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terça-feira, 18 de abril de 2017

Perguntámos a...


De que se fala quando falamos de música para crianças e jovens?

Penso que quando nos referimos a música para crianças ou jovens se fala necessariamente de música de alta qualidade. As crianças absorvem tudo o se lhes dá e, por isso mesmo, é nestas faixas etárias que se deve investir na mais alta qualidade estético-musical. As crianças e os jovens não estão formatados para gostar de um certo tipo ou estilo de música, nem reagem à música com nenhum tipo de preconceito, e, como tal, acabam por conseguir, com relativa facilidade, ouvir música com algum grau de complexidade ou executar obras destinadas às suas características física e psicológicas sem problemas.


Porque é que um compositor escreve música para estas faixas etárias?

Um compositor escreve para estas faixas etárias antes de mais porque gosta, assim penso eu, que escrevo com bastante frequência música para a infância. Aqueles que não o fazem têm possivelmente um dos seguintes motivos: ou não escrevem música infantil porque não apreciam o subgénero, ou, simplesmente, porque não o conseguem fazer. Zoltan Kodally afirmava que ninguém deveria considerar-se demasiado importante para escrever para crianças, e que, pelo contrário, deveríamos tentar tornar-nos suficientemente bons para o fazer. Esta frase diz bastante do que é colocar um compositor a escrever para um universo musical sem limites, de histórias de encantar e desencantar, de sonhos bons e maus, de surpresas permanentes, etc.


Quais as principais questões de natureza técnica, artística/estética (ou outras) a que se pretende dar resposta?

Quando se escreve obras musicais com vista à execução por crianças é necessário colocar em equilíbrio dois aspectos fundamentais, por um lado alguma elementaridade técnica, obviamente ajustada à idade e desenvolvimento musical da criança ou jovem, por outro lado, um rigor estético sem qualquer margem de manobra ao facilitismo e à banalidade do dejá vu. Temos ainda uma situação complementar a esta que são as obras que directa ou indirectamente versam o mundo infantil sem, no entanto, serem música para crianças interpretarem. Evidentemente continuamos a falar de música para a infância, não na perspectiva de executantes, mas sim, na de ouvinte. Basta lembramo-nos do conto musical “Pedro e Lobo” de Sergei Prokofiev para percebermos ao que me refiro. É música para crianças, mas não é para estas a tocarem, serve essencialmente o propósito o usufruto de quem a recebe. Seja qual for o papel a que o compositor é sujeito, a de escrever música para crianças tocarem ou para as crianças receberem, de uma coisa estou certo: no sentido, puro e simples, do estético e do “belo musical” o compositor não deve ter limites quando se dedica à música para a infância uma vez que para estas tudo pode ser válido e bom musicalmente. Para uma criança é igualmente interessante ouvir uma guitarra acústica a tocar uns acordes, um cluster num piano, um glissando numa harpa, o sussurrar de um coro, um rufar de tambor, e/ou, em alternativa, sobreposição ou alternância, uma ressonância amplificada de uma porta a bater com força, um som sintético, o barulho de um motor de um barco ou o som de uma corneta de plástico. A responsabilidade de fazer com que esta parafernália de “instrumentos musicais” se tornem música para a infância é sempre, em última análise, do compositor adulto, organizador da matéria e discurso sonoro, que, da melhor forma, tenta entrar no universo e imaginário ilimitado do ouvir dos mais pequenos. As crianças só são mais pequenas do que os adultos, não têm, por serem crianças, um gosto diminuto quando comparado com os adultos. Até pelo contrário...

Paulo Bastos

APEMNEWS JUN JULH 2013

terça-feira, 11 de abril de 2017

bastava fazer umas "flores" bem feitas

"Para ensinar bem é preciso saber bem o que se vai ensinar"
Nuno Crato

Inacreditável, andei anos e anos da minha vida como professor a pensar que esta premissa era verdade. Entretanto fui ficando convencido do contrário, que nem sequer era importante saber alguma coisa do que se ia ensinar, e que bastava fazer umas "flores" bem feitas, andar nas escolas com ar de quem sabe o está a fazer, e colocar-se ao lado dos mandantes com um ar sorridente e patético. Agora vem este senhor da pedagogia moderna confundir-me...

(facebook | 24 de Novembro de 2014)

domingo, 19 de março de 2017

Foi ontem, em 2003...























Já lá vão muitos anos...
Algumas fotos (espero que não se importem...) e plano do primeiro concerto totalmente dedicado à música electroacústica no Conservatório onde ainda hoje trabalho. Estavam comigo, Ana Seara, Osvaldo Fernandes, Sara Claro e Sofia Sousa Rocha. Foi ontem, em 2003.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

entre o Musical e o amusical

(parabéns José Diogo, Francisco, Júlia e Pedro)

relembrando um parágrafo final de um texto que escrevi em 2012.

ele há coisas que nunca se escondem, e a maior é, sem dúvida, a ignorância. A minha questão fundamental em relação à música, quer seja ela a portuguesa ou outra, é sempre a mesma e contradiz o espírito das regras “sociais” e democráticas, é aquela que banaliza a célebre frase de que “o gosto não se discute”! Discute, pois. E, concretamente, o gosto musical discute-se e educa-se. Só é pena é que já ninguém esteja para isso, nem para educar nem para ser educado.

in “sobre a ausência de gosto musical”


texto integral em http://tonicadominante.blogspot.pt/2012/06/sobre-ausencia-de-gosto-musical_8240.html

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Confusão, decidam-se!

"Para ensinar bem é preciso saber bem o que se vai ensinar"
Nuno Crato

Inacreditável, andei anos e anos da minha vida como professor a pensar que este premissa era verdade. Entretanto fui ficando convencido do contrário, que nem sequer era importante saber alguma coisa do que se ia ensinar, e que bastava fazer umas "flores" bem feitas, andar nas escolas com ar de quem sabe o está a fazer, e colocar-se ao lado dos mandantes com um ar sorridente e patético.
Agora vem este senhor da pedagogia moderna confundir-me...

domingo, 4 de maio de 2014

Tónica Dominante fez 9 anos em 19 de Março!

Para quem ainda se lembra…
começou em 2005, já lá vão 9 anos!
O que eu passei para manter isto online, ninguém imagina. A censura sempre existiu, antes e depois do 25 de abril. Na altura em que escrevia muita coisa sobre o ensino especializado da música tinha visitas diárias de "bufos" que imediatamente colocavam a par os que tinham o poder de me excluir, de me espezinhar o quanto pudessem, agiam de forma organizada na sua mediocridade e mesquinhez.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O desembaraçado, o opinioso e o consequente analfabetismo musical português


(...) Segundo Manuel Pedro Ferreira, “para mal dos nossos pecados a necessidade de habitar um terreno musical próprio tem sido reconhecida por muito poucos”. No momento de encontrar responsáveis o autor recorre a figuras de retórica: “Os principais responsáveis por essa falta de reconhecimento têm sido, segundo julgo, a tacanhez e o snobismo, qualidades que vejo representadas, na minha galeria de tipos sociais, pelas figuras do desembaraçado e do opinioso. [...] Para o desembaraçado, a música pode bem viver numa tenda, desmontável à mínima tempestade orçamental. Para o opinioso, a boa arquitectura sonora nasce das recensões fonográficas e dos escritórios dos agentes e prescinde de alicerces. Ambos acham que os verdadeiros compositores são super-homens cujo génio se manifesta independentemente das condições de aprendizagem e exercício do seu ofício, ignorando que o desabrochar criativo exige estímulos sociais e um diálogo permanente, através dos executantes com o resultado sonoro” (Ferreira, 2007: 16).
Ferreira considera que “a comparação com a vida musical de outros países europeus, conjugada com uma maior preparação técnica e teórica dos organizadores musicais, possa vir num futuro próximo a sapar a tradicional influência do snobismo e da tacanhez nacionais. Tal expectativa não impede que essa influência tenha marcado de forma extremamente negativa o século findo” (ibid.). Chegando a conclusões relativamente próximas, Paulo Ferreira de Castro tinha afirmado na sessão comemorativa do Dia Mundial da Música em 1991: “Confrontemo-nos de uma vez por todas com esta realidade brutal e incompreensível num país que é parte integrante da Comunidade Europeia: a esmagadora maioria da população portuguesa é absolutamente analfabeta em matéria de música, porque o sistema escolar português é praticamente omisso em matéria de formação geral nesta área”. Mais adiante: “O público português, sobretudo o lisboeta – ou pelo menos uma parte significativa dele – é seguramente o mais snob e ao mesmo tempo o mais ignorante da Europa”. E prossegue: “Portugal tem, apesar de tudo, uma cultura musical antiga – quase completamente desconhecida, aliás, do cidadão comum – [...] mas – e o facto constitui motivo de verdadeira vergonha nacional – talvez nenhum outro país da Europa preste tão pouca atenção à conservação e valorização do seu património musical. Com excepção de algumas iniciativas da Fundação Calouste Gulbenkian, e outras pontuais, da Divisão de Música da Direcção Geral da Acção Cultural (nomeadamente da publicação aliás muito irregular de discos consagrados à música portuguesa) e do Departamento de Musicologia do Instituto Português do Património Cultural, muito pouco se tem feito no sentido de divulgar a herança musical no nosso país, e mesmo o investigador especializado esbarra em múltiplas dificuldades na tentativa de aprofundar o conhecimento desse sector fundamental da cultura portuguesa” (Castro, 1991).
Quanto mais se avança nesta direcção mais facilmente se chega a zonas profundas da sociedade portuguesa. Nos textos que acabamos de ver, no momento em que se trata de apontar os responsáveis recorre-se normalmente ao défice estrutural ou a figuras de retórica, evitando, deste modo, a identificação explícita de responsáveis directos e uma análise de práticas institucionais concretas. Paulo Ferreira de Castro aponta responsabilidades genéricas ao analfabetismo musical do público, ao snobismo lisboeta e à insuficiente acção dos organismos oficiais, e a interpretação de Manuel Pedro Ferreira não identifica com total clareza os responsáveis da falta de reconhecimento: “a situação do compositor em Portugal está, de resto, ligada ao tratamento de que a Música em geral tem sido objecto, até há pouco, por parte das instituições do Estado” (Ferreira, 2007: 14). Onde está a raiz deste conjunto de problemas?

Nós – a tacanhez – e os outros, in MÚSICA E PODER – Para uma sociologia da ausência da música portuguesa no contexto europeu de António Pinho Vargas