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terça-feira, 13 de novembro de 2012

simples versus complicatus (não, não é a flor!)



É assim, em Lisboa as coisas funcionam de uma forma mais óbvia, mais simples, mais assumida. Ou seja, Pequenos Cantores do Conservatório de Lisboa e a Camerata de Lisboa, maestrina Joana Carneiro, álbum de Natal, Canções de Natal Portuguesas, compositores contemporâneos portugueses, como Carlos Marecos, Vasco Pearce de Azevedo, Sérgio Azevedo e João Madureira, todas os temas escritos tendo como ponto de partida o cancioneiro tradicional português.
A ser no norte, não podia ser assim, não, nem pensar! Tinha que ser uma coisa em Grande! O maestro tinha que ser estrangeiro, de preferência com um nome bem complicado de pronunciar, as músicas teriam que incluir obrigatoriamente, porque toda a gente gosta, o "A Todos um Bom Natal", o "Noite Feliz" e o "Jingle Bells", o cancioneiro tinha que ser da freguesia de nascença da pessoa que organizasse o evento e posterior gravação, e quanto aos compositores é melhor ficar por aqui neste breve, irónico e patético comentário...

domingo, 9 de setembro de 2012

Querido Estado (por João Machado Durão)


Uma carta ao Estado de um amigo meu, João Durão Machado, que subscrevo inteiramente uma vez que trabalho desde 1989.

Querido Estado,
Ouvi dizer que cada português deve €17.000 aos nossos credores, que nunca ninguém diz quem são. Parece que este drama se deve à imprudência com que os governos e, sobretudo, o povo se andaram a comportar, vivendo acima das suas possibilidades e gastando mais do que
 podiam.
Também compreendo que os sacrifícios que se impõem para ultrapassarmos esta grave situação não podem ser distribuídos por todos da mesma maneira; EDP, GALP e outras grandes empresas têm até recebido o prémio de estarem a ser poupadas aos sacrifícios, o que se deve, evidentemente, a terem feito uma gestão prudente e eficaz das suas contas durante os anos que antecederam a presente crise.
Dentro da mesma lógica, tenho a dizer que, nos tempos da fartura, eu próprio fui tendo bastante cuidado com as minhas finanças pessoais, uma vez que trabalhei cerca de dez anos em condições sub-precárias, por assim dizer. A saber, mal pago, sem contrato, sem descontos para a Segurança Social (a não ser os que eu próprio fiz), sem entidade patronal, sem subsídios de férias nem de Natal, recebendo nove, dez e, às vezes, onze salários anuais. Durante este tempo, fui trabalhador-estudante, pois acreditei na importância da minha formação para um futuro melhor para mim e para a sociedade que integro. Todos os dias, levantei-me às seis da manhã, saindo cedo da minha "zona de conforto" para, entre longas caminhadas e trajectos de combóio, poder acumular o trabalho e os estudos. Ainda assim, durante esta época de bonança, consegui juntar uma pequena poupança, que ainda conservo.
Assim, venho propor o seguinte: eu pago a minha parte da dívida e, em troca, tu passas a pagar-me os subsídios de Natal e de férias, passas a actualizar as minhas remunerações de acordo com a inflação, repões o IVA nos 17% em que estava, integras-me no quadro da escola em que trabalhei mais de três anos consecutivos a tempo inteiro (cumprindo, assim, uma lei criada por ti e a que te tens, por alguma razão que desconheço, esquivado), repões o meu horário de trabalho como ele era dantes, reduzes a minha taxa de IRS para o nível em que anteriormente estava, repões o direito que tinha a deduzir em sede de IRS as despesas de saúde, educação e amortização do capital em dívida de crédito à habitação, e crias duas empresas públicas de distribuição de energia e de comercialização de combustíveis fósseis que funcionem nas mesmas condições monopolistas e abusivas em que, outrora, GALP e EDP operavam (só que, desta feita, vão ter de fazer-lhes concorrência). Por último, repões o abono de família entretanto retirado, para que a minha filha possa, mais tarde, emigrar e aliviar o país da saturação do mercado de trabalho. Ao fim de dez anos, é capaz de dar para um bilhete de avião só de ida.
Que tal?
Com o encaixe financeiro que espero conseguir, se não me der para esbanjar tudo em férias no Pacífico Sul e carros de alta cilindrada, em pouco tempo terei dinheiro suficiente para te ajudar a construir a quarta auto-estrada Porto-Lisboa, a terceira auto-estrada Sertã-Odemira ou o Estação Espacial Inter-planetária de Palmeira-Frossos!
Teu criado sem préstimo,
João Durão Machado

sábado, 7 de julho de 2012

A(c)tualização do meu melhor Post de sempre sobre o EEM!

Porcaria 691, ITC, para que serve isso aí? 1 contra 5! Mais a ANQEP... 26 a 30 alunos, venham dai! DL139/2012, DL132/2012, Decreto-Lei n.º 137 - 2012 de 2 de Julho Altera o Decreto Lei 75-2008 de 22 de Abril, Portaria 942-2009 de 21 de Agosto - Recrutamento pessoal docente para o Ensino Artístico Especializado da Música e da Dança, Dire(c)tores, sempre a Portaria 693-98 de 3 de Setembro Habilitações - grupos de recrutamento M (EAE Música), Coordenadores, Relatórios de avaliação, Contratados, informação intermédia, Encarregados de Educação, adjuntos, comissões, conselhos disto e também daquilo, geral, pedagógico, turma, de dire(c)tores de turma, da merda, Planos de estudo dos cursos artísticos especializado para consulta pública 23 de abril, pareceres, poder, não pareceres, a(c)tas e desa(c)tas, pcts, vai dar aulas ó malandro! Substituição de trombone, instrumento, composição, 2000/2001, requerimento, workshops, subsídios (foram-se 2+1 mês), critérios, matrizes, gente com ar de quem sabe o que faz, concertos, recitais, certificação, formação, participação disciplinar, processo disciplinar (mentirosos), inter-relações, a(c)tividades, dossier, justificação falsa de faltas, taxa de sucesso, pouca vergonha, planos, de apoio recuperação acompanhamento atendimento explicações não pagas recurso sala de atendimento ameaça formação cívica música (como?) cotações formação musical oferta de escola acompanhamento e improvisação baixo contínuo acústica e organologia (para que serve isso aí?)      história da cultura e das artes (?)         laboratório de composição (?)             leitura de partituras (?)               instrumento de tecla (?)                      caramujo!

ME, me, me, me, MEC, mec, mec, mec, mec, ANQ, anq, anq, anq, anq, anq, desanq, desanq, ANQEP, anqep, anqep, anqep, anqep, anqep, anqep, anqe, anq, an, a, a, a, a,  Aiiiiiiiiii!!!!!!!!
xiiiiiiPUM!

O meu melhor Post!

Este foi o último  e melhor (modéstia a parte) documento que escrevi num blogue sobre o assunto "ensino especializado da música". Volto agora a republicar  este texto uma vez que o acho actual nos seus conteúdos, na sua demárche ao longo destes anos e ajustado à actual situação. Foi publicado em 2008, há  4 anos anos portanto! Deixo-o na integra, com os comentários de então, com tudo, vá!
Aplicação letal retórica contraditório falta de seriedade, fora os especialistas, 310/83 atrofia equivalências, além de não ser residual, meio artístico, legislação aguente! Forma sujeitos iluminados. Abril, “sábios” artífices privadas insultuosa exemplo... ME, figura do professor!? Estética, uns com as brancas, docência. Mito, alguns anos! Lucidez e persistência, música pedra burocrática “democratização” developmental benefits, sem orientação, progressão na carreira. Encontro frustradas “javardice” sindicalizada forças obstrucionistas. Ora foda-se... “muito pouco" ensino? Revolução vocacional? Training, endireitar a sombra da vara torcida, habilitações arbitrária. Europa, 693/98, esvazia “músicos”, 6, com as pretas, aprendizagem “fetiche”, mestres ou discípulos, investimento artes tormento, “fazer de conta que faz”, academias especializado, ainda pior, “nada” radical EB23 licenciados chefiadas exigência, aulas individuais, foro artístico, comissão profundidade profissionalizá-los intimidações “refundar” lei, massa crítica, solística, escolas superiores, atrofiante.Natureza Artística, meia dúzia, “cada vez menos”! O gato sem “estatutos de excepção”, coragem, alfabetização musical, l’amélioration des performances!!! Relatório 1930 (nada) ramalhete! Avaliação, ensino colectivo, retrocesso, machadada final, várias secções, petições instrumento diminuição. Conservatórios programas divertem grupo aulas estudo Yamaha? Dúvidas «crenças», tenra idade, integrado (caro) irónicas barulho palminhas, ar mais ou menos ocupado, degradação supletivo processo kafkiano! Genérico “UTOPIA! UTOPIA!” físico-vocal “talento” pedagógicas, auto-encantamento, “tribo” ancestral, performance tutela, levamos as coisas muito a peito!!!Musical, especificidade, ditos doutores insultos públicas, fim.
11 comentários:


Excelente texto! Muito menos confuso e mais sério que toda a legislação obrada durante os últimos 30 anos!




Caro/a Fui Eu e só que,
muito obrigado pelas suas palavras elogiosas. De facto, esforcei-me por fazer um texto sério, isento e verdadeiro sobre o assunto em epígrafe.
Os meus cumprimentos.




Meu Deus ... isto deve ser como a música erudita contemporânea, vai levar tempo a compreender e assimilar :-) :-) :-) :-) Estou a brincar, estou mesmo (mesmo), a brincar. Mas que vai demorar a interpretar lá isso vai ... :-)




Caro Fernando, não se canse a tentar interpretar esta mensagem! Ela está encriptada ao mais alto nível!!!
;-)




Ouso apoderar-me das tuas palavras e dar-lhe meu cunho pessoal. Brincar c/algumas delas para dar voz ao sentimento de frustração geral ao qual nos condenam.
Pelo que poderá assim ser esta uma interpretação de tão genial premissa, td.
“muito pouco” “sábios” são os da “democratização”, que falam em “refundar” para “fazer de conta que faz” algo quando na realidade não há “nada”.
os “músicos” são “cada vez menos”. E de "músicos" parecem já “nada”
Esta “tribo” apenas c/“estatutos de excepção” são apenas um “fetiche” das «crenças» de outrora que hoje não mais do que uma “UTOPIA! UTOPIA!”
Abraços com votos de Coragem,Perseverança e Força.
Porque um Blog "vendido" este não serás nunca!
;) Gerly




Olá Gerly,
gostei da tua reinterpretação das palavras soltas, bravo!




td
Com jeito conseguiam-se fazer meia dúzia de outros textos com a mesma "tónica dominante". A matéria é mais que muita e quem estiver minimanete por dento do assunto não terá muita dificudade em lhe dar corpo .
Criatividade também é isto.
Um beijinho




Está excelente! é mesmo isso sem tirar nem pôr. 


E já agora, se achares que vale a pena actualiza o meu endereço para http://artimanha.org




Gi, sem dúvida, com criatividade faz-se muito com estas palavras, e não é assim tão difícil.




Cara Artimanha,
há que tempos que não via novidades no teu blog! Mas agora percebo o motivo, mudança de casa e tal, e com endereço próprio, sim senhora...
Vou já mudar o link do blogspot para o novo.
:-)




presto a minha sincera homenagem à(s) série(s) utilizada(s).
para variar um texto a sério. Pode ser que assim os artistas consigam perceber.


sexta-feira, 29 de junho de 2012

Concerto Final da Classe de Composição


Foi assim ontem, correu bem mas demasiado extenso, consequência natural tendo em conta o empenho dos alunos envolvidos e da qualidade das suas composições...
Todos mereciam ser ouvidos!
Parabéns aos compositores e um agradecimento especial ao Francisco pela força e capacidade de liderança inegável com os seus colegas. Obrigado a todos.



CONCERTO FINAL DA CLASSE DE COMPOSIÇÃO

Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga

Auditório Adelina Caravana               18:30, 28 de Junho 2012

Ladies and Gentlemen (eletrónica) - Diogo Silva (11º ano: Laboratório de Composição)

Passing dream ------------------------ Pedro Lima (12º ano: Composição)
piano, Júlia Durand
clarinete, Bárbara Dias Luis

Contraponto a Dois (flauta e violino) -- Patrícia Oliveira (10º ano: Composição)
flauta, Carlos Miguel Araújo
violino, David Correia

hereafter (eletrónica) -- António Novais (11º ano: Laboratório de Composição)

Pensées d'eau (chanson) -------------- Júlia Durand (12º ano: Composição)
poema, Júlia Durand
barítono Ernesto Clemente
piano Júlia, Durand

Contrastes (viola e guitarra) --------- Patrícia Oliveira (10º ano: Composição)
viola, Sofia Sousa
guitarra, Frederico Meireles

Strange Dream (eletrónica) - Ana Catarina Barros (11º ano: Laboratório de Composição)

Ocaso (quinteto) --------------- Ana Catarina Barros (11º ano: Composição)
direção, Francisco Fontes
flauta, Carlos Miguel Araújo
corne Inglês, Maria Fontes
trompa, Pedro Silva
violoncelo, Ana Carolina Ferreira
piano, Bárbara Dias Luís

Three whispers for a tree (quinteto) ---- Júlia Durand (12º ano: Composição)
direção, Francisco Fontes
clarinete, Pedro Lima
marimba, Cláudio Miranda
viola, Ana Teresa Alves
violoncelo, Carolina Freitas
piano, Júlia Durand

Electronik Peace (eletrónica) ----------- Jorge Ramos (11º ano: Laboratório de Composição)

Momentos Suspensos (quinteto) --- Francisco Fontes (12º ano: Composição)
direção, Francisco Fontes
flauta, Carlos Miguel Araújo
oboé, Maria Fontes
clarinete, Célia Teixeira
fagote, Inês Coelho
trompa, Pedro Silva

Reflection (orquestra de cordas) --- João Tiago Araújo (12º ano: Composição)
direção, Ernesto Clemente
violino I, Joaquim Aníbal, José Nascimento
violinos II, Bernardo Barreira, Alexandre Rêgo
violas, Ana Teresa Alves, José Miguel Freitas, Sofia Sousa
violoncelos, Carolina Freitas, Carolina Rodrigues
contrabaixo, Francisca Machado

Obra experimental nº1 (música de câmara) -------- David Ramalho (12º ano: Composição)
fagote, Inês Coelho
percussão, Beatriz; Claudio Miranda
piano, João Alves, Isabel Romero
violinos, Alexandre Rêgo, Joaquim Pereira
violoncelos, Miguel Braz, Carolina Freitas

Sexteto nº 1 -------------------- Francisco Fontes (12º ano: Composição)
direção, Francisco Fontes
flauta, Carlos Miguel Araújo
clarinete, Célia Teixeira
trompa, Edna Gonçalves
violino, David Correia
violoncelo, Carolina Freitas
contrabaixo, Raquel Quintas

unfinished Bridges (sexteto) ----------- Pedro Lima (12º ano: Composição)
direção, Francisco Fontes
flauta, Carlos Miguel Araújo
clarinete, Célia Teixeira
clarinete baixo, Carolina Reprezas
trompa, Edna Gonçalves
violino, David Correia
violoncelo, Carolina Freitas

Manto (electrónica em tempo real) --------- David Ramalho, Francisco Fontes, João Tiago Araújo, Júlia Durand, Pedro Lima (12º ano: Laboratório de Composição)

Classe dos Professores:
Ana Moura: 10º ano: Composição
André Ruiz: 11º ano: composição; 12º ano de Laboratório de Composição
Paulo Bastos: 12º ano de composição; 11º ano de Laboratório de Composição

sábado, 23 de junho de 2012

Portuguese Brass, Marina Pacheco e Coro dos Pequenos Cantores de Esposende



Foi ontem! No Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga, tudo memorável, fantástico, a qualidade global dos Portuguese Brass, a inegável e fantástica composição (Salmo 28) e orquestração de Osvaldo Fernandes, a jovem soprano Marina Pacheco, já com muitas provas dadas na sua carreira e, finalmente, o excelente coro dos Pequenos Cantores de Esposende, que deixou o público todo de boca aberta pela afinação (forma como se entra numa nota, como se mantém essa nota e como se sai dessa nota!), seriedade e qualidade excepcional do repertório escolhido, nomeadamente pelo escolha de John Rutter, e por fim, pela Direção de Helena Lima.



Os Portuguese Brass têm o prazer de partilhar o programa do Concerto desta noite em Braga, às 21h30, que contará com a participação especial da soprano Marina Pacheco e do Coro de Pequenos Cantores de Esposende (Direção: Helena Lima).

1ª PARTE:

- "Spirit of Brass" - Enrique CRESPO
- "Abertura Festiva" - Dmitri SHOSTAKOVICH (Arr. Peter LAWRENCE)
- "Adagio do Oratório de Páscoa" - J.S.BACH (Arr. Carlos Martinho)
- "Ave Maria" - Camille SAINT-SAËNS
- "For the Beauty" - John RUTTER
- "All Things Bright - John RUTTER
- "Ave Maris Stella" - Antonin DVORAK (Arr. Osvaldo Fernandes)
- "Pie Jesu" - Gabriel FAURÉ (Arr. António Silva)
- "Salmo 28" - Osvaldo FERNANDES

2ªPARTE:

- "El Pasodoble y Olé!" - Enrique CRESPO
- "Oblivion" - Astor PIAZZOLA (Arr. Osvaldo Fernandes)
- "Milonga de la Anunciacion" - Astor PIAZZOLA (Arr. Nelson Silva)
- "Romanza y Variaciones" - Enrique CRESPO
- "Chorinho do Brasil" - Osvaldo FERNANDES

domingo, 17 de junho de 2012

sobre a ausência de gosto musical

Para além da questão do ensino especializado da música, que é o que tema que sempre mais me preocupou, ainda há a música contemporânea portuguesa em si mesma. A maior parte das obras que escrevo (desde 1990 sensivelmente) nunca foram tocadas, e aquelas que o foram não passaram da primeira e única vez. A comparação que posso estabelecer e forma mais simples de perceber é a de um escritor que escreve um livro para crianças, por exemplo, e apenas uma criança no mundo o ler! Não há qualquer forma, que eu esteja a ver de este tipo de coisas mudar por diversos motivos.
(comentário meu algures no facebook)

Quem ler o que acabei de escrever pode tirar vários tipos de conclusões...

pode eventualmente pensar que estou a aludir aos velhos problemas dos grupos daqui e dali, dos que são mais privilegiados no que à divulgação da sua música concerne, ou das questões das periferias - onde agora me incluo cada vez mais uma vez que me mudei do Porto para Braga, uma cidade sem qualquer tipo de estimulo cultural sério que eu vislumbre - e dos centros de poder, ou, pura e simplesmente, pode o leitor pensar, que afinal o tipo (eu) não tem é nada decente para mostrar e está para ali a lamentar-se. Mas desenganem-se os que põem acreditam em qualquer uma das hipóteses simplistas anunciadas acima! Sempre me passou literalmente ao lado todos este tipo de quesitos. No que diz respeito à composição portuguesa penso que tivemos um longo e sinuoso período, durante o século XX, verdadeiramente negro no que à qualidade diz respeito, com uma série de clichés atrasados do que melhor se fazia pelo resto do mundo em termos musicais. A época a que me refiro, com algumas excepções, é o chamado “antigo regime” que fez também os seus estragos no que à música portuguesa dizia respeito. Agora temos este modelo de “Actual Regime” disfarçado de coisa boa e democrática que também é, e muito, repressivo. A ressaca do antigo regime é o “Actual Regime” que hoje se vive. Voltando à questão central deste pequeno prelúdio, que é a composição portuguesa, sempre achei que a diferença de divulgação e amostragem da música dos compositores vindos de Lisboa e os do Porto se justificava. Pessoalmente, nem sequer estranho o facto de a massa composicional de Lisboa estar muito mais representada em Portugal (nomeadamente no norte) e no resto do mundo. Afinal há uma diferença de qualidade e quantidade abissal entre aquilo que foi produzido de um lado e do outro lado do país ao longo dos últimos 20 anos. É evidente que, para além de nós mesmos, tudo tem uma causa e responsáveis. Os poucos compositores portuenses que saíram do curso de composição da escola superior de música nos anos noventa não foram formados, foram, de forma lapidar, claramente deformados! Nas duas décadas seguintes, alguns apenas, iniciaram um processo lento de reconstrução e desconstrução de uma série de tiques e fobias confusas transmitidas pela intitulada geração de 60 reiniciando tardiamente a recuperação do seu espaço enquanto compositores. Alguns endireitaram-se e sempre escreveram música, outros não, e ele houve outros ainda que não tinham mesmo porque se endireitar.
Conheço, e sou leitor atento do que melhor se escreve sobre a produção cultural e, em especial da produção musical, no nosso país. Confesso-me como alguém que partilha uma grande parte das lúcidas e claras ideias difundidas por António Pinho Vargas na sua tese de doutoramento – “Música e Poder: Para uma sociologia da ausência da música portuguesa no contexto europeu”. No entanto, como em tudo, nem sempre nos revemos na totalidade dos argumentos de quem mais nos convence e há algo que percebi como não referido no que a “ausência da música portuguesa na europa” diz respeito. Num pais, pequeno como é o nosso, assistiu-se, até sensivelmente ao final de século XX, a uma clara assimetria entre a formação de compositores oriundos de Lisboa, que foram sempre muitos, e os do Porto. Será que esta realidade concreta não terá tido os seus efeitos nefastos para além das vitimas mais próximas, ou seja, os projectos de compositores do norte? Será que esta questão não é ela mesma uma das causas do enfraquecimento da própria realidade composicional para além das fronteiras territoriais? Porque a evidente ausência da música portuguesa na europa e consequentemente em Portugal? Para além das muitas razões da fraca visibilidade da música portuguesa na europa apresentadas por António Pinho Vargas, com que concordo na totalidade, na sua tese de doutoramento e livro, poderia, com certeza, constar também esta assimetria que refiro aqui, a de um país provinciano que nunca sairá dos ambientes que Eça de Queirós tão bem caracterizou.
Note-se que eu nem sequer acho que a música portuguesa moderna e contemporânea tenha que ter visibilidade só porque sim! Defendo mesmo que um bom programa de concerto não tem que ter música portuguesa, mas porque é que a há-de ter? Onde está isso escrito? É, aliás, de um provincianismo absoluto alguém pensar que deveria ser assim, só porque nos orgulhámos de ser portugueses, em nome de um qualquer tipo de nacionalismo bacoco, nada presente em praticamente tudo o que fazemos. Muito sinceramente, tanto me faz ser português como ser outra coisa qualquer! É-me indiferente... o que penso, isso sim, é que um bom programa de concerto deve primar pela forma de organização e interação entre as várias obras nele presentes e, acima de tudo, pela qualidade e coerência do objecto estético aí revelado em música. O que não se pode é colocar intermediários castradores e desabilitados (não me refiro a habilitação académica, mas sim, aos que vivem felizes sem o mínimo de saberes culturais) a organizar programas culturais de instituições, programas mal conduzidos, ou, até, in extremis, a gerir a própria cultura. Parece-me que, com os erros da história da música pouco ou nada se aprendeu por cá, basta lembrar as escandalosas estreias de obras Edgard Varèse em Paris, pois nada poderia funcionar, como é óbvio não ouviria com normalidade uma estreia de uma obra de Varèse entre Mozart e Mendelssohn. Mas todas estas questões têm os seus quês… para vermos pontes entre compositores diametralmente opostos é sempre necessário termos uma visão de conjunto que justifique as nossas escolhas. A título exemplificativo, e na primeira ideia que me ocorre, porque é que um concerto que cruze um certo tipo de obras de Bach, Kurtág, Janacek, Webern e Scriabin vai funcionar? A resposta a esta pergunta está com certeza na evidência de pensamento de quem as propõem enquanto programa de um eventual concerto. Para tal é necessário alguns saberes culturais, não muitos, mas alguns... ele há coisas que nunca se escondem, e a maior é, sem dúvida, a ignorância. A minha questão fundamental em relação à música, quer seja ela a portuguesa ou outra, é sempre a mesma e contradiz o espírito das regras “sociais” e democráticas, é aquela que banaliza a célebre frase de que “o gosto não se discute”! Discute, pois. E, concretamente, o gosto musical discute-se e educa-se. Só é pena é que já ninguém esteja para isso, nem para educar nem para ser educado.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Documento Final de encerramento do assunto "Ensino Especializado da Música" neste blog!

Aplicação letal retórica contraditório falta de seriedade, fora os especialistas, 310/83 atrofia equivalências, além de não ser residual, meio artístico, legislação aguente! Forma sujeitos iluminados.
Abril, “sábios” artífices privadas insultuosa exemplo...
ME, figura do professor!?
Estética, uns com as brancas, docência. Mito, alguns anos! Lucidez e persistência, música pedra burocrática “democratização” developmental benefits, sem orientação, progressão na carreira. Encontro frustradas “javardice” sindicalizada forças obstrucionistas. Ora foda-se... “muito pouco” ensino?
Revolução vocacional?
Training, endireitar a sombra da vara torcida, habilitações arbitrária. Europa, 693/98, esvazia “músicos”, 6, com as pretas, aprendizagem “fetiche”, mestres ou discípulos, investimento artes tormento, “fazer de conta que faz”, academias especializado, ainda pior, “nada” radical EB23 licenciados chefiadas exigência, aulas individuais, foro artístico, comissão profundidade profissionalizá-los intimidações “refundar” lei, massa crítica, solística, escolas superiores, atrofiante.
Natureza Artística, meia dúzia, “cada vez menos”! O gato sem “estatutos de excepção”, coragem, alfabetização musical, l’amélioration des performances!!! Relatório 1930 (nada) ramalhete! Avaliação, ensino colectivo, retrocesso, machadada final, várias secções, petições instrumento diminuição. Conservatórios programas divertem grupo aulas estudo Yamaha? Dúvidas «crenças», tenra idade, integrado (caro) irónicas barulho palminhas, ar mais ou menos ocupado, degradação supletivo processo kafkiano! Genérico “UTOPIA! UTOPIA!” físico-vocal “talento” pedagógicas, auto-encantamento, “tribo” ancestral, performance tutela, levamos as coisas muito a peito!!!
Musical, especificidade, ditos doutores insultos públicas, fim.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Duas Petições

(...) se forem implementadas as medidas para o ensino artístico impostas pelo Governo. Entre as novas regras, está a obrigatoriedade de um sistema integrado de ensino e o fim das aulas de primeiro ciclo.
SIC online

Há duas Petições neste momento a correr, uma abrangente, onde se foca o problema da aplicação letal destas medidas a cerca de 100 Escolas de Ensino Especializado da música, da dança e teatro, entre 6 públicas e privadas, e outra, decorrente da posição da Escola de Música do Conservatório Nacional de Lisboa.

(Estas duas Petições apesar de terem objectivos comuns, tenho que pensar assim, podem e devem ser assinadas, as duas!)

Cá estão elas!

domingo, 21 de outubro de 2007

Educação Artística FORUM

Foi inaugurado no dia 19 deste mês no Blogue Ideias Soltas o Educação Artística - FORUM.

Pense o que pensar sobre as temáticas lá abordadas, registe-se e participe. Nas palavras do próprio autor e coordenador do Forum:
Todos são convidados a participar activamente com textos próprios, com respostas a outros que já lá estejam, procurando incentivar o contraditório, com o único objectivo de, ouvindo as mais variadas opiniões, encontrar afinidades de pensamento que conduzam a acções o mais consentâneas e consequentes que for possível.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

ensINo não espeCializadO em coisa nenhuMa a não ser, PEnsando bem, TalvEz, Não, mais TardE, pois...

No post anterior refere-se um, e apenas um, dos “factores do fracasso do sistema educativo português”, os chamados “cientistas da educação”...

Mas o que realmente me enerva é a incompetência, disfarçada de coisa boa, cheia de objectivos vazios, vestida com roupa nova, activa como uma barata tonta, repleta de trejeitos “estudados” em universidades de caca, em suma, o ser, não do verbo mas de humano, puro e duro, mal formado, humanamente e cientificamente!

Há pouca coisa neste meu “pequeno mundo” que me incomode mais do que isto.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Novo ensino especializado da música (13)

O Rogério Matos escreveu uma apreciação muito interessante do Estudo de Avaliação do Ensino Artístico referindo um dos aspectos essenciais da sua falta de seriedade – Porque é que não houve nem um especialista da música na elaboração deste estudo? Cito o Insustentável:
(...) Mas constituir uma comissão em que nem um só, um só que seja, para amostra vá, é da área em estudo? Sinceramente, nunca tinha visto. Está-se sempre a aprender (...)
Pois é...
A ideia de colocar de fora os especialistas (um pelo menos) é, quanto a mim absolutamente intencional. Só não vê quem não quer! Basta olharmos de relance o dito relatório para se perceber que não passa dum monte de insultos aos próprios especialistas da música. Todo o discurso deste documento é apresentado numa perspectiva negativa, referindo-se sempre, e só, o que de mau há nesta área. Dessa forma não me parece estranho não estar por lá ninguém da música. Não poderia ser de outra forma, é que não há quem aguente! Neste relatório podemos encontrar todo o tipo de insultos mas passo a citar apenas o seguinte:
Um mundo de sujeitos iluminados que se contemplam e avaliam entre si, permanecendo inteiramente imunes à análise e avaliação dos profanos.
Assim caracterizam os ditos doutores a classe a que pertenço (mal ou bem), de uma forma insultuosa, esquecendo estes que o pouco (ou muito, apesar de tudo...) que há no Ensino Especializado da Música aos professores e alunos se deve! Não devemos nada com certeza ao ME que, ao longo de anos, desde o famoso 310/83 tem vindo a alterar tudo, de forma arbitrária, sem orientação, com experiências, sem ideias, e com dois únicos objectivos visíveis - o de tornar o menos acessível possível este tipo de ensino a todos e, finalmente, com este relatório, acabar com ele.
Depois ainda há (músicos, ainda por cima) quem diga que, eu, como a minha amiga Cláudia Nelson, levamos as coisas muito a peito!!!
Ora foda-se...

domingo, 17 de junho de 2007

Novo ensino especializado da música (12)

A minha amiga e colega Cláudia Nelson enviou-me, em caixa de comentário do "Novo ensino especializado da música (8)", a sua reflexão sobre o tal relatório do Ensino Artístico. Pela sua importância e especificidade, com referências muito pertinentes em relação ao curso de Canto, resolvi publicar todo o comentário aqui em post.


Reflexão crítica sobre o Estudo de Avaliação do Ensino Artístico


Introdução

Relativamente ao documento em análise, não poderia deixar de ser referido e enaltecido o esforço feito pela tutela em analisar uma área que há tantos anos tem sido esquecida, negligenciada e abandonada. Este abandono a que esta área foi sujeita não pode é, de todo, ser atribuído a quem a ela se dedica e dedicou de corpo e alma, quer na vertente de investimento / formação / estudo / actualização / performance, quer na vertente de trabalho pedagógico. Quem fez uma opção desta natureza sabe que este compromisso é para a vida, não só porque materialmente dela dependa mas porque, acima de tudo, a música (e o seu estudo contínuo) é algo que passa a integrar a natureza do próprio músico, sem a qual este não vive, não se realiza ou sequer consegue ser feliz.

Há que destacar que, se por uma lado, o esforço de análise da matéria atrás referido é de louvar, já o de discussão não o parece ser, se não veja-se:
∙ a data de conclusão constante do estudo é a de "Fevereiro de 2007";
∙ o documento só esteve disponível para consulta no dia 21 de Março de 2007 - vinte e um dias depois;
∙ a data limite de discussão ou emissão de pareceres relativos ao estudo é 30 de Abril de 2007;
∙ o documento tem, aproximadamente, 350 páginas;
∙ os grupos disciplinares e/ou departamentos, do estabelecimento de ensino onde a docente se inclui tiveram de elaborar um parecer conjunto/síntese a apresentar até dia 18 de Abril de 2007, data de realização do Conselho Pedagógico desse estabelecimento de ensino;
∙ ainda que não fosse necessária a apresentação das sínteses no referido Conselho, restariam aproximadamente 40 dias para ler o documento, analisá-lo, discuti-lo e redigir um parecer.
Entre outros aspectos, depreende-se que um documento desta natureza, desta extensão, que levou quase um ano a elaborar, e que se reveste de uma importância tal teria de ser analisado, comentado e eventualmente enriquecido, num prazo muito mais dilatado do que um mês.
Um outro aspecto cuja referência parece ser pertinente é o facto de na equipa de docentes e investigadores que realizou este estudo de avaliação não estar integrado nenhum elemento directa ou indirectamente ligado à área em análise. Este aspecto é importante, não à luz da tão referida "especificidade" da música repetidamente enunciada no documento, porque explica e desculpa incorrecções, interpretações e acepções de termos e de conceitos relacionados com o tema e porque abre novas perspectivas profissionais aos músicos, que podem almejar incluir equipas de avaliação em campos tão diversos como os da engenharia, economia, sociologia, medicina, etc.

Passa-se, a partir desta pequena introdução, a abordar isoladamente alguns aspectos que pareceram ser assuntos fulcrais na elaboração deste relatório. Acrescenta-se que o Canto, por ser a área directamente ligada à autora desta reflexão, será a área a privilegiar em temáticas e comentários que lhe pareçam oportunos.
Quando houver referência a qualquer citação contida no documento registar-se-à apenas o número ou número da/s páginas citadas.


Génese do estudo de avaliação do ensino artístico e terminologia nele contida

Não podem deixar de referir-se a este propósito a falta de clareza, de rigor e de critério na utilização recorrente com diferentes acepções de certos termos que se pensa terem carecido de definições e de explicações prévias. Os exemplos mais óbvios relacionam-se com os termos: Ensino Artístico, Educação Artística, Ensino Artístico Especializado da Música, Ensino Vocacional da Música, Cursos Artísticos e De Natureza Artística, Ensino Especializado das Artes, disciplinas de foro artístico, etc.
Repetidamente, ao longo do trabalho, são usados dois ou mais termos distintos para designar uma mesma coisa, lançando uma confusão e uma imprecisão desnecessárias, que em nada abonam em favor de um estudo cujo objectivo primordial, de entre outros citados, é o da aferição de uma matriz orientadora comum por parte de todos os Conservatórios. Com que legitimidade se pode exigir esta prática, com a qual a autora desta reflexão se identifica, se se designam esses mesmos seis estabelecimentos de ensino usando cinco terminologias diferentes?
Passam a citar-se: Escolas Públicas de Ensino Vocacional de Música ( Quadro 2, p.143), Escolas Públicas do Ensino Especializado de Música (Gráfico 2, p.145), Conservatórios Públicos de Música ( Quadro 3, p.146), Escolas Públicas de Música (Quadro 10, p.153) Escolas Públicas do Ensino Artístico de Música (Quadro 11, p.153). Situação análoga poderá ser facilmente detectada em relação aos termos atrás referenciados.
Outro aspecto que não pode deixar de referir-se é o recurso, também sistemático, a expressões prenhes de um caráter e pendor "quase místicos" e com uma carga frequentemente negativa que se atribuem aos músicos, retratados sistematicamente de forma pejorativa, atrasada, corporativista e quase como se estes de uma "tribo" ancestral se tratassem. Passaremos a transcrever alguns:

∙ «Um dos grandes obstáculos à mudança, e aqui porventura com mais força e impacto que noutros domínios, reside justamente na facilidade com que se produzem, reproduzem e vulgarizam discursos e soluções pedagógicas sem que os respectivos subscritores de sintam obrigados a fundamentar e contextualizar as declarações que vão produzindo.» (p.6)
∙ «(...) procurar compreender os reais fundamentos de certas práticas que há anos estão instituídas, particularmente nas escolas públicas de Música e de Dança. Neste domínio, a investigação histórica e a investigação comparada revelaram-se fulcrais para que se pudesse descortinar a origem de algumas dessas práticas e rotinas instaladas, hoje tidas como naturais.» (p.7)

∙ «Esta equipa de avaliação quer começar a falar da possibilidade da discursividade artística, nos vários domínios em que se encontra decomposta, sair, pela mão da escola, dos núcleos assaz restritos que herdámos do século XIX e insistimos ainda em manter ao arrepio de todas as outras nações desenvolvidas.» (pp. 7/8)
∙ «(...) Estes são alguns factos que traduzem um lado necessariamente negativo da realidade que é hoje o ensino artístico especializado (...) Ou seja, parece urgente definir claramente as regras que devem organizar este sistema que, conforme mostram os dados deste estudo, está desregulado e parece não estar a obedecer a uma racionalidade que permita o seu normal funcionamento. Há uma variedade de modus operandi e de culturas que se foram institucionalizando aqui e ali, sem qualquer sustentação científica, pedagógica ou outra, e que se vêm perpetuando sem que se vislumbrem quaisquer vantagens para as instituições e para os seus alunos.» (p.22)
∙ «E são muitas e variadas as práticas que têm prevalecido, que aparecem como estratégias irrefutáveis e mesmo indiscutíveis, mas que não são mais do que modos de agir que não possuem qualquer fundamentação credível. Baseados em crenças. Quiçá respeitáveis. Mas apenas crenças.» (p.23)
∙ «A educação artística necessita de professores altamente qualificados que desafiem positivamente todos os estudantes e não só aqueles que são considerados como possuindo talento artístico.» (p.28)
∙ «O insucesso e a reprovação são considerados a regra e aceites como algo natural e absolutamente inevitável, em nome de uma “excelência” e de uma “qualidade” que não foi possível caracterizar.» (p.64)
∙ «A equipa de avaliação julga ter encontrado argumentos empíricos suficientes para mostrar como, entre nós, o ensino das artes se foi estruturando por fora do sistema educativo, as mais das vezes de forma arbitrária e casuística, isto é, sem nenhuma legitimidade de tipo pedagógico.» (pp.113,114)
∙ «Uma segunda linha genealógica sobre que se fundaria o devir do ensino artístico, no sentido da especificidade, está relacionada com a estabilização consensual do perfil do músico, como correspondendo a um actor social situado acima e fora dos condicionamentos comuns, e a uma visão da cultura como correspondendo a uma função de auto-encantamento.» (pp.116, 256)
∙ «Há que referir que, no que respeita ao tema da aptidão, as Ciências da Educação construíram uma tecnologia e uma base conceptual-experimental – que o século XX viu vulgarizar-se e disseminar-se por todos os continentes e realidades educativas as mais diversas, mesmo que as suas premissas nos possam parecer hoje datadas e obsoletas –, mas que permaneceu totalmente estranha a quem mais a invocava para estruturar um modelo específico de aprendizagem, ou seja, para os responsáveis pelo ensino da Música. Esta recusa, e disso se trata, deve ser entendida como correspondendo à operacionalização da proposição segundo a qual a natureza do artista só pode ser perceptível e inteligível por um outro seu equivalente. Um mundo de sujeitos iluminados que se contemplam e avaliam entre si, permanecendo inteiramente imunes à análise e avaliação dos profanos. O manto de silêncio científico que cobre esta realidade do exame das aptidões musicais parece-nos que aponta no sentido de que passem desapercebidas as condições históricas, sociais – em grande medida arbitrárias – sobre que foi efectivamente construída.» (p.117)
∙ «Numa linguagem psicanalítica poderíamos dizer que esta é, porventura, a zona cega ou discursivamente não pensada dos procedimentos práticos neste sector educativo.» (P.117)
∙ «O Mito Do Ensino Individualizado» (p.117)
∙ «Esta incursão é particularmente importante porque tornará mais inteligíveis as restantes rubricas que se seguem, uma vez que se tornará óbvio que, embora tratando de realidades diferentes entre si, na configuração que entre elas se estabelece mais se aprofunda e evidencia a distância em relação a Portugal, único país em que não existem sinais de que o ensino artístico se pretende regenerar e transformar em direcção ao futuro, já pela ausência de debate político, já pela desertificação no campo das propostas pedagógicas.» (p.219)
∙ (…) Esta posição viria a concretizar-se numa desvalorização explícita das aprendizagens técnicas em favor de uma formação de tipo espiritual do aluno, mas que só vagamente se enunciaria. Em contrapartida, passou a defender-se, também entre nós, o que Pierre Bourdieu e Alain Darbel (1969: 161-166) apelidaram de “mito do gosto inato”, que nada deveria às “restrições das aprendizagens e os acasos das influências”, já que seria dado desde o nascimento. A tese subjacente adivinha-se facilmente e corresponde a uma ilusão recorrente nos dias de hoje: a de que uma natureza culta preexistiria à educação ou de que a experiência da graça estética estaria perfeitamente liberta das restrições da cultura e muito pouco marcada pela longa paciência das aprendizagens.» (p.256)
∙ «A deriva que acabamos de fazer nesta secção justifica-se pela necessidade para explicitar a forma como, no que respeita ao tema da aptidão, as Ciências da Educação construíram uma tecnologia e uma base conceptual-experimental – que o século XX viu vulgarizar-se e disseminar-se por todos os continentes e realidades educativas as mais diversas, mesmo que as suas premissas nos possam parecer hoje datadas e obsoletas –, mas que permaneceu totalmente estranha a quem mais a invocava para estruturar um modelo específico de aprendizagem, ou seja, para os responsáveis pelo o ensino da Música. Esta recusa, e disso se trata, deve ser entendida como correspondendo à operacionalização da proposição segundo a qual a natureza do artista só pode ser perceptível e inteligível por um outro seu equivalente. Um mundo de sujeitos iluminados que se contemplam e avaliam entre si, permanecendo inteiramente imunes à análise e avaliação dos profanos. O manto de silêncio científico que cobre esta realidade do exame das aptidões musicais parece-nos que aponta no sentido de que passem desapercebidas as condições históricas, sociais – em grande medida arbitrárias – sobre que foi efectivamente construída. (p.263)

Relativamente à génese e essência deste trabalho ressaltam, de forma gritante, outros pressupostos de pendor negativista que, aliados ao atrás exposto, desconstroem e quase ridicularizam a acção até hoje desenvolvida especialmente pelos profissionais ligados à música e que sugerem uma completa ruptura com o passado do qual os actuais músicos também são fruto e que muitos nomes de reconhecido mérito artístico a nível nacional e internacional também formou. Passam a citar-se algumas dessas intenções:

• «O facto de este estudo de avaliação chamar a atenção para aspectos negativos ou disfuncionais, particularmente no que se refere ao ensino público da Música e da Dança, resulta das evidências empíricas encontradas e destina-se a induzir medidas que melhorem o actual estado das coisas. Esta é uma função da avaliação: tornar visível o que não funciona ou que está a funcionar mal para que se possam tomar as medidas necessárias para que passe a funcionar ou para que passe a funcionar melhor.» (p.23)
O facto de se tentarem induzir medidas que melhorem o actual estado das coisas é absolutamente crucial e pertinente o que, por outro lado, não parece ser correcto é tentar fazê-lo partindo da premissa negativista, à custa exclusiva da visibilidade do que não funciona ou o que está a funcionar mal, ignorando uma das vertentes mais pertinentes e pedagógicas da própria avaliação: "tornar também visível o que funciona, o que já funciona bem, para que daí se possam retirar ensinamentos para que o que ainda não funciona passe a funcionar melhor".
Relativamente ao valor das evidências empíricas, não poderá deixar de registar-se a definição do adjectivo "empírico" constante em qualquer dicionário de língua portuguesa - «Empírico - baseado na experiência vulgar ou imediata, não metódica nem racionalmente interpretada e organizada.» - e que por si só define a importância e fidelidade que se deve atribuir a esse mesmo tipo de evidências. O uso do mesmo adjectivo é recorrente durante todo o relatório.
• A equipa que elaborou o presente estudo, a propósito da sua natureza, refere que o que estava em causa era produzir um trabalho que permitisse retratar a organização e funcionamento do ensino artístico de forma a contribuir para a tomada de decisões de política educativa nessa área. Com essa orientação geral, a referida equipa decidiu que o estudo se deveria apoiar: «(...) tanto quanto possível, em dados estatísticos existentes, em dados empíricos recolhidos directamente pela equipa, em dados empíricos constantes em estudos realizados anteriormente e numa grande variedade de documentação que, de algum modo, dissesse respeito ao ensino artístico especializado» (p.6)
• O termo que é utilizado repetidamente para designar o grande objectivo deste estudo - "refundar" (o ensino especializado não superior da música ) - levanta também algumas dúvidas do ponto de vista do seu significado. Da consulta de dois dicionários diferentes (Dicionário da língua portuguesa da Porto Editora, 5ª edição e Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, Instituto António Houaiss de Lexicografia, 1ª edição) puderam obter-se, respectivamente as seguintes definições de "refundar": «tornar mais fundo; profundar» (que significa tornar fundo ou profundo; escavar) e «tornar mais fundo, afundar, profundar, aprofundar». Como se pode facilmente verificar, a escolha deste verbo não parece obedecer a qualquer tipo de lógica do ponto de vista semântico.
Da leitura atenta do documento o que parece transparecer em relação ao uso deste termo, que só aplicado em relação à música, é uma manifesta vontade/intenção de reiniciar todo um processo, de novo, com uma assumida ruptura e cisão com o passado. Tal intenção é manifestamente expressa na seguinte afirmação: «Importa pois romper com este retraimento da memória e avançar para discussões que tenham em conta o horizonte e os bloqueios em que tem decorrido a nossa experiência, no que respeita à formação artística do escolar português.» (pp. 13, 14)
• Existem também algumas outras imprecisões que levaram a que não se conseguisse sequer perceber o que realmente estava a ser pretendido, em temáticas tão importantes como a questão do regime de frequência e dos resultados do próprio estudo, que a seguir se transcrevem: «(...) o regime de frequência dos alunos, que deverá ser obrigatória e essencialmente integrado (...) (p.26)»; «Os resultados do estudo sugerem que existem condições objectivas e subjectivas para que os cursos do ensino artístico especializado e os cursos de natureza artística em geral possam estar ao alcance de um maior número de alunos do ensino básico e secundário.» (p.37)
• Relativamente a este relatório transcreve-se também o seguinte: «Os dados obtidos directamente pela equipa junto das escolas e os que entretanto os serviços do Ministério da Educação foram sendo capazes e reunir, permitiram retratar com rigor o essencial das realidades relativas ao ensino artístico especializado; ou seja, permitiram elaborar análises e interpretações fundamentadas dos fenómenos de interesse para as finalidades que se pretendiam alcançar através deste estudo.» (p.4); «As opções metodológicas tiveram naturalmente em conta a natureza do problema de avaliação e as respectivas finalidades do estudo.» (p.9)
• Relativamente à metodologia não deixa de ser interessante reflectir e tentar interpretar o seguinte: «Em termos gerais utilizou-se uma metodologia eclética de avaliação, livre de qualquer ortodoxia teórica, filosófica ou metodológica, sendo por isso apenas limitada pelos propósitos do estudo.» (p.10)
• Apesar de no relatório ser referido que «a recolha de informação se baseou nas seguintes estratégias principais: a) inquéritos por questionário e entrevista (individual e em grupo), b) consultas mais ou menos formais junto de uma diversidade de participantes (e.g., especialistas, técnicos superiores da administração, professores, investigadores) (...) (pp.9,10) e «(...) sintetizam-se agora ideias e perspectivas veiculadas pelos responsáveis dos conservatórios e por grupos seleccionados dos seus professores relativamente ao desenvolvimento do ensino artístico.) (p.67). A docente que realiza a presente reflexão crítica lecciona num dos seis conservatórios públicos portugueses e nem ela nem nenhum dos docentes do seu departamento, cerca de vinte, conheciam a possibilidade de participação, não foram convidados ou sequer conheciam alguém que o tenha feito.
• Um dos aspectos muito referido neste trabalho é o suposto significado que os músicos portugueses atribuem a "talento", transparecendo a ideia que o uso de tal termo está unicamente reservado a essa classe profissional como se fosse um devaneio ou quase "fetiche" a que somente o músico português se continua a agarrar, que serão estes os únicos que o utilizam e que nem sequer entendem ou conseguem justificar. É uma palavra que aparece frequentemente no relatório entre aspas, sendo-lhe frequentemente pervertido o entendimento que os músicos têm dela. O que é curioso é que na parte do estudo comparativo do ensino artístico entre cinco países, escolhidos criteriosamente pelos autores, a mesma palavra "talento" apareça na terminologia desses mesmos países, sem qualquer espécie de comentário, como é natural, e de muitos outros não constantes neste estudo mas que qualquer consulta online pode facilmente confirmar. Consta também nesta parte do trabalho o seguinte: «(...) onde se concentra uma bolsa de escolas direccionada para alunos com talentos excepcionais (...)» (p.222) e «(...) a que podem apenas aceder alunos particularmente vocacionados» (p.224) e destas vezes sem o recurso ao uso de aspas.
• Devem também denunciar-se dados que não podem ser considerados correctos, bem como deduções que não são justificadas, fundamentadas ou sequer possíveis através do constante no documento.
O quadro 2. (p.143), que se refere ao número de alunos por curso e regime de frequência em 2005/2006 nas escolas públicas de ensino vocacional, pode servir como exemplo, de entre muitos outros, para o atrás referido. Quando é dito que este quadro «permite ainda constatar uma maior percentagem de alunos em regime supletivo em todas as escolas (...)» pode-se facilmente, pela leitura do mesmo, depreender que esta afirmação é verdadeira. Já o que se segue «(...) excepto o Conservatório de Braga, cujo número de alunos neste regime é muito residual. Assim, e do total de 3.329 alunos, 82% (2.746) estava no regime supletivo, 13% (430) no integrado e 5% (153) no articulado, estes dois últimos com pouca expressão nestas escolas.». O Conservatório de Braga, pela leitura do quadro apresentado, tem um total de 453 alunos, distribuídos pelos regimes integrado e supletivo. Constata-se que o curso supletivo é inexistente na iniciação e no curso básico, logo, o número de alunos destes cursos não pode, de forma alguma, ser tido em conta ou considerado para amostra nesta comparação. O que se pode afirmar e constatar é o seguinte: O regime supletivo no Conservatório de Braga tem um total de 95 alunos no curso complementar, dos quais 61.1% (58) frequentam o regime supletivo e 38.9% (37) o regime integrado. Logo, o número de alunos supletivos neste estabelecimento de ensino, além de não ser residual, é claramente superior em percentagem ao do regime integrado.
Além do atrás exposto, é também evidente que este estabelecimento de ensino, ao não ter cursos básicos em regime supletivo, está a difundir uma política que não considera os alunos neste tipo de regime. A oferta formativa dada aos alunos supletivos é insuficiente pois só contempla os três últimos anos - correspondentes ao curso complementar. Para se ingressar num curso complementar é necessário ter um curso básico completo (excepção feita ao curso de Canto, em todos os estabelecimentos de ensino à excepção, precisamente, deste). Como pode um aluno ingressar nesta escola se não pode ter acesso a formação básica e progressiva que assim lho permita?


O Curso de Canto, especificidades e o regime supletivo

«O desenvolvimento da voz acompanha e representa o desenvolvimento do indivíduo, tanto do ponto de vista físico como psicológico (...)» (O Especialista da Voz, M. Belhau:2001, 1ª edição, p.57)

O estudo do Canto em relação ao dos outros instrumentos tem uma especificidade que é o facto de necessitar de que quem o estuda tenha alcançado a maturidade físico-vocal (que acompanha o processo de crescimento) plena. Isto acontece, normalmente, aos 16 anos nas meninas e aos 18 anos nos rapazes.
A idade tardia, comparativamente aos outros instrumentos, a que se inicia o estudo do Canto deveria ser considerada, nunca como um condicionalismo mas, como uma inerência e especificidade resultantes de um desenvolvimento físico e emocional necessário que não se pode, nem deve, tentar antecipar.
Importa também esclarecer que quando se referem estes aspectos particulares do estudo do Canto não se está a fazer alusão ao Canto Coral. Está a referir-se o estudo do Canto lírico, individual e individualizante, na perspectiva solística cuja formação contempla, em Portugal e em todo o mundo: Árias Antigas, Ópera, Oratório, Lied, Melodie, Música Portuguesa, etc.; produção vocal de inúmeros compositores, representativa de todos os períodos da história da música, em diversos idiomas; textos de um elevado grau de complexidade, de Baudelaire, Goethe ou de Fernado Pessoa (entre muitos outros), com temáticas muitas vezes sensíveis que vão, por exemplo, desde a morte à maternidade/paternidade, da sedução à traição ou à fidelidade eterna. A abordagem de todos estes aspectos requer uma exigência técnico-interpretativa elevadíssima que pressupõe uma maturidade do ponto de vista físico-emocional correspondente.
É pelos motivos atrás expostos que se defende que o Curso de Canto deve incluir-se essencialmente no regime de frequência Supletivo. A experiência pessoal da autora, de 12 anos de prática como professora de Canto, nos dois regimes de frequência, Supletivo e Integrado, só lhe permitiu encontar uma única aluna que reunia as condições necessárias à frequência do Curso de Canto no regime Integrado. Pensa-se, então, que se deve manter também a possibilidade de frequência nesse regime, mas a título excepcional e sempre sujeita a uma avaliação prévia por parte de professores com formação específica na matéria.
Acaba de se identificar uma das especificidades inerentes ao curso de canto, tornando-se facilmente compreensível que, de facto, as especificidades entre cursos dentro de uma mesma área - neste caso a música - existem. É também facil de entender que uma especificidade entre cursos de uma mesma área gera problemas que, por serem mais aproximados, serão mais facilmente resolúveis e é por isso mesmo, entre outros aspectos, que diferentes cursos incluem um mesmo grupo ou área comum - por terem algo similar, que os une identifica e aproxima. A divisão e definição entre diferentes áreas e cursos (e as inerentes especificidades) não é algo de que se possa falar de "ânimo leve" ou tentar superficialmente explicar ou comprovar. Se o conseguíssemos, teríamos dado resposta a domínios importantíssimos com que os filósofos/pensadores se ocupam desde há mais de 2000 mil anos, bem como áreas tão importantes e complexas como são as da Filosofia da Arte e da Estética.
Voltando aos regimes de frequência, a problemática inerente ao Canto não é o único motivo pelo qual se defende a manutenção dos actuais três regimes (supletivo, articulado e integrado) de frequência do ensino especializado da música. Esses regimes, se forem desenvolvidos e aperfeiçoados, podem dar resposta a diferentes solicitações e expectativas de formação por parte dos diferentres alunos que pretendem aprender música na sua vertente de formação específica (profissionalizante ou não).