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domingo, 9 de abril de 2017

"fatalidade do lugar de enunciação"

É assim que me sinto, todos os dias, todas as horas, e há tantos anos. Tanto sítio no mundo para onde poderia ter ido e ficar, e logo havia de ser neste pardieiro que tinha que me deixar ficar...

"fatalidade do lugar de enunciação" | por António Pinho Vargas no facebook em 2012

nhoninhas

É impressão minha ou este mundo está a entupir de pessoal merdoso, lambe-botas e nhoninhas?

domingo, 19 de março de 2017

Foi ontem, em 2003...























Já lá vão muitos anos...
Algumas fotos (espero que não se importem...) e plano do primeiro concerto totalmente dedicado à música electroacústica no Conservatório onde ainda hoje trabalho. Estavam comigo, Ana Seara, Osvaldo Fernandes, Sara Claro e Sofia Sousa Rocha. Foi ontem, em 2003.

domingo, 20 de março de 2016

dia do pai


Ontem foi dia do pai. Não tendo pai desde os meus 5 anos sou pai de duas meninas há 10 anos. E ontem tive um dia do pai mais feliz do que o normal com prendas que me encheram o coração. No mesmo dia em Almada tive a estreia de duas canções para crianças de uma obra minha chamada "Pelo aroma das sílabas" e à noite outra estreia de um "Ave verum corpus" em Esposende. Poderia apenas ser isto e nada mais, mas assim não foi...

Ao meu lado esteve António Pinho Vargas, um compositor, um ser humano enorme, um intelectual, que tanto admiro, com outra estreia, "Sabat Mater". Tal nunca se me afigurou sequer como uma possibilidade tal é a distância respeitosa que tenho por este músico, mais ou menos desde o final dos anos 80.



O concerto da noite foi verdadeiramente emocional e espiritual, não sentia isto há muito tempo, ver músicos que depois de cantarem (CPCE), de tocarem (Carlos Pinto da Costa e Diogo Zão) e dirigirem (Helena Isabel Venda Lima) nos demonstrassem e se revelassem tão expostos também na sua emoção.

Um abraço enorme de agradecimento a todos por ontem me terem feito sentir, ver e ouvir tudo. As lágrimas também estiveram nos meus olhos, e não apenas nos vossos...

sábado, 29 de agosto de 2015

[Mas agora estou no intervalo em que]

Mas agora estou no intervalo em que
toda a sombra é fria e todo o sangue é pobre.
Escrevo para não viver sem espaço,
para que o corpo não morra na sombra fria.
Sou a pobreza ilimitada de uma página.
Sou um campo abandonado. A margem
sem respiração.
Mas o corpo jamais cessa, o corpo sabe
a ciência certa da navegação no espaço,
o corpo abre-se ao dia, circula no próprio dia,
o corpo pode vencer a fria sombra do dia.
Todas as palavras se iluminam
ao lume certo do corpo que se despe,
todas as palavras ficam nuas
na tua sombra ardente.
António Ramos Rosa, A Construção do Corpo, 1969

sexta-feira, 4 de julho de 2014

música_papel_delírio

Nada se compara com a exaltação que sinto no momento em que acabo de escrever uma obra de que goste, por mais insignificante que esta possa eventualmente ser, um padrão harmónico, uma linha, uma nota que seja...
A obra quando consumada nasce completa, como um parto, no meu imaginário e provoca-me uma alegria infinita na sua singeleza. A música nasce no papel e nos meus ouvidos. Não, não nasce, como muitos pensam, na eventual estreia e performance!
Perdoem-me por tudo isto.

domingo, 4 de maio de 2014

Hélia Soveral

Acabei de saber pelo fb de Joana Resende que 3 de maio era o dia de aniversário de D. Hélia Soveral, minha professora de piano, inspiradora na persistência com que exigiu tudo o que o que eu tinha para dar, inovadora nos programas que me punha a tocar, que saudades tenho dela, de tudo o que me deu e cá ficou. O que eu gostaria de poder estar outra vez com ela, Parabéns D. Hélia Soveral por tudo, esteja onde estiver...

terça-feira, 15 de outubro de 2013

náuseas


Estranho-me ao lembrar-me, ainda ontem, de tão censurado achar.
Não sou eu, nem sequer o outro, nem sei qual,
É um sentir com náuseas repleno e desfocado.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

SONETOs D'ELLEs-PRÓPRIOs!


“Como toda a gente sabe, vendo opiniões.” Transformou-se numa das pessoas mais influentes, e, nesse sentido, poderosas, em Portugal. É uma coisa em que pensa?
Nada. Vivo num buraco. Não faço vida social. Não ando nos salões. Nem poderia escrever o que escrevo se o fizesse. Tomei o compromisso de não ceder a ser simpática com pessoas que não valem um pataco. Fazer esse tipo de vida obrigar-me-ia a compromissos numa zona onde não me quero comprometer. Também sou punida por isso, mas foi o que escolhi. Dou-me com muito pouca gente. Amigos íntimos que são uma espécie de família, e que me põem no meu lugar porque não acham que sou poderosa. Nunca fiz nada para ter poder, não quero ter poder, não me interessa nada o poder. O único poder que gostava de ter, e que não tenho, era o de disciplinar a minha vontade. Sou extraordinariamente disciplinada, mas não o suficiente. É de mim para mim. O segundo poder que gostava de ter era o de me conhecer melhor. “Conhece-te a ti mesmo”, como dizia Sócrates. Não conheço." 
Clara Ferreira Alves


A primeira coisa que me lembrei quando li esta parte do texto de Clara Ferreira Alves foi de um conto que li, ainda muito jovem, demasiado jovem talvez, "O Covil" de Franz Kafka. Aquilo que este conto incompleto, descrevia era o de uma criatura não definida de forma clara que vivia dentro de uma toca, um covil, e, de quando em vez, espreitava cá fora recolhendo-se rapidamente, um livro muito metafórico, inesquecível. Li este e outros livros do género demasiado novo, talvez aí com uns 13, 14 anos. Só de Kafka li, num ápice, nesses anos, não necessariamente nesta ordem, O processo, A metamorfose, O Castelo, Amerika, Carta ao pai e os Contos todos. Mas a verdade é que, independentemente da tenra idade com que devorei estes livros e muitos outros de Herman Hesse, Milan Kundera (todos), Eça de Queirós, Jorge Amado, entre muitos outro escritores que não me apetece enumerar agora, essas obras fazem parte da minha vida, ou como diz Clara Ferreira Alves noutro momento deste artigo, reflectem instrução, logo, a minha vida interior. Não vivo na margem sul com 4 ou 5 livros, mas também não tenho um enorme casarão cheio de enormes vazios, vivo em Braga, cidade pequena, mas com uma vivência de sempre cheia de livros e outras coisas boas. 

Ainda que nada disto diga nada vezes nada a ninguém é assim que me devo posicionar, como um tipo que claramente não pretende nada mais do que o que tem. 

Que se lixem os Relvas deste "nobre" e podre país que somos!

Como dizia o poeta, os Relvas usam CEROULAS DE MALHA, cheiram MAL DA BOCA, são uns SONETOs D'ELLEs-PRÓPRIOs!

Pim!

sábado, 7 de setembro de 2013

Mokuso (versão original para 2 pianos)


Esta obra, escrita em 1993 está agora, 20 anos depois, editada na AVA Musical Editions.

Republico aqui no Tónica Dominante porque tenho a noção de que a maior parte das pessoas não perde tempo a ler o texto que escrevi recentemente para acompanhar a partitura. Mas isto é algo que me interessa porque, de uma maneira geral, escrevo música para as pessoas e dedico, num gesto romântico, pessoal e transmissível, essas obras às pessoas.
Como escrevo no tal pequeno texto, em jeito de auto-citação, “esta obra foi tocada apenas uma vez pelas minhas colegas de escola Catarina Cameira e Elsa Silva a quem, de resto”, a dediquei.
Em tudo na vida, assim penso, para além do que nos fica, muito importante é também o que fica de nós nos outros…
Gostava com isto de expressar um novo agradecimento, 20 anos depois, e de perguntar se alguém sabe destas pianistas?
Para mim era realmente importante que elas soubessem que, tantos anos passados, lhes dedico esta obra.
Vale o que vale...

segunda-feira, 15 de abril de 2013

domingo, 10 de fevereiro de 2013

o fino gosto estético

Perante a grande intelectualidade e fino gosto estético por que estou cercado, devo redimir-me, quiçá penitenciar-me, e com os meus pobres e desafinados ouvidinhos, nada mais fazer do que colocar por aqui alguma música pimba francesa!

domingo, 16 de dezembro de 2012

Porque compões pá?


Porque compões pá?
Esta é a pergunta óbvia que eu merecia que me fizessem...
Lamentavelmente, a questão de eu ser ou não compositor, é absolutamente irrelevante para a maior parte dos que me “cercam” no dia a dia. Cada vez me sinto mais isolado enquanto criador e, no entanto, paradoxalmente, nada disso me importa. A aura romântica de alguém que compõe sob uma atmosfera de inspiração descontrolada, sombria, doentia ou exaltada é algo que, curiosamente, ainda sinto apesar de não me identificar pessoalmente com este paradigma da figura do compositor e sua projeção artística, até porque esta imagem faliu gradualmente depois da segunda grande guerra, e nada há a fazer em relação a isso. O mais singular é que eu próprio nunca me senti na pele de tal tipo de compositor porque sempre me senti mais completo, e com feedback mais ou menos imediato, no papel de professor. O que agrava tudo isto é que na missão de ser professor tudo mudou de mau para muito pior ao longo da última década, hoje só dentro da sala de aula e com os alunos é que nos podemos iludir, fora isso, nada mais interessa. Mas voltando ao tema deste pequeno texto, sempre me senti como compositor (não por ter tido aproveitamento positivo num qualquer curso de composição) uma vez que já o fazia mesmo antes de o estudar. Desde que comecei a compor música, com maior ou menor frequência, sensivelmente depois de 1990, experimentava a exaltação, que uma simples nota escrita provocava em mim, e perguntava-me a mim mesmo como tinha sido possível eu ter juntado um som aos outros! Isso foi algo que nunca mudou e depois de tantos anos (mais de 20!), pergunto-me porquê? Tive tantos “contratempos”, para lhe chamar um nome suave, por compor! Tive que enfrentar um mau curso, um professor castrador de gerações, tive que encarar os invejosos e os medíocres, tive que tentar sempre ser professor, e outras tantas tarefas inerentes à minha passagem por cá. Mas para quê tudo isto? Tantos são os que dizem não valer a pena a pessoa aborrecer-se...
No entretanto, deixemo-nos de devaneios, este não é o país da cultura, a grande parte das pessoas não valoriza coisa nenhuma que não seja a aparência daquilo que supostamente são, não diferenciam o trigo do joio, as instituições culturais são orientadas no que fazem ou deixam de fazer por poderes mais fortes do que as suas próprias linhas de pensamento; por outro lado as instituições não deixam de ser as pessoas que nelas mandam e por isso mesmo foram as “escolhidas”. Tendo em conta esta introdução e para quem estiver a pensar que agora não sairei mais deste discurso de vitimização do artista mal compreendido, desengane-se. Não é por isso que o estou a escrever. A razão que me leva a deixar como públicas estas palavras é bem mais interessante e prende-se com a atitude perante os outros e perante mim próprio no que diz respeito aquilo que faço, que é como já perceberam, compor e ensinar a compor e fazer com que os alunos percebam alguma coisa de música. O que hoje me leva a escrever estas linhas é o facto consumado em mim mesmo de que me estou literalmente “nas tintas” para todo o tipo de interesses e bajulices que seriam necessários para que a minha música fosse, eventualmente, mais ouvida e tocada. Reparem que este não é o discurso de quem perdeu ou está a perder, pelo contrário! Assumo na plenitude total das minhas capacidades mentais que não me interessa praticamente coisa nenhuma em termos profissionais que não seja o escrever música, nem que seja, como disse em tempos, para a minha “gaveta”. Se sobrevivi ao terror do curso de composição da ESMAE nos anos que por lá passei também vou sobreviver a tudo o resto.
Escrevo agora este memorial por sentir algumas correspondências entre o ano de 2012 e o ano de 1996 no que à minha produção musical concerne. O ano de 1996 foi um ano particularmente atribulado e excitante para mim, tinha acabado o curso de composição, tinha começado a trabalhar onde ainda hoje trabalho, e acima de tudo, estava a compor com um ritmo muito marcado, cada momento, cada bocado de tempo, tudo era aproveitado para compor, quando viajava, quando esperava por alguém, quando ensinava, a cabeça e os sons estavam sempre ligados como se um cordão umbilical se tratasse. Digo isto, sem explicar em detalhe, mas a verdade é que um compositor não compõe apenas quando se chega perto do papel, ou do computador, compõe sempre e depois só tem que passar ao chamado suporte, a partitura, a ideia mais próxima daquilo que ouve. O ano de 2012 foi igualmente marcado por um ritmo mais acentuado na minha produção escrita musical.
Escrevi aliás este ano de 2012 mais obras do que em 1996, onze obras completas fora as que ficaram em standby, a saber: meu madrigal de madrugada – (Orquestra de Cordas, Flauta, Harpa e Piano); Like a bandoneón – (Quarteto de Saxofones); Urban Walk – (Marimba de 4 oitavas – versão pequena); Urban Walk – (Marimba de 5 oitavas); Urban Walk – (Duas Marimba de 5 oitavas); Old fashioned pieces for Harp – (Harpa); 10 peças infantis (Piano); Pequenas histórias de um fagote – (Fagote e piano); Pequenas histórias de um Clarinete - (Clarinete e piano); O Elefante e a Pulga – (Coro infantil e piano); Pequenas histórias de um Harpa (Harpa), todas elas editadas, ou a editar, pela AvA Musical Editions. Apenas uma destas obras foi apresentada na sua totalidade em público! Neste momento tenho em mãos uma peça para Saxofone barítono e electrónica, um quarteto de cordas, uma obra electrónica, e uma ou outra que não devo relevar. Estes momentos de escrita musical funcionam para mim essencialmente como um meio de sobrevivência, não aguentaria viver o que estou a viver no meio em que me movo sem recorrer a estes momentos de criação, feita em minutos, horas e pouco mais, entre muitíssimas tarefas a que a minha condição de pai, professor, cidadão aparentemente apresentável, etc., me sujeitam. Repare-se que, compor música, para além de ser aquilo que me faz sentir verdadeiramente vivo, é também, um acto de higienização intelectual. Não sobreviria se perdesse isso!
Também a ideia de perder a memória me assusta porque tenho-a sempre muito presente (do género da do elefante) e, apesar de me pesar como uma pedra de granito, é o que me resta para estar consciente, lúcido e convicto das minhas posições. É bastante fácil aos meus “não amigos” dizerem, “lá está ele com o seu mau feitio... as coisas que ele sabe e pensa são certas, mas era melhor não as dizer, não são socialmente aceitáveis e inteligentes, assim nunca pertencerá a nenhum grupo, nunca será nem daqui nem dacolá”. E eu respondo que é assim mesmo, não pertenço a lado nenhum senão a mim mesmo, mesmo que orgulhosamente só, os tachos, lobbies, grupos e afins são para os outros, não para mim. Para concluir, volto a reforçar que o acto de compor e também ensinar os mais jovens a fazê-lo, é um privilégio, nem todos o têm, e, quanto a tudo o resto, as imprecisões como alguns lhe chamam, o esbanjar de incompetência, as fanfarras, as palminhas, os bombos, as latas e os pinotes, parafraseando Mário Sá-Carneiro, não são mais do que verbos de encher ou por encher, murchos, moles e colados uns aos outros, pura matéria plástica, como compôs Frank Zappa, Plastic people.

domingo, 18 de novembro de 2012

GENEROSIDADE


Ontem, no Theatro Circo em Braga revivi com emoção a música e a pessoa de António Pinho Vargas. Já não o ouvia a tocar desde o final dos anos oitenta, numa altura em que o seu piano era apoiado pelo irmãos Barreiros e pelo José Nogueira em quarteto, isto no Teatro Carlos Alberto no Porto. Foi arrepiante ouvir outra vez, a dança dos pássaros, Tom Waits, etc. Está tudo lá ainda, mas mais refinado, as articulações a expressividade, os súbitos e curtos silêncios em jeito de hoquetus, e, acima de tudo, aquelas melodias, de uma beleza inexplicável, infinitamente lusitanas no seu contorno e perfil linear. Enfim, para além de toda aquele grande jazz português que reouvi, as palavras de APV – que separaram, em jeito de prelúdios, os momentos exclusivamente musicais – sempre sábias, lúcidas e, mais do que tudo, generosas. Se alguma palavra pudesse definir o dia de ontem, antes do concerto – em que tive o prazer da companhia de APV num longo café adiado há muito tempo, anos mesmo – durante o concerto, e depois do concerto essa palavra será GENEROSIDADE. Possivelmente, para alguns parecerá um lugar comum, mas não o é, uma vez que é cada vez mais difícil encontrar esta palavra expressa e encarnada na alma das pessoas. Numa altura em que tanto se “partilha” e tão pouco se dá as “gentes” são cada vez menos generosas, e uma grande parte não o é sequer.
Obrigado, António.

(foto da culturgest)