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domingo, 4 de maio de 2014

agradecimento de uns versus "não fazes mais do que a tua obrigação" de outros

Ora aqui está!
Um agradecimento formal de uma fundação em Basel ao Kla-Vier Duo pela estreia nacional de uma obra de Morton Feldman, "Work for two pianists".
Foi um momento musical mágico no Auditório Adelina Caravana em Braga com casa praticamente vazia.
Se tivesse havido uma salva de morteiros, antes ou durante o concerto, possivelmente estaria mais gente.


Assunto: AW: for Ms Patricia Ventura, Ms Sonia Amaral - Work for two pianists on behalf of Dr Felix Meyer | Morton Feldman Collection - unpublished work

Dear Ms Ventura, dear Ms Amaral

Thank you very much indeed for the recording of your feldman performance of March 26. I look forward to listening to it and can assure you that it was a Portuguese first performance.

Yours sincerely
Felix Meyer

PAUL SACHER STIFTUNG
PAUL SACHER FOUNDATION
Dr Felix Meyer, Director
Münsterplatz 4
CH - 4051 Basel

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O desembaraçado, o opinioso e o consequente analfabetismo musical português


(...) Segundo Manuel Pedro Ferreira, “para mal dos nossos pecados a necessidade de habitar um terreno musical próprio tem sido reconhecida por muito poucos”. No momento de encontrar responsáveis o autor recorre a figuras de retórica: “Os principais responsáveis por essa falta de reconhecimento têm sido, segundo julgo, a tacanhez e o snobismo, qualidades que vejo representadas, na minha galeria de tipos sociais, pelas figuras do desembaraçado e do opinioso. [...] Para o desembaraçado, a música pode bem viver numa tenda, desmontável à mínima tempestade orçamental. Para o opinioso, a boa arquitectura sonora nasce das recensões fonográficas e dos escritórios dos agentes e prescinde de alicerces. Ambos acham que os verdadeiros compositores são super-homens cujo génio se manifesta independentemente das condições de aprendizagem e exercício do seu ofício, ignorando que o desabrochar criativo exige estímulos sociais e um diálogo permanente, através dos executantes com o resultado sonoro” (Ferreira, 2007: 16).
Ferreira considera que “a comparação com a vida musical de outros países europeus, conjugada com uma maior preparação técnica e teórica dos organizadores musicais, possa vir num futuro próximo a sapar a tradicional influência do snobismo e da tacanhez nacionais. Tal expectativa não impede que essa influência tenha marcado de forma extremamente negativa o século findo” (ibid.). Chegando a conclusões relativamente próximas, Paulo Ferreira de Castro tinha afirmado na sessão comemorativa do Dia Mundial da Música em 1991: “Confrontemo-nos de uma vez por todas com esta realidade brutal e incompreensível num país que é parte integrante da Comunidade Europeia: a esmagadora maioria da população portuguesa é absolutamente analfabeta em matéria de música, porque o sistema escolar português é praticamente omisso em matéria de formação geral nesta área”. Mais adiante: “O público português, sobretudo o lisboeta – ou pelo menos uma parte significativa dele – é seguramente o mais snob e ao mesmo tempo o mais ignorante da Europa”. E prossegue: “Portugal tem, apesar de tudo, uma cultura musical antiga – quase completamente desconhecida, aliás, do cidadão comum – [...] mas – e o facto constitui motivo de verdadeira vergonha nacional – talvez nenhum outro país da Europa preste tão pouca atenção à conservação e valorização do seu património musical. Com excepção de algumas iniciativas da Fundação Calouste Gulbenkian, e outras pontuais, da Divisão de Música da Direcção Geral da Acção Cultural (nomeadamente da publicação aliás muito irregular de discos consagrados à música portuguesa) e do Departamento de Musicologia do Instituto Português do Património Cultural, muito pouco se tem feito no sentido de divulgar a herança musical no nosso país, e mesmo o investigador especializado esbarra em múltiplas dificuldades na tentativa de aprofundar o conhecimento desse sector fundamental da cultura portuguesa” (Castro, 1991).
Quanto mais se avança nesta direcção mais facilmente se chega a zonas profundas da sociedade portuguesa. Nos textos que acabamos de ver, no momento em que se trata de apontar os responsáveis recorre-se normalmente ao défice estrutural ou a figuras de retórica, evitando, deste modo, a identificação explícita de responsáveis directos e uma análise de práticas institucionais concretas. Paulo Ferreira de Castro aponta responsabilidades genéricas ao analfabetismo musical do público, ao snobismo lisboeta e à insuficiente acção dos organismos oficiais, e a interpretação de Manuel Pedro Ferreira não identifica com total clareza os responsáveis da falta de reconhecimento: “a situação do compositor em Portugal está, de resto, ligada ao tratamento de que a Música em geral tem sido objecto, até há pouco, por parte das instituições do Estado” (Ferreira, 2007: 14). Onde está a raiz deste conjunto de problemas?

Nós – a tacanhez – e os outros, in MÚSICA E PODER – Para uma sociologia da ausência da música portuguesa no contexto europeu de António Pinho Vargas


terça-feira, 13 de novembro de 2012

simples versus complicatus (não, não é a flor!)



É assim, em Lisboa as coisas funcionam de uma forma mais óbvia, mais simples, mais assumida. Ou seja, Pequenos Cantores do Conservatório de Lisboa e a Camerata de Lisboa, maestrina Joana Carneiro, álbum de Natal, Canções de Natal Portuguesas, compositores contemporâneos portugueses, como Carlos Marecos, Vasco Pearce de Azevedo, Sérgio Azevedo e João Madureira, todas os temas escritos tendo como ponto de partida o cancioneiro tradicional português.
A ser no norte, não podia ser assim, não, nem pensar! Tinha que ser uma coisa em Grande! O maestro tinha que ser estrangeiro, de preferência com um nome bem complicado de pronunciar, as músicas teriam que incluir obrigatoriamente, porque toda a gente gosta, o "A Todos um Bom Natal", o "Noite Feliz" e o "Jingle Bells", o cancioneiro tinha que ser da freguesia de nascença da pessoa que organizasse o evento e posterior gravação, e quanto aos compositores é melhor ficar por aqui neste breve, irónico e patético comentário...

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Antes quase, do que nada...


Hoje, quando penso em mim e no meu percurso enquanto ser humano ocorrem-me muitas coisas, umas boas outras más, que a memória não soube apagar. Vejo aquilo que quase fui e aquilo que quase sou e chego serenamente, e conformado, a uma conclusão. Antes ser quase um compositor, antes ser quase um bom professor, antes ser quase um ser humano livre, um daqueles que vive pela sua própria consciência, do que estar em vão a pavonear as vaidades supérfluas dos que se acham coisa alguma. Estou, agora com a idade a avançar, a perceber como tudo isto é tão verdade. Não me revejo naqueles que acham que são mais do que quase nada. Pessoalmente acho muito mais compensador ser quase nada do que nada ser. Quase tudo e todos os que me rodeiam assim são, cheios de certezas, glórias e aparentemente “felizes” com a sua prestação cada qual no seu pequeno mundinho. Olho para eles com algum desdém uma vez que o que entendo, do meu infinito e quase nada íntimo, é a inutilidade das suas vidinhas que debaixo da aparência do todo total nada mais são do que nada.