

Reflection (orquestra de cordas) --- João Tiago Araújo (12º ano: Composição)
direção, Ernesto Clemente
violino I, Joaquim Aníbal, José Nascimento
violinos II, Bernardo Barreira, Alexandre Rêgo
violas, Ana Teresa Alves, José Miguel Freitas, Sofia Sousa
violoncelos, Carolina Freitas, Carolina Rodrigues
contrabaixo, Francisca Machado

Obra experimental nº1 (música de câmara) -------- David Ramalho (12º ano: Composição)
fagote, Inês Coelho
percussão, Beatriz; Claudio Miranda
piano, João Alves, Isabel Romero
violinos, Alexandre Rêgo, Joaquim Pereira
violoncelos, Miguel Braz, Carolina Freitas

Sexteto nº 1 -------------------- Francisco Fontes (12º ano: Composição)
direção, Francisco Fontes
flauta, Carlos Miguel Araújo
clarinete, Célia Teixeira
trompa, Edna Gonçalves
violino, David Correia
violoncelo, Carolina Freitas
contrabaixo, Raquel Quintas

unfinished Bridges (sexteto) ----------- Pedro Lima (12º ano: Composição)
direção, Francisco Fontes
flauta, Carlos Miguel Araújo
clarinete, Célia Teixeira
clarinete baixo, Carolina Reprezas
trompa, Edna Gonçalves
violino, David Correia
violoncelo, Carolina Freitas

Manto (electrónica em tempo real) --------- David Ramalho, Francisco Fontes, João Tiago Araújo, Júlia Durand, Pedro Lima (12º ano: Laboratório de Composição)

Classe dos Professores:
Ana Moura: 10º ano: Composição
André Ruiz: 11º ano: composição; 12º ano de Laboratório de Composição
Paulo Bastos: 12º ano de composição; 11º ano de Laboratório de Composição

domingo, 17 de junho de 2012

sobre a ausência de gosto musical

Para além da questão do ensino especializado da música, que é o que tema que sempre mais me preocupou, ainda há a música contemporânea portuguesa em si mesma. A maior parte das obras que escrevo (desde 1990 sensivelmente) nunca foram tocadas, e aquelas que o foram não passaram da primeira e única vez. A comparação que posso estabelecer e forma mais simples de perceber é a de um escritor que escreve um livro para crianças, por exemplo, e apenas uma criança no mundo o ler! Não há qualquer forma, que eu esteja a ver de este tipo de coisas mudar por diversos motivos.
(comentário meu algures no facebook)

Quem ler o que acabei de escrever pode tirar vários tipos de conclusões...

pode eventualmente pensar que estou a aludir aos velhos problemas dos grupos daqui e dali, dos que são mais privilegiados no que à divulgação da sua música concerne, ou das questões das periferias - onde agora me incluo cada vez mais uma vez que me mudei do Porto para Braga, uma cidade sem qualquer tipo de estimulo cultural sério que eu vislumbre - e dos centros de poder, ou, pura e simplesmente, pode o leitor pensar, que afinal o tipo (eu) não tem é nada decente para mostrar e está para ali a lamentar-se. Mas desenganem-se os que põem acreditam em qualquer uma das hipóteses simplistas anunciadas acima! Sempre me passou literalmente ao lado todos este tipo de quesitos. No que diz respeito à composição portuguesa penso que tivemos um longo e sinuoso período, durante o século XX, verdadeiramente negro no que à qualidade diz respeito, com uma série de clichés atrasados do que melhor se fazia pelo resto do mundo em termos musicais. A época a que me refiro, com algumas excepções, é o chamado “antigo regime” que fez também os seus estragos no que à música portuguesa dizia respeito. Agora temos este modelo de “Actual Regime” disfarçado de coisa boa e democrática que também é, e muito, repressivo. A ressaca do antigo regime é o “Actual Regime” que hoje se vive. Voltando à questão central deste pequeno prelúdio, que é a composição portuguesa, sempre achei que a diferença de divulgação e amostragem da música dos compositores vindos de Lisboa e os do Porto se justificava. Pessoalmente, nem sequer estranho o facto de a massa composicional de Lisboa estar muito mais representada em Portugal (nomeadamente no norte) e no resto do mundo. Afinal há uma diferença de qualidade e quantidade abissal entre aquilo que foi produzido de um lado e do outro lado do país ao longo dos últimos 20 anos. É evidente que, para além de nós mesmos, tudo tem uma causa e responsáveis. Os poucos compositores portuenses que saíram do curso de composição da escola superior de música nos anos noventa não foram formados, foram, de forma lapidar, claramente deformados! Nas duas décadas seguintes, alguns apenas, iniciaram um processo lento de reconstrução e desconstrução de uma série de tiques e fobias confusas transmitidas pela intitulada geração de 60 reiniciando tardiamente a recuperação do seu espaço enquanto compositores. Alguns endireitaram-se e sempre escreveram música, outros não, e ele houve outros ainda que não tinham mesmo porque se endireitar.
Conheço, e sou leitor atento do que melhor se escreve sobre a produção cultural e, em especial da produção musical, no nosso país. Confesso-me como alguém que partilha uma grande parte das lúcidas e claras ideias difundidas por António Pinho Vargas na sua tese de doutoramento – “Música e Poder: Para uma sociologia da ausência da música portuguesa no contexto europeu”. No entanto, como em tudo, nem sempre nos revemos na totalidade dos argumentos de quem mais nos convence e há algo que percebi como não referido no que a “ausência da música portuguesa na europa” diz respeito. Num pais, pequeno como é o nosso, assistiu-se, até sensivelmente ao final de século XX, a uma clara assimetria entre a formação de compositores oriundos de Lisboa, que foram sempre muitos, e os do Porto. Será que esta realidade concreta não terá tido os seus efeitos nefastos para além das vitimas mais próximas, ou seja, os projectos de compositores do norte? Será que esta questão não é ela mesma uma das causas do enfraquecimento da própria realidade composicional para além das fronteiras territoriais? Porque a evidente ausência da música portuguesa na europa e consequentemente em Portugal? Para além das muitas razões da fraca visibilidade da música portuguesa na europa apresentadas por António Pinho Vargas, com que concordo na totalidade, na sua tese de doutoramento e livro, poderia, com certeza, constar também esta assimetria que refiro aqui, a de um país provinciano que nunca sairá dos ambientes que Eça de Queirós tão bem caracterizou.
Note-se que eu nem sequer acho que a música portuguesa moderna e contemporânea tenha que ter visibilidade só porque sim! Defendo mesmo que um bom programa de concerto não tem que ter música portuguesa, mas porque é que a há-de ter? Onde está isso escrito? É, aliás, de um provincianismo absoluto alguém pensar que deveria ser assim, só porque nos orgulhámos de ser portugueses, em nome de um qualquer tipo de nacionalismo bacoco, nada presente em praticamente tudo o que fazemos. Muito sinceramente, tanto me faz ser português como ser outra coisa qualquer! É-me indiferente... o que penso, isso sim, é que um bom programa de concerto deve primar pela forma de organização e interação entre as várias obras nele presentes e, acima de tudo, pela qualidade e coerência do objecto estético aí revelado em música. O que não se pode é colocar intermediários castradores e desabilitados (não me refiro a habilitação académica, mas sim, aos que vivem felizes sem o mínimo de saberes culturais) a organizar programas culturais de instituições, programas mal conduzidos, ou, até, in extremis, a gerir a própria cultura. Parece-me que, com os erros da história da música pouco ou nada se aprendeu por cá, basta lembrar as escandalosas estreias de obras Edgard Varèse em Paris, pois nada poderia funcionar, como é óbvio não ouviria com normalidade uma estreia de uma obra de Varèse entre Mozart e Mendelssohn. Mas todas estas questões têm os seus quês… para vermos pontes entre compositores diametralmente opostos é sempre necessário termos uma visão de conjunto que justifique as nossas escolhas. A título exemplificativo, e na primeira ideia que me ocorre, porque é que um concerto que cruze um certo tipo de obras de Bach, Kurtág, Janacek, Webern e Scriabin vai funcionar? A resposta a esta pergunta está com certeza na evidência de pensamento de quem as propõem enquanto programa de um eventual concerto. Para tal é necessário alguns saberes culturais, não muitos, mas alguns... ele há coisas que nunca se escondem, e a maior é, sem dúvida, a ignorância. A minha questão fundamental em relação à música, quer seja ela a portuguesa ou outra, é sempre a mesma e contradiz o espírito das regras “sociais” e democráticas, é aquela que banaliza a célebre frase de que “o gosto não se discute”! Discute, pois. E, concretamente, o gosto musical discute-se e educa-se. Só é pena é que já ninguém esteja para isso, nem para educar nem para ser educado.