domingo, 1 de maio de 2005

de conhecimento obrigatório (6)

Musik für Streichinstrumente.jpg
György Kurtág, Musik für Streichinstrumente

The Keller Quartett

Aus der Ferne III für Streichquartett Officium breve in memoriam Andreae Szervánsky Ligatura - Message to Frances-Marie Quartetto per archi Hommage à Mihály András 12 Mikroludein für Streichquartett Ligatura - Message to Frances Marie

Recorded October and November 1995
2 Comments:
At Terça-feira, 03 Maio, 2005, Il Dissoluto Punito said...
Eu tb destacaria Le Grand Macabre, pela ousadia (E. P Salonen - SONY)...

At Terça-feira, 03 Maio, 2005, pb said...
Sim, também.
Eu tenho a versão da Wergo com
Michael Meschke e Michel de Ghelderode na adaptação...

Sobre György Ligeti

Pour moi, Ligeti est un des plus grands musicien du XXe siècle. Sans ordinateur et sans appareillage électronique sophistiqué, uniquement avec son instinct, son cerveau et sa sensibilité, il nous a donné certaines des ouvres les plus avancées de l’époque.

Olivier Messiaen
(Claude Samuel in, Permanences d’ Olivier
Messiaen - Dialogues et Commentaires)
5 Comments:
At Terça-feira, 03 Maio, 2005, César Viana said...
assinaria por baixo.


At Terça-feira, 03 Maio, 2005, pb said...
Eu assino de cruz!
Já há duas assinaturas!!!
:-)

At Quarta-feira, 08 Fevereiro, 2006, Sara said...
Concordo em absoluto!! ou nao fosse eu discipula do bloggista......

At Quarta-feira, 08 Fevereiro, 2006, pb said...
Olha a Sarita!
Claro, pois, pois...
Já soube que este ano vamos ter as vossas “Peças frescas” transmitidas na rádio!
Sim senhora, fico bastante orgulhoso, para não dizer babado...
Beijos para as 3 meninas e abraço para o menino aí na capital!

At Quarta-feira, 15 Fevereiro, 2006, sara said...
é verdade sim! finalmente vamos ter a nossa música a andar por aí pela rádio!
gostávamos de contar com a presença do mestre! acho que o osvaldo também
está a pensar vir cá ouvir!
se não pudermos contar com a sua excelentíssima presença pelo menos já
sabemos que temos um par de ouvidos ligados na rádio.....
faço a publicidade: dias 28 e 30 de Março a partir das 18h30 na Antena1
:)

Musique d’ameublement

Satie ne cède jamais à l’abondance, s’il y cède c’est par la longueur voulue pour ses pièces – comme la Musique d’ameublement écrite en 1920, constituée d’une suite de rengaines d’allure populaire, répétées sans fin –, mais non par la multiplicité des figures ou des thèmes employés. L'utilisation que Satie fait de la citation ou du mélange des genres s’affirme au-delà du jeu comme une force de rupture au sein de la forme, et surtout comme une possibilité de distanciation par rapport à la question de l’expression ou de la pureté d’un style.

Béatrice Ramaut-Chevassus
4 Comments:
At Segunda-feira, 02 Maio, 2005, Revolucionário pós-modernista said...
O Satie - que adoro, não que isso importe, mas fica dito - esteve muito bem no seu tempo. Basta ver o modo como Cocteau e o grupo dos 6 se “aproveitaram” da sua atitude estética...

Mas eu acho, e perdoem-me a arrogância, que o que precisamos não é de “Saties” que nos chamem à atenção para a necessidade de romper com a flatulência do romantismo artístico através da ironia da atitude estética...hoje em dia, precisavamos mesmo era de músicos/compositores que comunicassem... Se calhar de “Wagners” que tão odiados eram então...

At Quinta-feira, 05 Maio, 2005, samovar said...
E não existem? Então estamos tramados! Se não gosto de flatulências e me aborrece a atitude estética irónica, que hei-de ouvir?? Ou o chefe deste blog começa a “comunicar” ou só me restam os Sepultura!


At Sábado, 07 Maio, 2005, César Viana said...
Não se pode decidir por decreto que tipo de compositores temos. Podemos, sim, criar as condições para que um meio artístico sólido e profissional torne o seu trabalho coeso, regular, apreciado por um público conhecedor, mas isso dá muito trabalho. Vamos continuar a entregar o dinheirinho dos nossos impostos para subsídios, tem mais a ver com a nossa personalidade de brandos costumes...


At Sábado, 07 Maio, 2005, samovar said...
1 - Claro que sim. A boca foi só para picar o Paulo Bastos e porque achei piada à expressividade do “revolucionário”.
2 - Não vamos não... Não vislumbro uma revolução mas ainda acredito nos agentes da mudança!

5 % ou menos?

De acordo com as mais fidedignas estimativas, cerca de 95% da música erudita reproduzida em discos, tocada na rádio, executada em concertos, é música do passado. Nem a literatura, nem as artes visuais conhecem tal proporção. Os compositores vivos estão lutando por 5% ou menos do tempo total e dos meios de acesso acústico. É uma situação fantasticamente distorcida.

George Steiner, The Politics of Music, 1977
(tradução de Augusto de Campos)
17 Comments:
At Segunda-feira, 02 Maio, 2005, Revolucionário pós-modernista said...
E seria muito bom que os compositores pensassem nisso! Parabéns pelo post. Ainda por cima, essa situação não é nova... desde, pelo menos, o pós 2a guerra mundial que é assim... o fosso entre a arte dita erudita e o público cresce... Os “Boulez” deste mundo deviam pensar nisso... Ou será culpa da nossa amusicalidade, quer dizer, da falta de cultura musical, do ensino musical que não existe - para a grande maioria - deste nosso capitalismo selvagem onde os “media” controlam o que ouvir)...enfim.

At Terça-feira, 03 Maio, 2005, Luís Aquino said...
Não tenho a certeza (nem poderia ter) de que o facto de os compositores vivos terem acesso a 5% ou menos do mercado seja por estas razões. Quer dizer, estas poderão estar presentes, mas tenho dúvidas se são as principais.

A ideia que tenho é que a música clássica vive no extremo oposto da pop/rock:
enquanto que nesta,a apetência é mais para a novidade do que para os consagrados, na primeira é exactamente ao contrário. O que me leva a pensar que a música clássica, desde o aparecimento de outros estilos menos ‘formais’, sempre foi vista como algo demasiado sério e que se deve a todo custo evitar banalizar. A resistência à novidade na clássica,como forma precisamente de evitar o efeito ‘chiclet’ da pop/rock, terá caído no exagero e nas últimas décadas tornado quase uma instituição dar prioridade aos compositores com mais de 50 ou 100 anos. Claro que esses acabam por ser banalizados, porque o Beethoven, o Chopin ou o Mozart também têm os seus hits. Enfim, é um pouco especulativo, mas é uma ideia. Como mudar? É claro é preciso um esforço em várias frentes: compositores, professores de música (um papel importantíssimo para criar apetência junto de um público pré-sensibilizado, e como se sabe, a procura origina a oferta), meios de produção e meios de divulgação de massa.
Digamos que o post do PB é um bom princípio!

At Terça-feira, 03 Maio, 2005, César Viana said...
Atenção que o comentário do Steiner é de 77 e há diferenças assinaláveis em relação aos nossos dias, já em pleno século XXI. Uma talvez não de subestimar é o facto de a questão da erudição não ser assim tão evidente para mim. Onde está a erudição da 2345a versão de, por exemplo, o canon de Pachelbel, mal tocado e sem estilo, por uma qualquer orquestrazeca de ex-países socialistas? E quanto ao John Coltrane? É claro que isto distorce as referidas percentagens, já que há muito lixo descartável classificado como “erudito” e muitas obras primas por aí, perdidas num mar de música comercial, escapando assim à nossa “erudita” atenção. Quanto a culpas... claro quer não há culpas; a vida pura e simlesmente é, e a arte vai refletindo o que pode ou sabe. Mas é um bom assunto, sem dúvida, e é sempre estimulante discutir um texto do George Steiner.


At Quinta-feira, 05 Maio, 2005, samovar said...
O senhor Steiner opinava assim em 1977 em relação a que realidade? À mundial, à europeia, à do país dele? Gostava de saber.
De qualquer forma, o que me tocou nessa afirmação foi ela lembrar que nas outras artes a relação percentual é diferente. Acho até que invertida. E eu nunca tinha reparado nisso.
Concordando com o que diz César Viana aqui em cima, fico a matutar porque é que tal acontece na música dita erudita e não na literatura, na pintura, na escultura... e por aí fora.

At Sexta-feira, 06 Maio, 2005, César Viana said...
Caro sr. Samovar, em relação à escultura e pintura, penso que o facto de se poder comprar a obra de arte, devido à sua materialidade, ajuda a que a situação seja muito diferente, já que torna possível o chamado “investimento em arte”, independentemente de os bancos, companhias de seguros, etc. que compram as obras gostarem delas ou não. Acho que fará mais sentido contextualizar a música com outras artes do espectáculo do que com a literatura (já que esta não precisa de estruturas de produção tão complexas para chegar ao público). Aí, (dança, teatro...) a situação já não será tão flagrantemente diferente, mas não possuo dados objectivos que me permitam confirmá-lo.


At Sexta-feira, 06 Maio, 2005, samovar said...
Pois, César Viana, concordo consigo. Mas fiquei a pensar nos comentários do “revolucionário pós-modernista” aqui e no post do Satie. É que independentemente dos condicionalismos das obras musicais e do investimento na sua divulgação, há essa questão que não me parece nada de subestimar das atitudes estéticas dos compositores contemporâneos e do fosso em relação ao público.
O revolucionário sugeria a necessidade de novos “Wagners”... :))) Recusando a linha das “culpas” e não fazendo questão no rótulo das erudições, interrogo-me sobre a dimensão da relação compositor/público. Quanto à divulgação, o bailado, por exemplo, tem feito muito na divulgação da música contemporânea.

At Sábado, 07 Maio, 2005, César Viana said...
Mas a percentagem de dança contemporânea nos grandes palcos mundiais é absolutamente ínfima; com algumas (importantes) excepções, as produções que têm impacto significativo junto do grande público são as remakes dos grandes clássicos. Já experimentou ir ao “danças na cidade” ou outro festival do género e contar quantas pessoas lá estão? (repare que não há aqui qualquer juízo de valor, apenas a constatação de um facto). Além disso, a música contemporânea que, em geral, as produções coreográficas utilizam, é a que já tem uma maior aceitação junto do público (Reich, Glass,às vezes Berio ou Ligeti, na maior parte dos casos bandas sonoras com muito beat e pouca música). Muito raramente verá uma coreografia com música do Emanuel Nunes, Xenakis ou outros compositores igualmente afastados do grande público (Para já não falar do Peixinho, Stockhausen, etc); mesmo o jazz é utilizado muito, muito esporadicamente.
Pessoalmente, a única forma que conheço de respeito pelo público é fazer o melhor que sou capaz. Não simpatizo com a ideia de “simplificar” ou “tornar mais apelativo” ao povinho burro... Por respeito, vou o mais longe que conseguir, tendo por balizas os meus limites técnicos, as barreiras do meu talento, e o respeito pela minha verdade.

At Sábado, 07 Maio, 2005, samovar said...
E parabéns por fazê-lo assim! Isso é tudo (e é bastante) do que eu, como público, espero ouvir dos músicos. Fico-lhe reconhecida por ter respondido dessa forma à minha interrogação um pouco nebulosa. Não pretendo ser mais que uma ouvinte atenta e curiosa e as minhas interrogações aqui limitam-se a isso mesmo, para aprender convosco. Acho que ficou mais claro, para mim, que a questão mais importante - nestas percentagens em desfavor da adesão do público às manifestações culturais contemporâneas que assinalou - tem a ver com a formação do gosto por um lado e as políticas de investimento na divulgação por outro. São esses os temas quentes que os portugueses têm pela frente para debater, fazer e mudar. Quanto às escolhas dos “grandes” palcos mundiais, e do “grande” público não sei, não. Parece-me que o que interessa não é que seja “grande” mas que exista! Que as oportunidades de criadores e público disponível se realizem. Só lhe posso dar o meu feedback de quem está fora de Portugal há sete anos e se tem misturado, na Europa, com os mais variados públicos, nomeadamente de música e dança. O que eu constato é que a oferta é sempre maior que a minha procura (e eu procuro bastante). Que tudo mexe, dos grandes palcos aos grupos independentes, às produções caseiras ou underground. E claro, o público existe e bem diversificado. Sinto-me sempre uma sortuda por ter tantas oportunidades e lá penso nos amigos que deixei aí e que mereciam estar a tê-las também, (como o autor deste blog, eheh).
Por isso, aqui deixo os meus parabéns aos vossos “diários interactivos” e desejo-vos garra para navegar contra a maré dos “brandos costumes”. Que não quero continuar a pagar impostos pra subsídios... ;) P.S. Quanto ao Peixinho, ao Stockhausen... e ao afastamento do público... uiiii... isso dava um comment novo e muito longo :) Fica para outra altura, se se proporcionar :)

At Sábado, 07 Maio, 2005, sasfa said...
Não sei a que realidade se referia George Steiner, mas acho que essa questão nem sequer se põe no nosso país - aqui os compositores, vivos ou mortos, lutam ainda contra o I-V-I do Emanuel ( não Nunes) e seus compinchas!!! Antes de tudo, seria preciso que o público se alfabetizasse, musicalmente falando, mas penso que estamos a caminhar no sentido contrário, pois cada vez mais, em escolas do ensino especializado da música se tocam musicais da Broadway, ou temas dos Beatles e até da Dulce Pontes... Não me parece que o futuro público vá estar preparado nem para Mozart, quanto mais para Emanuel Nunes...

At Domingo, 08 Maio, 2005, pb said...
ouve-se mais “palminhas” do que “musiquinha”, mais musicais do que música a sério! - Foi a minha resposta a propósito do nível das audições infantis nas escolas de ensino especializado da música (EEM).
Porque é bom não esquecer que é nas apresentações musicais dos mais pequenos que se vê a desorientação (musical e pedagógica) de muitos professores do EEM, sendo que estes e os pequenos alunos representam o presente e o futuro do EEM em Portugal.
Assim não vamos lá!!!
Era necessário um 25 de Abril na música.

At Domingo, 08 Maio, 2005, sasfa said...
Nem tanto, bastava fechar algumas comportas de onde todos os anos brotam hordas de “músicos”!!!

At Quinta-feira, 12 Maio, 2005, Teresa said...
Algumas notas soltas e pouco correctas:
Os próprios músicos contribuíram para a criação de um cânone que, em grande parte, acabou sendo transformado no repertório. Falo do século XIX, claro, mas há coisas que se compreendem melhor olhando para as origens. O cânone, a invenção de uma tradição da música erudita (com Schumann a liderar) foi uma maneira de legitimar a própria composição, a própria música no “concerto das artes”.
Quando se fala de “música artística”, a situação era similar nas últimas décadas do século XIX, nos anos 10-20 (lembro-me das memórias do Gieseking, de quem se falou há pouco no Ópera e demais interesses, e das dificultades que encontrou quando tentou incluir música contemporânea nos seus concertos depois da Primeira Guerra Mundial), nos anos 50... Seria interessante verificar se há alguma recorrência nisto que possa ser cruzada com as linguagens. E, ainda, isto acontece sempre que o compositor não se empenha na divulgação das suas próprias obras (comparem-se, como exemplo, os casos de Franck e de Brahms, vejam os casos de Mahler e de Strausss, ou de Britten, com o seu festival...). Outro caso interessante é o de Massenet, cujo impacto foi enorme em grande parte devido ao seu particular charme com as damas... Bom, e, também, quando a composição deixa de ser um veículo para o nacionalismo ou para a representação de qualquer outro tipo de poder. Vejam o caso, bem sucedido, de Stravinsky, que foi capaz de inventar também a sua “pertinência” em termos sociais.
Isto merecia um post inteiro, ou mehor, vários artigos, porque há outros muitos factores a ter em conta: a “geografia cultural” - a que já se fez referência -, a história, o estatuto da própria música erudita, o papel dos intérpretes como mediadores, quais são as diferenças conforme os géneros ou formatos instrumentais...
Para já não falar da responsabilidade que os próprios compositores têm de procurar o seu lugar sob o sol.
Finalmente (sem termos agora a preocupação de verificar a veracidade da percentagem nos nossos dias), para forçar o pensamento, deveriamos tentar descobrir primeiro nas razões pelas quais a situação deveria ser a inversa. A quem beneficiaria? (e não me parece aceitável usar como argumento o bem da humanidade ou variantes deste).
De facto, começa a estar bastante generalizada, entre os compositores e os apreciadores da música contemporânea, a ideia de que fazem parte de uma subcultura e de que isso não é problema nenhum. Inclusive, pelos vistos, em termos de mercado esses “nichos”, no século XXI, estão a ganhar uma importância crescente.
Prossigamos...

At Quinta-feira, 12 Maio, 2005, Teresa said...
Só mais uma coisita, relativa aos coreógrafo/as e bailarino/as: César, tu conheces bem o meio, sabes se há muitos que saibam ler uma partitura ou que distingam as execuções gravadas da mesma obra entre si? Tenho a suspeita (e aceito que possa estar a ser muito injusta: digamos que é uma pergunta em forma de palpite) de que, uma quantidade significativa de vezes, nos espectáculos de dança, a música é usada mais como fundo do que como elemento integrado no espectáculo.
Façamos mais percentagens...

At Quinta-feira, 12 Maio, 2005, César Viana said...
Na maior parte dos espectáculos de dança (com algumas, apesar de tudo bastantes, excepções)a música tem uma ou as duas de duas funções: ou é um relógio obcessivo que martela os tempos implacavelmente para que os bailarinos saibam a coreografia, ou é um cenário sonoro, surgindo então a música “de ambientes”. Quanto a saber ler uma partitura, depende dos países; em Portugal até vão sabendo, mas não me parece, infelizmente, que esse seja um factor decisivo. Já fizeste algum inquérito para saber que música os membros da generalidade das orquestras ouvem maioritariamente? Sabes qual a altura do ano em que a maior parte dos músicos da Gulbenkian metiam baixa? Durante os Encontros de Música Contemporânea, que “fecharam” entretanto. Penso que nos habituámos ao longo da história da música a uma situação em que a arte era disfrutada por uma elite infimamente minoritária. Com a progressiva democratização seria inevitável algum tipo de divórcio com a generalidade do público, que não dominará os códigos, mas provavelmente nem estará interessado em dominá-los; e porque haveria de o fazer? E essa democratização ainda só chegou ao 1o mundo, imaginem quando chegar (se chegar...) aos 2o e 3o...

Por outro lado, esta mesma democratização fez surgir nas culturas ditas “populares” nichos de excelência verdadeiramente incontornáveis, mas vamos tendendo para catalogar entre “clássico/não clássico”, Jazz/não Jazz, Pop/não pop e isso, evidentemente, contribui para uma progressiva “ghettização” de expressões minoritárias, o que poderia não ser um problema, mas que se passará quando economicamente não for já viável manter as grandes orquestras e companhias de ópera? Não considero de todo como um dado adquirido que as gerações dos meus filhos e netos possam continuar a ouvir Beethoven ou Bartok sem ser em suporte digital. Dificilmente nichos insignificantes numericamente poderão por muito tempo continuar a justificar organismos pesados e altamente deficitários como são as companhias de ópera e orquestras, suportadas pelo dinheiro dos impostos de todos, sendo que a meioria se está borrifando para o assunto. Não estou a criticar; estou a constatar um facto que nos deveria alarmar e fazer reflectir.

At Segunda-feira, 16 Maio, 2005, t. said...
Este debate, ao qual já cheguei tarde, é interessantíssimo.
Vocês já disseram tudo, mas vou só acrescentar umas coisitas:
A música...aquela que é por excelência a arte mais abstracta - anda a ser enxovalhada Toda a gente ouve música. Toda a gente opina sobre música, mas que tipo de “discursos” estão as pessoas habituadas a ouvir e a opinar sobre? Estarão as pessoas “treinadas” para ouvir música erudita? Música improvisada?
Não estão.
Não sabem ouvir, acham uma seca.
De todas as pessoas com quem me cruzo no meio das artes, são os músicos e os cantores aqueles que melhor entendem de que é que nós estamos aqui a falar, mesmo no meio do teatro e no da dança nem actores nem bailarinos OUVEM realmente a música enquanto discurso mental. ( Há excepções, claro mas por o serem, fogem à regra)
Eu estudei música muitos anos, tive a sorte inclusivé de ter o Fernando Lopes Graça como professor, o meu pai era um amante de ópera e ouvia-se muita música clássica lá em casa, tive sorte, tive muita sorte. Mas agora, hoje, nas escolas, o ensino da música é muito infeliz. O meu filho mais pequeno( 4 anos) quando chega às aulas de manhã, tem sempre música na sala de aula - o Batatoon - no outro dia perguntei à professora se não seria mais agradável estarem a ouvir Mozart ( desculpem mas eu acho-o muito divertido e “infantil”) respondeu-me que os miúdos não iriam gostar. O mais velho ( 11 anos )está no Conservatório de dança de lisboa e num ano lectivo, aprendeu a tocar e a cantar vários hit’s da Broadway e agora dos Beatles ( um castigo para mim porque nunca gostei dos beatles) As orquestras, andam a acabar com elas.
Os apoios para a música são escassos.
( No IPAE os subsídios de apoio à música são bastante reduzidos e normalmente são vinculados para Festivais)
Haveria que reeducar as pessoas.
Espalhar novamente a ideia da Arte como prazer sublime da alma.
Mas quê?
Emanuel Nunes????
Quem sabe quem é?
Mas o Castelo Branco toda a gente conhece.
É triste. Mas estamos a viver num país Triste.
Ou não?
Ah.. a título de curiosidade digo-vos que no Teatro, se usa muito a música como “música de fundo” ( como eu detesto esta definição) e nunca como voz activa na narrativa, resultado: nunca se percebe o porquê da sua escolha. São raros os encenadores que têm cultura musical.
o que me dói dizer isto-
Um abraço
Belo blogue.

At Segunda-feira, 16 Maio, 2005, pb said...
Olá T.!
Nunca é de mais um comentário porque afinal este assunto nem sequer tem uma resolução à vista. São questões de fundo que ultrapassam os limites dos nichos culturarais portugueses. É, em Portugal, e antes de qualquer outra coisa, a fundamental e pouco visível educação, e só depois a cultura. Obrigado pelo elogio ao blogue.

At Terça-feira, 17 Maio, 2005, sasfa said...
Concordo 100% com T. Não se podem construir as casas pelo telhado... O problema, não só na música, mas em tudo, é a falta de educação... Os nossos alunos, os professores, os pais e as direcções das escolas não querem profundidade, rigôr, nem sequer honestidade, querem superficialidade, resultados rápidos e bem maquilhados, um sucesso bacoco para inglês ver! A discussão das “quotas” da música contemporânea não fará muito sentido neste contexto!!

de conhecimento obrigatório (5)

wakajawaka.gif
Frank Zappa, Waka/Jawaka
Julho de 1972
4 Comments:
At Terça-feira, 03 Maio, 2005, Luís aquino said...
Por que é nunca se fica indiferente às capas dos discos do Zappa? Outra coisa: só ainda vi duas citações, mas parece que foi boa ideia a de colocar o Citador aqui no blog.

At Terça-feira, 03 Maio, 2005, pb said...
Confesso, na verdade “roubei” a ideia do Citador do um blogue que leio assiduamente - “Decompor”.


At Terça-feira, 03 Maio, 2005, luís aquino said...
“Roubar” boas ideias não é pecado. Pecado é não as saber usar.
(Epa! será que o Citador aceitava esta frase?...)

At Terça-feira, 03 Maio, 2005, pb said...
Claro que aceita!
Vai lá e propõe!
Ena...

Conlon Nancarrow

the musiC
yOu make
isN 't
Like
any Other:
thaNk you
oNce you
sAid
wheN you thought of
musiC
you Always
thought of youR own
neveR
Of anybody else’s.
that’s hoW it happens.

in Empty Words, John Cage
1 Comments:
At Quinta-feira, 05 Maio, 2005, samovar said...
Lamentavelmente, só posso pensar na música que os outros fazem. Se nem percebo como ouço uma melodia quando a orquestra está a tocar outra coisa!
Shuif, shuif.

Só!?

É culpa do compositor se um homem tem apenas dez dedos?

Charles Ives

Serenata

Mil grotescas dissonâncias
Faz Pierrot numa viola.
Sobre um pé, como cegonha,
Ele arranha um Pizzicato.
Logo vem Cassandro, tonto
Com o estranho virtuose.
Mil grotescas dissonâncias
Faz Pierrot numa viola.
Da viola já se cansa.
Com os delicados dedos
Pega o velho pela gola
E viola o crânio calvo
Com grotescas dissonâncias.

Arnold Schoenberg
Pierrot Lunaire, op. 21 (1912)
três vezes sete poemas de Albert Giraud

terça-feira, 26 de abril de 2005

ainda na CdM (sala 1)

a sala 1 é linda;

o edifício CdM um portento;

o público que me rodeava (fila c) tinha um ar absolutamente esclarecido e asseado, mas, no entanto, não pareciam ter pago o bilhete. Fiquei mesmo com a sensação de que bilhetes pagos nas primeiras filas, só eu e mais alguma outra alma perdida...;

se calhar foram apenas sensações;

tosses entre andamentos até foram poucas (Brendel fez questão de levar rebuçados...);

não conheci quase ninguém do público habitual deste tipo de eventos no Porto, embora tenha ficado com a sensação de ter visto uma série de vendedores de carros (a avaliar pelas boas vestimentas e conversa fluida), correctores de seguros (pelo olhar inquisidor com que observavam tudo atentamente) e funcionários da banca (porque ocupavam, com a sua aura, mais do que um lugar da plateia, e claro, traziam as miúdas giras);

as caras mais conhecidas, curiosamente, foram as que costumo ver quando me desloco a Lisboa aos concertos da Gulbenkian;

não encontrei, portanto, muita da fina nata cultural da cidade invicta do Porto.
14 Comments:
At Terça-feira, 26 Abril, 2005, Pedro Aniceto said...
Olá! E então a polémica do fosso da orquestra? Justifica-se ou não? Tenho de ir
fazer uma visita à cDM rapidamente. Abraços

At Terça-feira, 26 Abril, 2005, pb said...
Olá Pedro Aniceto! Que grande honra!
Na minha modesta opinião a questão do fosso não é coisa relevante. É que para fazer uma ópera de repertório tradicional (século XVIII e XIX essencialmente) há outras salas na cidade, destacando-se o coliseu. Para fazer óperas mais modernas (XX e XXI) com encenações bem arrojadas tudo é possível. Basta para isso que haja imaginação e meios técnicos (o fosso pode deixar de ser fosso para passar a ser elemento de encenação, quem sabe um “fosso” pendurado em cima do público, hehe). De qualquer forma sobre isto podem falar os especialistas... é um facto que a Opéra de la Bastille em Paris, que já tive o privilégio de conhecer, tem tudo, um fosso, legendas em painel electrónico, e é um dos mais modernistas locais de realização de ópera (XX e XXI) da actualidade! Bem, mas também só se faz ópera lá! Por isso a CdM, que vai servir muito mais do que a função da ópera e bailado, não me parece que precise assim tanto de um fosso!!!
Mas isso digo eu que também gosto de dizer coisas como o outro.
Um abraço e obrigado pelo comment.
Atenção: PB é Satie do #macintosh

At Terça-feira, 26 Abril, 2005, samovar said...
E se eu lá tivesse estado, onde é que me encaixavas tu, afinal?...

At Terça-feira, 26 Abril, 2005, pb said...
Nas que pagavam o bilhete pois claro! Pasmada com o Brendel! :-)

At Terça-feira, 26 Abril, 2005, Patrícia said...
Achas que tenho perfil para a “fina nata cultural da cidade invicta do Porto?”
Alta, loura, de olhos azuis.....????? Que dizes, Paulo? Em relação á sala 1, tive a pouca sorte de, no intervalo, ouvir um comentário estúpido e depreciativo da Casa, enquanto estava a apreciar o edifício e ainda maravilhada com o concerto.
Enfim, é a parte terrível dos concertos.
São os encontros tenebrosos.....!
Em relação à Casa,acho que é um pouco perigosa. Saí de lá com uma vontade imensa de comprar bilhetes para mais e mais concertos. Gostei bastante e apetece-me mesmo experimentar diversos lugares para usufruir bem a sala.
Tudo o resto, é conversa.

At Sexta-feira, 29 Abril, 2005, ADSUM said...
O edifício cDM é belíssimo. A sala 1 é majestosa e clara, mas confesso que tenho uma admiração especial pela 2. É mais intimista e muito bela: toda em vermelho...
Os camarins têm metade da parede envidraçada, facto q permite q as pessoas q passam no exterior observem o que lá se passa dentro, e vice-versa... Gostei. A decoração é minimal e de muito bom gosto. A vontade que me deu, foi d alugar lá um cantinho para a habitar por uns tempos... E respira-se música. A programação é mesmo muito boa. Entre outras ansiedades musicais, confesso que mal posso esperar pelo dia 5 de Novembro!

At Sábado, 30 Abril, 2005, pb said...
Mas agora este “adsum” ficou!?
Toca a assinar os seus comments Dra. B.!
Mau...

At Segunda-feira, 02 Maio, 2005, Luís Aquino said...
Ainda não assisti a nenhum concerto na CdM, portanto não conheço nenhuma das salas. Mas como tive que ir levantar uns bilhetes para a minha ‘patroa’, aproveitei para deambular pelas áreas de acesso livre. Não há dúvida quea polémica instalada—seja pelo atraso das obras, seja pela escandalosa sobre-orçamentação (ainda ninguém explicou como é que é possível um ‘budget’ passar de 15 para 100 milhões de euros!)ou ainda pelo conflito com o futuro edifício vizinho—teve uma virtude: chamar visitantes! Nessa deambulação por halls e foyers, deu para perceber que muitas das pessoas que também por lá deambulavam não são visitantes de espaços culturais, provavelmente muitos dos que com quem me cruzei estavavam a satisfazer a curiosidade aguçada mediaticamente ou simplesmente tomaram a CdM como um destino de passeio. Dei por mim surpreendido a passar por átrios e ver pessoas a tirar retratos a outras que, em pose, tiravam partido fotográfico do colorido dos sofás. Ou outras a fotografar o hall do tal janelão envidraçado que dá para o terreno do futuro edifício bancário...

Independentemente das interpretações que possamos ter sobre estes comportamentos (e eu não faço nenhuma em especial, a não ser que cada um tem o direito de fruir o espaço como quiser, desde que o respeite)o que me parece importante é que a administração da Casa devia aproveitar este afluxo anormal de visitantes para os cativar e fidelizar como público de espectáculos. Para isso ajudaria muito que todas as áreas da CdM estivessem a funcionar, nomeadamente as de restauração.

At Segunda-feira, 02 Maio, 2005, Luís Aquino said...
No episódio que contei acima, em que duas jovenzinhas de 20 anos curtiam delícias fotográficas proporcionadas pela CdM, uma de máquina na mão, outra alapada no sofá, não pude deixar de achar graça ao facto de elas terem ficado um pouco embaraçadas quando eu, ao descer as escadas que dá acesso a esse hall, as ter surpreendido com a minha aproximação. Não percebi o que disseram uma à outra, mas já agora não custa imaginar:

- Olha lá e se te chegasses mais p’ró centro do sofá? - sugere a de máquina na mão
- Não...Acho que me vou espraiar assim...- respondeu a outra, reclinando-se de lado e ao comprimento do sofá.
- Não percebes? Ao centro é que é, na Caras é assim que aparece...!
- Tens a certeza?...Mas se eu estiver quase deitada, o verde do sofá combina melhor com os meus olhos...- E dito isto, afastou a repa do cabelo ,tentando convencer a objectiva da máquina
- Mas que raio, tu tens olhos azuis!
- Chiu! Vem ali um gajo a descer as escadas...
- ....
- ....
Como o ‘gajo’ passou entre elas , mas não saiu logo do hall, decidido a ficar ali uns segundos a fazer que vê uma pinturas que estão em exposição, as duas visitantes mordem os lábios à procura de um pretexto de conversa que as salve do embaraço. As ideias estavam inibidas, até que a fotógrafa atira à outra um sussurro:
- Diz ‘ai e tal...’
- Ãh?
- Esquece..- E começa a assobiar, rodopiando sobre si e fazendo festinhas à máquina como se esta tivesse pó.
- Que chato!...Nunca mais se vai embora—bichana a outra, subitamente desconfotável no belo sofá verde. A cor da cara dela combinada com a do assento lembrava agora a bandeira nacional.
- Aposto que nunca deve vir a estes sítios, deve ser só para dizer que esteve na Casa da Música - continua a fotógrafa sempre em surdina - parece um boi a olhar para um palácio!
- Parece mas é o cota do teu tio...!
Estas últimas palavras abateram-se sobre a coroa deserta de cabelos do gajo, que lá decide retirar-se e deixar o cenário fotográfico.
Ao descer mais um lanço de escadas, ainda teve tempo de perceber que atrás
de si foram soltados uns abafados risinhos histéricos, imediatamente precedido
por um
- Click!

At Terça-feira, 03 Maio, 2005, pb said...
Este último comment é uma verdadeira crónica by Luís Aquimo!
Se calhar era uma boa ideia para um blogue de Aquino...

At Terça-feira, 03 Maio, 2005, Luís aquino said...
Estou mesmo decidido com a história do blog, mas mais parea a ideia que te tinha falado de remeter para a actualidade (ou de a actualidade ser um pretexto para outro assunto não quotidiano ou assim). Só me falta arranjar um nome.

ACEITAM-SE SUGESTÕES!

At Quarta-feira, 04 Maio, 2005, pb said...
Não sei não...
aquitidiano...
ou aqui-tidiano, não, talvez não...

At Quarta-feira, 04 Maio, 2005, luis aquino said...
Isso ia parecer um blog sobre o império romano eh, eh...Mas nesse caso preferia qualquer coisa como...

Tribuno Inocêncio... ou...
Deito-te às feras e já eras...

At Terça-feira, 31 Janeiro, 2006, Bjarni Frímann said...
Mon nom e Bjarni. Je suis de Islande, et j’étude composition e direction orchestrale en LHÍ. Je ne comprends pas beaucoup de Portugés, mais je croix que vous disputez musique classique. Merci beaucoup.

domingo, 24 de abril de 2005

Alfred Brendel na CdM

Sábado, 23 Abril de 2005
Alfred Brendel

1a Parte:
W. A. Mozart
Nove Variações sobre um minuete de J. P. Dupont em Ré K573
Robert Schumann
Kreisleriana Op.16

2a Parte:
Franz Schubert
Momentos Musicais D780
L. van Beethoven
Sonata para Piano No.15 em Ré, “Pastoral”

Alfred Brendel apresentou-se no Porto num concerto que, no género, talvez possa ser classificado como o mais importante da fase inaugural da Casa da Música, a interpretar o que mais o caracteriza, o repertório dos Clássicos de Viena. Começar um concerto por umas variações de Mozart, pouco conhecidas do grande público é, desde logo, algo a que só um pianista da craveira de Brendel é permitido. É que, quanto mais não seja pelo risco que estas peças apresentam na sua simplicidade e debilidade quase infantil, é uma obra que aparentemente cria pouco impacto para um início de um concerto. Mas não! Foi, desde o primeiro ao último momento em que o pianista colocou as mãos no teclado, muito especial fazendo-nos acreditar que se ouvia o repertório habitué dos concertos.
Na Kreisleriana Op.16 de Robert Schumann, Brendel surpreendeu também, mas pela unidade dada ao desenrolar de todo o discurso musical. Em muitas versões que ouvi desta obra nunca tinha sentido um fio condutor de tal perfeição e linearidade. Como se sabe a Kreisleriana, e outras obras de carácter cíclico de Schumann, perdem em algumas interpretações de concerto pelo facto de ouvirmos, separadamente, momentos excelentes em alguns quadros, mas na totalidade da obra nos escapar a direcção global da música. Nos Momentos Musicais D780 de Schubert o pianista levou a plateia, por um fio muito ténue, a um estado de emoção contida. Tudo foi realizado no limiar da perfeição: fraseado, sonoridade geral, controle das dinâmicas, respiração e pulsação rítmica.
O concerto não ficaria completo sem a sublime interpretação que Brendel deu à Sonata em Ré, “Pastoral” nesta noite. Não é, com certeza, por esta ser a minha sonata preferida de Beethoven, que vou afirmar que o que se ouviu foi magistral. Esta sonata, que já foge à herança mozartiana, mas que ainda não se apresenta no patamar final das últimas e mais complexas de Beethoven, representou o momento de maior concentração de emoções na sala 1 da CdM, em que Alfred Brendel fez aparecer todo o espectro dinâmico, dos pianíssimos aos fortíssimos. Além disso, a forma como nos fez ouvir ligados os segundo, terceiro e quarto andamentos foi brilhante, como se estivéssemos a ouvir contar uma história, com poucas interrupções, a alguém que conhecia todos os seus pequenos pormenores, contando-os sempre com mais interesse e entusiasmo. Só um grande “amigo de Beethoven” podia contar com tal clareza, veracidade e cumplicidade esta história chamada “Pastoral”. Foi o que aconteceu.
Um grande concerto!
7 Comments:
At Domingo, 24 Abril, 2005, aniversariante said...
Texto digno de um verdadeiro crítico musical!
E assim se perdem os verdadeiros talentos na blogosfera...

At Domingo, 24 Abril, 2005, Luís Aquino said...
Concordo! Nem demasiado técnico, portanto acessível a qualquer não especialista, nem superficial (apreciações suficientemente justificadas), e capaz de sugerir ao leitor o ambiente criado na sala. Temos crítico! (Já agora... quem é que faz anos? E paga alguma coisa...?)


At Domingo, 24 Abril, 2005, Oficial e comentadeiro said...
Sim, até pode ser isso tudo que vocês dizem, crítica bonita e tudo, mas por outro lado, é uma tristeza profunda isto ter corrido tão bem; quer dizer, o cenário dos títulos de jornal sai defraudado... Pronto,fica para próxima!


At Domingo, 24 Abril, 2005, aniversariante said...
Quando for a Portugal nas férias, prometo pagar qualquer coisa em grande ao profissionalíssimo comentador deste blog!

(Mas tb gostava de uma cura qualquer de acupuntura ;)

At Segunda-feira, 25 Abril, 2005, oficial e comentadeiro said...
Ok. Combinado, aniversariante.

At Segunda-feira, 25 Abril, 2005, Patrícia said...
“Além disso, a forma como nos fez ouvir ligados os segundo, terceiro e quarto andamentos foi brilhante, como se estivéssemos a ouvir contar uma história, com poucas interrupções, a alguém que conhecia todos os seus pequenos pormenores, contando-os sempre com mais interesse e entusiasmo.”

quinta-feira, 21 de abril de 2005

como que um esvaziamento da alma

(A propósito do comment de Luís Aquino no post “... tal como Feldman”)
Mark Rothkodicks (seu nome russo), tal como Morton Feldman, parecia pintar o nada...
a música de Feldman realizava “o nada” em sons numa obra que me encantou pela sua contenção, subtileza, humildade e transparência. Pouca música no século passado foi capaz de ser tão simples, tão insólita e ao mesmo tempo tão relaxante e complexa. Ainda hoje, quando a ouço entro num estado de acalmia que não controlo sentindo como que um esvaziamento da alma. É que Feldman, na sua música, nunca foi capaz de um gesto brusco.
Tudo nele é dolce e pianissimo!

de conhecimento obrigatório (4)


Ella Fitzgerald, Sunshine of your Love
Gravado por Wally Heider em San Francisco em Outubro de 1968

Conheci este disco há muitos anos em vinil (versão que mantenho) e em 1996 foi reeditado com esta nova capa (a capa original era diferente). Trata-se de um vinil raro e muito caro no mercado usado do género e a versão presente (cd) também não é fácil de encontrar.
É para mim o melhor disco de Ella onde esta se encontra com a orquestra (lado a) e o trio (lado b) ingleses de Tommy Flanagan. O tema Sunshine of your Love que dá nome ao disco é esse mesmo, o de Eric Clapton! Tem também a mais forte e atrevida versão que conheço de Hey Jude dos Beatles. Mas o que realmente transcende é o segundo lado onde se apresenta apenas o trio: Tommy Flanagan no piano, Frank De la Rosa no contrabaixo e Ed Thigpen na bateria. E, claro, como não podia deixar de ser, os grandes discos desta época eram assinados nos textos e na produção por Norman Granz. Um momento único, felizmente foi gravado, do melhor Jazz de sempre.

quarta-feira, 20 de abril de 2005

Boléro de Ravel

Hoje lembrei-me de um singelo episódio, ocorrido há já alguns anos, numa escola profissional de música - num ímpeto de participação, entusiasmada, uma aluna perguntou-me: “quem é que escreveu o Boléro de Ravel?!” Nunca me refiz...
3 Comments:
At Quarta-feira, 20 Abril, 2005, sasfa said...
Ainda assim, essa não é melhor que a das escalas - a escala maior e a mais pequena...

At Quinta-feira, 21 Abril, 2005, ADSUM said...
Ai... tenho uma lista tão vasta destas referências, quase tanto como o catálogo do D. Giovanni q Leoporello tão bem apresenta. E que tal o singspiel de Mozart ‘O rapto do Sarrabulho’? Deliciosa, heim? :)


At Quinta-feira, 21 Abril, 2005, Pat said...
São todas dignas de “Portugal no seu melhor”.....!

expressão singular

Os muitos estágios da música americana colocaram o uso da melodia, na música social e comercial, sob a mira de uma arma. Qualquer entendido sabe que, hoje em dia, rock, clássico, folk e jazz são nomenculaturas ultrapassadas. Sinto que o mundo da música está a a fechar-se em torno de uma expressão singular, com histórias musicais não delimitadas, da humanidade.

Ornette Coleman, 1977
1 Comments:
At Sábado, 23 Abril, 2005, El comentador said...
O que me parece que à primeira vista ele chama de «histórias musicais não delimitadas» é o reflexo na música de um fenómeno social e cultural mais vasto, um discurso desconstrutivista , um deitar abaixo de fronteiras, uma abordagem de fusão, que aconteceu em todos os campos artísticos. Aliás é curioso que dois anos mais tarde 1979, François Lyotard escreveu um livro que deu nome a uma expressão dos fenómenos sociais ainda hoje muito polémica. O livro chamava-se «A condição pós-moderna» e a expressão que desde aí, bem ou mal, não deixou de andar nas bocas do mundo é...pós-modernismo, pois ‘tá claro!

Prefácio

A maioria das vezes o compositor escreve a abertura quando a ópera já está terminada.

in Nuevo Tratado de Armonia, Alois Haba
(tradução de pb)
5 Comments:
At Quarta-feira, 20 Abril, 2005, Luís Aquino said...
Ui... a ópera
Como não percebo nada de estruturas musicais, já vou meter nojo; mas vem a propósito: sabiam que sua excelência o recém-eleito líder dos católicos (não digo o nome dele, porque já o fiz noutros comments e não quero ser acusado de perseguição ao homem)disse nos idos de 80 (já no pontificado do Karol) que a ópera era uma manifestação do demónio? E o rock também. E isto não li em nenhuma notícia recente - tipo a descascar nele agora que passou a usar aquela ogiva nuclear na cabeça - não senhor, ouvi eu de viva voz do próprio na TSF.

At Quarta-feira, 20 Abril, 2005, pb said...
O quê???
Não posso acreditar! Isso é mesmo muito mau... possivelmente para o Bento XVI, Papa no 261, (acho que ouvi este número) ainda hoje estávamos a ouvir música gregoriana!

At Quarta-feira, 20 Abril, 2005, Patrícia said...
“ ...Mas na ópera italiana as aberturas eram usadas como forma de acabar com
a conversa do público e possibilitar que o público atrasado pudesse chegar aos
seus lugares. Assim, uma das aberturas de Rossini foi usada para três das suas
óperas, incluindo Il Barbieri di Siviglia”
Michael Kennedy

Só mais um parte e isto em relação ao Ratzinger... sabiam que o senhor q considera a ópera uma manifestação do demónio é músico e um óptimo pianista? UI, ui, como ele gosta do diabinho......!


At Sábado, 23 Abril, 2005, Decompositor said...
Sim, também já tinha ouvido isso. O seu compositor preferido é o Beethoven.
Será que ele toca a “Appassionata”?
LP

At Terça-feira, 26 Abril, 2005, Patrícia said...
Provavelmente.... mas com surdina, para ninguém ouvir, não vá o diabo tecê-las! O que lhe tira toda a piada.
É incrível como pode ele ser tão incoerente. Porque será que aprova umas manifestações e outras não?
Mas vamos lá dar um tempo ao senhor... afinal, pode-nos surpreender positivamente.
Mas adoraria conversar com ele para conseguir entender as suas razões em considerar que a ópera é uma manifestação do demónio. Nunca se sabe....

ideas for coherence

I. A ideia de uma peça de música é

1) na sua concepção
a) puramente material
c) psicológica
b) metafísica

2) na sua apresentação
a) lógica
c) psicológica
b) metafísica

II. A concepção não necessita de lógica

III. A apresentação necessita de lógica

Arnold Schoenberg
(tradução de pb)

... tal como Feldman


Mark Rothko: Blue, Green and Brown
(1951)
1 Comments:
At Quinta-feira, 21 Abril, 2005, Luís Aquino said...
ora quem diria, uma bela pintura e é americana! Apesar que Rothko tem genes russos (eh, eh).
É um abstraccionismo muito... formal, talvez...É isso que é «...tal como Feldman» (suponho que seja um compositor)? O rigor da relação entre as cores, o equilíbrio das formas ... É engraçado como uma pintura que está nos antípodas do figurativismo consegue ser tão cativante. Quer dizer, mesmo sem saber muito bem o que ela me diz, sei que me diz algo com que me identifico. Provavelmente nem me interessa muito saber o conteúdo: como diria o próprio MR, não importa o que está pintado, desde que esteja bem pintado (olha, esta podia ir para os comentários daquele post do Pessoa sobre arte...). Ou nas palavras do próprio: «There is no such thing as good painting about nothing»

terça-feira, 19 de abril de 2005

A página de música


György Ligeti
Three Pieces for Two Pianos, Bewegung
(1976)
6 Comments:
At Terça-feira, 19 Abril, 2005, samovar said...
Gostava de saber quem é o virtuoso que decifra uma sarrabiscada dessas...

At Terça-feira, 19 Abril, 2005, Patrícia said...
Ora cá está um bom motivo para piorar a miopia dos pianistas... chiça!

At Terça-feira, 19 Abril, 2005, pb said...
Esta “sarrabiscada”, como lhe chamas, já foi tocada pela virtuosa da tua amiga Madalena Soveral! E muito bem por sinal, no ano de 1988. Eu estava lá e quase caí para o lado. É uma das obras de Ligeti de que mais gosto...

At Terça-feira, 19 Abril, 2005, pb said...
A miopia dos pianistas revela-se de outras formas...

At Terça-feira, 19 Abril, 2005, pat said...
Sim.... Que queres dizer com isso? Ou antes, podes querer dizer tanta coisa q me deixaste baralhadita... explica melhor, sim?

At Quarta-feira, 20 Abril, 2005, pb said...
A miopia a que me referia é comum a outros “istas” com ou sem piano por detrás... os ditos e consagrados especialistas!