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domingo, 18 de novembro de 2012

GENEROSIDADE


Ontem, no Theatro Circo em Braga revivi com emoção a música e a pessoa de António Pinho Vargas. Já não o ouvia a tocar desde o final dos anos oitenta, numa altura em que o seu piano era apoiado pelo irmãos Barreiros e pelo José Nogueira em quarteto, isto no Teatro Carlos Alberto no Porto. Foi arrepiante ouvir outra vez, a dança dos pássaros, Tom Waits, etc. Está tudo lá ainda, mas mais refinado, as articulações a expressividade, os súbitos e curtos silêncios em jeito de hoquetus, e, acima de tudo, aquelas melodias, de uma beleza inexplicável, infinitamente lusitanas no seu contorno e perfil linear. Enfim, para além de toda aquele grande jazz português que reouvi, as palavras de APV – que separaram, em jeito de prelúdios, os momentos exclusivamente musicais – sempre sábias, lúcidas e, mais do que tudo, generosas. Se alguma palavra pudesse definir o dia de ontem, antes do concerto – em que tive o prazer da companhia de APV num longo café adiado há muito tempo, anos mesmo – durante o concerto, e depois do concerto essa palavra será GENEROSIDADE. Possivelmente, para alguns parecerá um lugar comum, mas não o é, uma vez que é cada vez mais difícil encontrar esta palavra expressa e encarnada na alma das pessoas. Numa altura em que tanto se “partilha” e tão pouco se dá as “gentes” são cada vez menos generosas, e uma grande parte não o é sequer.
Obrigado, António.

(foto da culturgest)

terça-feira, 13 de novembro de 2012

simples versus complicatus (não, não é a flor!)



É assim, em Lisboa as coisas funcionam de uma forma mais óbvia, mais simples, mais assumida. Ou seja, Pequenos Cantores do Conservatório de Lisboa e a Camerata de Lisboa, maestrina Joana Carneiro, álbum de Natal, Canções de Natal Portuguesas, compositores contemporâneos portugueses, como Carlos Marecos, Vasco Pearce de Azevedo, Sérgio Azevedo e João Madureira, todas os temas escritos tendo como ponto de partida o cancioneiro tradicional português.
A ser no norte, não podia ser assim, não, nem pensar! Tinha que ser uma coisa em Grande! O maestro tinha que ser estrangeiro, de preferência com um nome bem complicado de pronunciar, as músicas teriam que incluir obrigatoriamente, porque toda a gente gosta, o "A Todos um Bom Natal", o "Noite Feliz" e o "Jingle Bells", o cancioneiro tinha que ser da freguesia de nascença da pessoa que organizasse o evento e posterior gravação, e quanto aos compositores é melhor ficar por aqui neste breve, irónico e patético comentário...

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

"Sobre a melancolia física do artista”

Do seu fantástico e lúcido livro "Música e Poder" passo a citar.

Em 2004 escrevi numa nota de programa da estreia da peça Reentering para orquestra, o seguinte texto, intitulado “Sobre a melancolia física do artista”:intima e desoladamente, vou estando cada vez mais convencido da inutilidade da arte e da música no quadro do espaço-tempo em que vivo. Uma nova obra portuguesa, amputada quase sempre dos seus modos actuais de sobrevivência – a edição da partitura e a edição discográfica – destina-se à categoria de desperdício patrimonial virtual e acrescenta-se às anteriores como alimento para a persistência do secular discurso lamentoso. É tempo de considerar esta situação definitiva, irreformável. Esta não é uma boa notícia mas mais vale considerá-la verdadeira para melhor se poder interpretar a hipocrisia dos discursos oficiais de sempre e a permanência das insuficiências de todo o Século XX.Resta ao criador considerar a sua obra como uma carta escrita aos amigos destinada a ser lida daqui por mil anos, na melhor das hipóteses. No entanto, quando componho, sinto-me como que deslocado para fora das determinações do real e concentrado na coisa-em-si e assim posto em sossego na atitude desinteressada kantiana.
António Pinho Vargas

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Concerto Final da Classe de Composição


Foi assim ontem, correu bem mas demasiado extenso, consequência natural tendo em conta o empenho dos alunos envolvidos e da qualidade das suas composições...
Todos mereciam ser ouvidos!
Parabéns aos compositores e um agradecimento especial ao Francisco pela força e capacidade de liderança inegável com os seus colegas. Obrigado a todos.



CONCERTO FINAL DA CLASSE DE COMPOSIÇÃO

Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga

Auditório Adelina Caravana               18:30, 28 de Junho 2012

Ladies and Gentlemen (eletrónica) - Diogo Silva (11º ano: Laboratório de Composição)

Passing dream ------------------------ Pedro Lima (12º ano: Composição)
piano, Júlia Durand
clarinete, Bárbara Dias Luis

Contraponto a Dois (flauta e violino) -- Patrícia Oliveira (10º ano: Composição)
flauta, Carlos Miguel Araújo
violino, David Correia

hereafter (eletrónica) -- António Novais (11º ano: Laboratório de Composição)

Pensées d'eau (chanson) -------------- Júlia Durand (12º ano: Composição)
poema, Júlia Durand
barítono Ernesto Clemente
piano Júlia, Durand

Contrastes (viola e guitarra) --------- Patrícia Oliveira (10º ano: Composição)
viola, Sofia Sousa
guitarra, Frederico Meireles

Strange Dream (eletrónica) - Ana Catarina Barros (11º ano: Laboratório de Composição)

Ocaso (quinteto) --------------- Ana Catarina Barros (11º ano: Composição)
direção, Francisco Fontes
flauta, Carlos Miguel Araújo
corne Inglês, Maria Fontes
trompa, Pedro Silva
violoncelo, Ana Carolina Ferreira
piano, Bárbara Dias Luís

Three whispers for a tree (quinteto) ---- Júlia Durand (12º ano: Composição)
direção, Francisco Fontes
clarinete, Pedro Lima
marimba, Cláudio Miranda
viola, Ana Teresa Alves
violoncelo, Carolina Freitas
piano, Júlia Durand

Electronik Peace (eletrónica) ----------- Jorge Ramos (11º ano: Laboratório de Composição)

Momentos Suspensos (quinteto) --- Francisco Fontes (12º ano: Composição)
direção, Francisco Fontes
flauta, Carlos Miguel Araújo
oboé, Maria Fontes
clarinete, Célia Teixeira
fagote, Inês Coelho
trompa, Pedro Silva

Reflection (orquestra de cordas) --- João Tiago Araújo (12º ano: Composição)
direção, Ernesto Clemente
violino I, Joaquim Aníbal, José Nascimento
violinos II, Bernardo Barreira, Alexandre Rêgo
violas, Ana Teresa Alves, José Miguel Freitas, Sofia Sousa
violoncelos, Carolina Freitas, Carolina Rodrigues
contrabaixo, Francisca Machado

Obra experimental nº1 (música de câmara) -------- David Ramalho (12º ano: Composição)
fagote, Inês Coelho
percussão, Beatriz; Claudio Miranda
piano, João Alves, Isabel Romero
violinos, Alexandre Rêgo, Joaquim Pereira
violoncelos, Miguel Braz, Carolina Freitas

Sexteto nº 1 -------------------- Francisco Fontes (12º ano: Composição)
direção, Francisco Fontes
flauta, Carlos Miguel Araújo
clarinete, Célia Teixeira
trompa, Edna Gonçalves
violino, David Correia
violoncelo, Carolina Freitas
contrabaixo, Raquel Quintas

unfinished Bridges (sexteto) ----------- Pedro Lima (12º ano: Composição)
direção, Francisco Fontes
flauta, Carlos Miguel Araújo
clarinete, Célia Teixeira
clarinete baixo, Carolina Reprezas
trompa, Edna Gonçalves
violino, David Correia
violoncelo, Carolina Freitas

Manto (electrónica em tempo real) --------- David Ramalho, Francisco Fontes, João Tiago Araújo, Júlia Durand, Pedro Lima (12º ano: Laboratório de Composição)

Classe dos Professores:
Ana Moura: 10º ano: Composição
André Ruiz: 11º ano: composição; 12º ano de Laboratório de Composição
Paulo Bastos: 12º ano de composição; 11º ano de Laboratório de Composição

terça-feira, 19 de junho de 2012

comentários no facebook com APV a propósito de" Six Portraits of Pain"


Post de António Pinho Vargas que deu origem aos comentários:
o desejo secreto do compositor é poder chegar ao ponto de imaginar que com a sua obra, ou algumas delas, terá mudado a vida de, pelo menos, algumas pessoas. Neste caso posso afirmar que a peça Six Portraits of Pain mudou a minha. A partir d...esse momento milagroso e inexplicável não foram poucas as vezes em que recorri à lembrança da sua estreia para tentar afastar as angústias e as dúvidas da criação: "lembra-te que foste capaz de compor aquela peça". Comparado com isto, com a possibilidade de ter sentido algumas vezes esta exaltação solitária, o facto de o disco ser quase impossível de encontrar, de a música portuguesa em geral ser menosprezada ou desconhecida, mesmo em Portugal, acaba por ter uma menor importância, nem que seja por breves momentos.
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Comentários:
Paulo Bastos Fantástica obra... o que eu gostava de assim escrever! A melodia é sempre o ponto mais evidente numa depuração controlada e sofrida. Adorei, parabéns!
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26/3 às 18:54 · GostoNão gosto · 2
Gonçalo Gato Eu tenho o disco! Estou consigo na sua luta. 1 abç
26/3 às 18:57 · GostoNão gosto · 1
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António Pinho Vargas Caro Paulo Bastos, muito obrigado. E mantemos um contacto por interpostas pessoas - alunos seus que vêm de Braga estudar comigo e com outros colegas em Lisboa, sempre muito bons, há vários anos. Não é por acaso. Parabéns e obrigado. Tem razao. É a melodia que conduz tudo.
26/3 às 18:58 · Não gostoGosto · 1
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Paulo Bastos Um sustentação melódica quase Mahleriana. Eu não tenho o disco...
26/3 às 18:58 · GostoNão gosto · 2
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Paulo Bastos Obrigado pelas suas palavras APV!
26/3 às 19:00 · GostoNão gosto · 1
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António Pinho Vargas A minha (ou nossa luta) não tem nenhuma hipótese. Estudei o assunto da ausência, desmontei-lhe os mecanismos de poder e os discursos, mas um livro é um livro, é um livro, é um livro, como diria Godard. Não muda o mundo nem pouco mais ou menos. Trouxe alguma consciencia do facto a algumas pessoas - várias - "estávamos todos enganados" disse Sérgio Azevedo, "o seu livro transformou a ausência num monumento" disse-me Nuno Corte-Real. É importante mas não irá mudar dispositivos de poder seculares ou fortemente enraizados. Monumento será esta peça, talvez. Mas foi tocada em 2005, 2006 na Casa da Música, e pela Utópica em 2011. 3 vezes em 7 anos e meio. Uma peça que um director do Serviço de Música da Gulbenkian me disse ser "uma grande peça de música, repare que não digo de música contemporânea, digo de música". Mas lá não foi... A minha tese talvez explique porquê. É isso. Serve para explicar algumas coisas mas não é suficiente para as mudar.
26/3 às 19:10 · Não gostoGosto · 7
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Paulo Bastos No que à música diz respeito sou, francamente, um pessimista. Nada vejo de positivo no atual estado das coisas desde a cultura à educação. Penso mesmo que a parolice reinante é aquilo que, infelizmente, somos. Muitas vezes, sinto-me completamente só, e chego a pensar que eu é que estou errado... os tais intermediários são os que manipulam, os que fazem prescrever o objeto estético de qualidade, os que tudo fazem para a manutenção do gosto brejeiro. Há já alguns anos que sinto isto e penso que, hoje, nada há já para fazer. Ainda assim, penso que hei-de sempre escrever música, é mesmo uma necessidade estrutural, sem a qual nada fazia sentido.
26/3 às 19:24 · GostoNão gosto · 5
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CarlotaFranco Cppinto Muito densa e bonita! Gostei muito! Obrg, por nos dar a ouvir tão boa música. Linda a sonoridade do violoncelo. E o(s) texto(s) que aparecem de Manuel Gusmão, foram inspiração para... ou surgiram depois da composção? Desculpe a minha ignorância. Um abraço.
26/3 às 19:33 · GostoNão gosto · 3
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António Pinho Vargas Cara CarlotaFranco Cppinto, cada andamento, cada um dos 6 retratos, desta peça tem um poema ou um texto de Deleuze/Espinoza, Paul Celan, Manuel Gusmão (2), Thomas Bernhard, Anna Akhmatova. Enquanto compunha a ideia de retratos de dor ou da dor - daí ser em inglês o que me dispensou desta diferença - relativos a vários tipos de sofrimento humano, foram aparecendo à medida que ia compondo: por exemplo, o texto de Deleuze no início da peça é: "Espinosa conservava o casaco rasgado pela faca assassina para se lembrar que o pensamento nem sempre é amado pelos homens". Na peça apenas o de Anna Akhmatova é ouvido - lancinante - gravado e lido por mim - mesmo antes de começar a segunda parte da peça que está neste video. Os outros, estão escritos na partitura, os músicos são convidados a lê-los, mas não são ouvidos. Que afectaram o compositor fortemente enquanto trabalhava nem se pergunta: marcaram o carácter da peça de forma indelével.
26/3 às 21:00 · GostoNão gosto · 6
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António Pinho Vargas Sabem uma coisa: num romance de Vergílio Ferreira, há um personagem amigo do principal que é pintor e a certa altura lhe diz: "às vezes, no meu delírio, até penso que o que faço é bom". Pois bem. Neste caso, no meu delírio (seguramente), até penso que esta peça é das melhores que já ouvi nos últimos 50 anos, ou talvez mesmo, 100. Já não ouvia esta gravação há uns largos meses ou anos. Hoje, como fiz este video, já vou na quarta ou quinta vez!. Ah, grande convencido que és - no teu delírio - mas que posso fazer? Encanta-me, comove-me, sei lá... Sou um ser humano e tenho defeitos como este. Como disse no início o meu amigo Paulo Bastos, é fantástica esta obra (julgo, no meu delírio).
26/3 às 23:32 · Não gostoGosto · 4

domingo, 17 de junho de 2012

sobre a ausência de gosto musical

Para além da questão do ensino especializado da música, que é o que tema que sempre mais me preocupou, ainda há a música contemporânea portuguesa em si mesma. A maior parte das obras que escrevo (desde 1990 sensivelmente) nunca foram tocadas, e aquelas que o foram não passaram da primeira e única vez. A comparação que posso estabelecer e forma mais simples de perceber é a de um escritor que escreve um livro para crianças, por exemplo, e apenas uma criança no mundo o ler! Não há qualquer forma, que eu esteja a ver de este tipo de coisas mudar por diversos motivos.
(comentário meu algures no facebook)

Quem ler o que acabei de escrever pode tirar vários tipos de conclusões...

pode eventualmente pensar que estou a aludir aos velhos problemas dos grupos daqui e dali, dos que são mais privilegiados no que à divulgação da sua música concerne, ou das questões das periferias - onde agora me incluo cada vez mais uma vez que me mudei do Porto para Braga, uma cidade sem qualquer tipo de estimulo cultural sério que eu vislumbre - e dos centros de poder, ou, pura e simplesmente, pode o leitor pensar, que afinal o tipo (eu) não tem é nada decente para mostrar e está para ali a lamentar-se. Mas desenganem-se os que põem acreditam em qualquer uma das hipóteses simplistas anunciadas acima! Sempre me passou literalmente ao lado todos este tipo de quesitos. No que diz respeito à composição portuguesa penso que tivemos um longo e sinuoso período, durante o século XX, verdadeiramente negro no que à qualidade diz respeito, com uma série de clichés atrasados do que melhor se fazia pelo resto do mundo em termos musicais. A época a que me refiro, com algumas excepções, é o chamado “antigo regime” que fez também os seus estragos no que à música portuguesa dizia respeito. Agora temos este modelo de “Actual Regime” disfarçado de coisa boa e democrática que também é, e muito, repressivo. A ressaca do antigo regime é o “Actual Regime” que hoje se vive. Voltando à questão central deste pequeno prelúdio, que é a composição portuguesa, sempre achei que a diferença de divulgação e amostragem da música dos compositores vindos de Lisboa e os do Porto se justificava. Pessoalmente, nem sequer estranho o facto de a massa composicional de Lisboa estar muito mais representada em Portugal (nomeadamente no norte) e no resto do mundo. Afinal há uma diferença de qualidade e quantidade abissal entre aquilo que foi produzido de um lado e do outro lado do país ao longo dos últimos 20 anos. É evidente que, para além de nós mesmos, tudo tem uma causa e responsáveis. Os poucos compositores portuenses que saíram do curso de composição da escola superior de música nos anos noventa não foram formados, foram, de forma lapidar, claramente deformados! Nas duas décadas seguintes, alguns apenas, iniciaram um processo lento de reconstrução e desconstrução de uma série de tiques e fobias confusas transmitidas pela intitulada geração de 60 reiniciando tardiamente a recuperação do seu espaço enquanto compositores. Alguns endireitaram-se e sempre escreveram música, outros não, e ele houve outros ainda que não tinham mesmo porque se endireitar.
Conheço, e sou leitor atento do que melhor se escreve sobre a produção cultural e, em especial da produção musical, no nosso país. Confesso-me como alguém que partilha uma grande parte das lúcidas e claras ideias difundidas por António Pinho Vargas na sua tese de doutoramento – “Música e Poder: Para uma sociologia da ausência da música portuguesa no contexto europeu”. No entanto, como em tudo, nem sempre nos revemos na totalidade dos argumentos de quem mais nos convence e há algo que percebi como não referido no que a “ausência da música portuguesa na europa” diz respeito. Num pais, pequeno como é o nosso, assistiu-se, até sensivelmente ao final de século XX, a uma clara assimetria entre a formação de compositores oriundos de Lisboa, que foram sempre muitos, e os do Porto. Será que esta realidade concreta não terá tido os seus efeitos nefastos para além das vitimas mais próximas, ou seja, os projectos de compositores do norte? Será que esta questão não é ela mesma uma das causas do enfraquecimento da própria realidade composicional para além das fronteiras territoriais? Porque a evidente ausência da música portuguesa na europa e consequentemente em Portugal? Para além das muitas razões da fraca visibilidade da música portuguesa na europa apresentadas por António Pinho Vargas, com que concordo na totalidade, na sua tese de doutoramento e livro, poderia, com certeza, constar também esta assimetria que refiro aqui, a de um país provinciano que nunca sairá dos ambientes que Eça de Queirós tão bem caracterizou.
Note-se que eu nem sequer acho que a música portuguesa moderna e contemporânea tenha que ter visibilidade só porque sim! Defendo mesmo que um bom programa de concerto não tem que ter música portuguesa, mas porque é que a há-de ter? Onde está isso escrito? É, aliás, de um provincianismo absoluto alguém pensar que deveria ser assim, só porque nos orgulhámos de ser portugueses, em nome de um qualquer tipo de nacionalismo bacoco, nada presente em praticamente tudo o que fazemos. Muito sinceramente, tanto me faz ser português como ser outra coisa qualquer! É-me indiferente... o que penso, isso sim, é que um bom programa de concerto deve primar pela forma de organização e interação entre as várias obras nele presentes e, acima de tudo, pela qualidade e coerência do objecto estético aí revelado em música. O que não se pode é colocar intermediários castradores e desabilitados (não me refiro a habilitação académica, mas sim, aos que vivem felizes sem o mínimo de saberes culturais) a organizar programas culturais de instituições, programas mal conduzidos, ou, até, in extremis, a gerir a própria cultura. Parece-me que, com os erros da história da música pouco ou nada se aprendeu por cá, basta lembrar as escandalosas estreias de obras Edgard Varèse em Paris, pois nada poderia funcionar, como é óbvio não ouviria com normalidade uma estreia de uma obra de Varèse entre Mozart e Mendelssohn. Mas todas estas questões têm os seus quês… para vermos pontes entre compositores diametralmente opostos é sempre necessário termos uma visão de conjunto que justifique as nossas escolhas. A título exemplificativo, e na primeira ideia que me ocorre, porque é que um concerto que cruze um certo tipo de obras de Bach, Kurtág, Janacek, Webern e Scriabin vai funcionar? A resposta a esta pergunta está com certeza na evidência de pensamento de quem as propõem enquanto programa de um eventual concerto. Para tal é necessário alguns saberes culturais, não muitos, mas alguns... ele há coisas que nunca se escondem, e a maior é, sem dúvida, a ignorância. A minha questão fundamental em relação à música, quer seja ela a portuguesa ou outra, é sempre a mesma e contradiz o espírito das regras “sociais” e democráticas, é aquela que banaliza a célebre frase de que “o gosto não se discute”! Discute, pois. E, concretamente, o gosto musical discute-se e educa-se. Só é pena é que já ninguém esteja para isso, nem para educar nem para ser educado.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

30ª edição do Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim

Lisboa, 28 Abr (Lusa) - Obras de AGonçalo Alves Gato Lopes, Ana Seara e Petra Oliveira Bachratá são as finalistas do Terceiro Concurso Internacional de Composição da Póvoa de Varzim, cujos vencedores serão anunciados em Julho, no Festival Internacional de Música desta cidade nortenha.
(mais informação aqui)
Da reunião do júri constituído por António Pinho Vargas (Presidente), Carlos Caires, João Madureira e António Saiote, realizada no passado Sábado, dia 26, foram seleccionadas as obras “What if” de Petra Oliveira Bachratá e “Le Foncé Ciel de la Nuit Glacée” de Ana Seara para a final da categoria “Música de Orquestra”. Ana Seara também se distinguiu na Categoria “Música de Câmara” com a peça “Poema, Mensagem”, juntando-se a Gonçalo Alves Gato Lopes que concorreu a este prémio com a obra “Derivação”. As obras finalistas irão integrar o programa do 30º Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim, em estreias mundiais, sendo que as peças da modalidade “Orquestra” serão apresentadas no dia 25 de Julho e “Música de Câmara” no dia seguinte, 26.
(mais informação aqui)

domingo, 20 de abril de 2008

Sara Claro no JN

Hoje, na revista Notícias magazine, um artigo - Onde estão as mulheres compositoras? - destaca um dos valores nacionais mais recentes da "composição feminina", Sara Claro.


(carregar na imagem para ler)

sábado, 15 de dezembro de 2007

Worldwide Atonality Day

Segundo Alex Ross no dia 17 de Dezembro celebra-se, com os seus 100 anos, o "Worlwide Atonality Day"!

SchoenbergOp19ii

Para reforçar esta data deixo apenas esta pequena (grande) frase de Arnold Schoenberg...
Estou a ser levado por uma necessidade de brevidade, precisão, definição e clareza. Tenho a sensação que estou a dizer tudo de forma, mais clara e precisa, de forma menos ambígua e mais pessoal.

(Tradução pb)

sábado, 1 de dezembro de 2007

Piano Singular

Acabei de encontrar esta informação no Tonalatonal de Sérgio Azevedo e não resisti à tentação de reproduzir também aqui a notícia...

A Trem Azul acaba de lançar um novo disco de Olga Prats - Piano Singular - com música de autores tão variados como Bach, Schubert, Wagner, Berio, Chick Corea, Janacék e Sara Claro entre muitos outros.

(lançamento no CCB, Sala Lopes-Graça, dia 3 de Dezembro, às 18:30, entrada livre)

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

de parabéns!

Alunos e ex-alunos do curso de Composição da ESML recentemente distinguidos com prémios, encomendas, etc.

Concurso Internacional de Composição da Póvoa de Varzim 2007
Hugo Ribeiro - Primeiro Prémio na categoria de Música orquestral e menção homrosa na categoria de Música de Câmara
Ana Seara - Segundo Prémio na categoria de Música orquestral Orquestra do Algarve -

Workshop 2007 / Atelier de leitura (8 e 9 Novembro) Seleccionados:
Luís Soldado
Rogério Medeiros
João Antunes
Carlos Marques (Kami)
Sara Claro
Hugo Ribeiro

Encomendas do Prémio Jovens Músicos, edição 2007
João Godinho
Hugo Ribeiro
Sara Claro
Ana Seara
Pedro Faria Gomes

(toda a informação retirada daqui)

sábado, 30 de junho de 2007

Mozart e interpretação

Para quem não conhece, para quem não lhe interessa conhecer e para os que estão acima deste tipo de coisas, aqui vai a interpretação que mais gosto das Sonatas de Mozart - a nº 13, também a que mais gosto - na magistral versão de Maria João Pires, na etiqueta Denon, gravadas em Tokyo, Lino Hall, em Fevereiro de 1974.
W. A. Mozart, Sonata para piano nº 13 em Si b maior, KV 333, Allegro, Andante cantabile e Allegretto grazioso - Piano, Maria João Pires, 1974

sábado, 23 de junho de 2007

Chopin e interpretação

Porque para mim as opiniões discutem-se!
No Artimanha encontrei uma discussão sobre interpretação de Chopin. O caso Pollini/Chopin foi debatido, embora, com algumas interrupções... daquelas de quem acredita que escrever uma opinião num blogue é um acto de auto-promoção ou coisa que o valha!
Agora venho eu fazer algumas sugestões para a audição desse grande compositor chamado Chopin. Digo grande compositor, porque o é. É muito comum menosprezar a produção de Chopin por este ter composto quase exclusivamente para piano. Asneira da grossa!!! Toda a produção de Chopin foi altamente inovadora, quer ao nível harmónico (avançou anos luz, numa série de coisas), quer na revolução técnica provocada nesse fantástico instrumento que é o piano. Acho piada à "acusação" de que só escreveu para piano, queriam o quê? Que escrevesse octetos de sopros sem ser esse o seu terreno composicional!? Atenção, que na moda composicional portuguesa não fica bem falar bem de Chopin! Os mais eruditos dizem até que o senhor compositor nem sabia orquestrar, que basta ver os concertos para piano, enfim, balelas! Os dois concertos de piano de Chopin (fora os ditos cujos de violino...) são muito bem orquestrados, tendo em atenção o estilo de escrita, as técnicas de composição e a especificidade da técnica pianística deste compositor.
Mas deixemo-nos de analisar este tipo de reacções tipificadas de determinados grupos pré-formatados senão ainda tenho que falar do caso Beethoven... sim, também é de bom tom, no meio composicional português, falar mal do mestre de Bona!
Voltemos ao Chopin. Para mim Chopin e a sua obra tem sido um livro aberto a constantes mudanças no que diz respeito às interpretações. A sua música é tão boa que há sempre quem possa surpreender-nos mesmo aqueles que nunca haviamos ouvido (tal como Ivan Moravec que conheci há pouco).
Vamos então às sugestões (3 apenas), às opiniões, à discussão de ideias, chamem-lhe o que quiserem!

Valsas - Vladimir Horowitz (desde sempre...)
Prelúdios - Evgeny Kissin e Maurizio Pollini (alguns são melhores por um, outros, por outro)
Estudos - Maurizio Pollini (sempre, perfeitos!)

Para ouvir, deixo esta monumental interpretação, seguramente a que mais gosto, do último prelúdio, op. 28 nº 24 em ré menor, tocada por Evgeny Kissin.