terça-feira, 17 de maio de 2005

Adição

Que aos dons da natureza se juntem os benefícios de artífice - tal é a significação geral de arte.

Igor Stravinsky, Poética da Música

Hasard et nécessité

On se souvient de la remarque de Schoenberg: “Ma musique n’est pas moderne, elle este simplement mal jouée.” Ce pourrait n’être qu’une boutade, si elle n’était révélatrice d’un état de fait qui a considérablement oblitéré un accès véritable à la musique d’avantgarde, dans la première décennie de l’après-guerre.

François Porcile, Les conflits de la musique française (1940-1965), 2001

sábado, 14 de maio de 2005

“mal amada” arte já em 1896!

As nossas observações práticas permitem-nos definir a oposição nos seguintes termos: a arte moderna tem um fundo predominantemente pessimista, enquanto a atitude do moderno proletariado é profundamente optimista. Toda a classe revolucionária é optimista (...). É óbvio que isto não tem nada a ver com utopismos. O lutador revolucionário poderá analisar friamente as possibilidades de ganhar ou perder a luta; mas só é um lutador revolucionário porque está possuído da convicção inabalável de que é capaz de transformar um mundo. Neste sentido, todo o trabalhador com consciência de classe é optimista: olha para o futuro cheio de esperança. E vai buscar essa esperança precisamente à miséria que o rodeia.
A arte moderna, pelo contrario. É acentuadamente pessimista. Não conhece saída para a miséria cuja descrição é o seu assunto preferido. Provém de círculos burgueses e é o reflexo de uma decadência incontrolável, que nela se reflecte bastante fielmente. À sua maneira, e desde que não seja simples intenção de modas, ela é honesta e verdadeira, está muito acima dos Lindau* e das Marlitt*, mas é absolutamente pessimista, na medida em que, na miséria do presente, só vê a miséria.

* Crítico teatral, romancista e dramaturgo de “boulevard” na linha de A. Dumas e Sardou.
* Autora de romances cor-de-rosa do fim de século XIX.

Franz Mehring, Arte e proletariado, 1896

À parte isso...

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

TABACARIA
(extracto), Álvaro de Campos, 1928
2 Comments:
At Segunda-feira, 16 Maio, 2005, t. said...
Pois.
:)

At Segunda-feira, 16 Maio, 2005, Analepse said...
Deste poema imortal, um excerto que sempre me comoveu:
«(Come chocolates, pequena;
Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho, Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)»

sexta-feira, 13 de maio de 2005

Música “mal amada”!

Among the reproaches most obstinately repeated by these critics, the most widely spread is that of intellectualism: modern music has its origins in the brain, not in the heart or the ear; it is in no way conceived by the senses, but rather worked out on paper. The inadequacy of these clichés is evident. The critics present their arguments as though the tonal idiom of the last 350 years had been derived from nature (...). The idea that the tonal system is exclusively of natural origin is an illusion rooted in history (...). The feeling that, in contrast to traditional music, the conception of modern composition is more intellectual than sensory is nothing but evidence of incomprehension (...). What is labelled as emotion by musical anti-intellectualism yields without resistance to the mainstream of current social logic (...). On the other hand, the objective consequence of the basic musical concept, which alone lends dignity to good music, has always demanded alert control via the subjective compositional conscience. The cultivation of such logical consequence, at the expense of passive perception of sensual sound, alone defines the stature of this perception, in contrast to mere “culinary enjoyment”.

Theodor W. Adorno, Philosophy of modern music

(Afinal o texto de George Steiner publicado no post “5% ou menos” já nem em 1977 acrescentava grande coisa ao que Adorno, uns anos antes, tinha denunciado. Com efeito, esta temática recusa-se a deixar de ser actual quer se fale de Schoenberg, da quantificação e aceitação de todas as novas músicas pelo público ou da coragem dos compositores contemporâneos que “persistem” em dar ao público o seu melhor.
Discutamos pois então a temática da música “mal amada”! Ass: pb).
4 Comments:
At Sexta-feira, 13 Maio, 2005, César Viana said...
Como diria o Schönberg “prefiro compor como um intelectual do que como um idota”. (cito de memória, não sei se são estas as palavras exactas, mas o sentido é este.


At Sexta-feira, 13 Maio, 2005, pb said...
Hehhee!
Devem ser essas as palavras pois...

At Domingo, 15 Maio, 2005, Teresa said...
“Que estranho conceito de música tem determinada categoria de críticos (a que ousarei chamar hiper-racionalistas), quando dizem de certas obras literárias que não se coadunam ao seu feitio especial de mentalidade, que elas «escapam à crítica», que «não são para serem pensadas mas sim sentidas» e que por isso são de «natureza musical»!!!...”
Fernando Lopes-Graça, 1933

“[...] a música para os autênticos músicos e para todos os que a compreendem verdadeiramente [é] uma coisa tão ‘pensável’ como qualquer outra coisa ‘pensável’, uma actividade que oferece tantas possibilidades de que sobre ela se exerça o espírito crítico como qualquer outra actividade intelectual”
Fernando Lopes-Graça, 1939

At Segunda-feira, 16 Maio, 2005, Analepse said...
Bem, esta coisa da criação humana (neste caso específico, artística)ter a sua origem somente nos mecanismos da razão ou nos dos sentidos é mais velha que a Sé de Braga; pelo menos tão velha quanto Descartes ou John Locke (na verdade quanto Platão ou Sócrates, mas não queria ir tão longe. Como esta divisão faz para mim tanto sentido como os anúncios ‘prova de sabor Planta’, prefiro recuperar o que Rousseau disse no século XVIII sobre o assunto, e que hoje haveria de ser qualquer coisa como isto:

O homem não se constitui apenas de intelecto pois, disposições primitivas como as emoções, os sentidos e os instintos existem nele antes do pensamento elaborado; estas dimensões primitivas são para mim, mais dignas de confiança, do que os hábitos de pensamento que foram forjados pela sociedade e impostos ao indivíduo.

retrato (3)


John Cage
Photograph on rear dust cover of A John Cage Reader (hardcover edition, C. F. Peters).
3 Comments:
At Sexta-feira, 13 Maio, 2005, César Viana said...
“The maker of a camera who allows someone else to take the picture” J.C.


At Sexta-feira, 13 Maio, 2005, pb said...
Foi John Cage que disse isso? Mas com que sentido terá isso sido dito...?

At Sábado, 14 Maio, 2005, César Viana said...
Não me lembro exactamente, mas penso que referindo-se à liberdade concedida ao intérprete e aos imprevisíveis resultados da indeterminação em muitas das suas obras.

a single gesture

The Expressionistic miniature of the new Viennense School contracts the time dimension by expressing - in Schoenberg’s words - “an entire novel through a single gesture.”

Theodor W. Adorno, Philosophy of modern music

“cronométrico Funes”

Havia aprendido sem esforço o inglês, o francês, o português, o latim. Suspeito, contudo, que não era muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair.

in Jorge Luis Borges: Prosa Completa - Funes, o Memorioso, 1979 (Tradução de Marco Antonio Frangiotti)

segunda-feira, 9 de maio de 2005

Utopia!

“UTOPIA! UTOPIA!” Já oiço gritar os nossos sábios e os que tratam de adocicar a barbárie do Estado e da arte contemporâneos, ou seja, as pessoas ditas práticas, que no exercício da sua prática quotidiana se entregam continuamente à mentira e à violência ou, no melhor dos casos, quando lhes resta alguma honestidade, à ignorância.

Richard Wagner, A Arte e a Revolução, 1849

Mitsuko Uchida na CdM

Há umas horas atrás ouvi Mitsuko Uchida nas três últimas sonatas de Beethoven.
Que programa para um concerto! (por mais que se goste de Beethoven...) Na primeira parte com as sonatas 30 e 31 foi bom mas faltou convencer uma plateia sempre ruidosa (pelo menos três telemóveis ouvi – isto de concertos no norte é outra coisa, é pessoal muito ocupado, não há que perder tempo com concertos e deixar de lado os negócios e algum telefonema importante – está correcto, sim senhor!).
Na segunda parte, com a 32, Uchida, deixou o público aos seus pés, suspenso nos seus trilos em pianíssimo! (Há muito tempo que não ouvia uma sala tão silenciosa como que a pairar sobre o nada...) No fim, agradeceu, agradeceu, “desculpando-se” por não tocar mais.
Acabou, nem um encore!
Realmente, depois da sua intensa interpretação da op. 111 era complicado tocar o quer que seja mas, quem sabe, se não foi eventualmente, e apenas, uma resposta aos três toques de telemóvel da primeira parte... Afinal não é habitual termos no Porto nomes como Mitsuko Uchida todos os dias e, como diz o outro, cada público tem aquilo que que vai fazendo por merecer. Não há encores para ninguém!
6 Comments:
At Terça-feira, 10 Maio, 2005, Oficial e Comentadeiro said...
Medidas de profilaxia contra plateias ruidosas

1. No caso dos telemóveis 1.1.Imediatamente antes do começo do concerto, passar um aviso sonoro: «Ai e tal...É favor desligar os telelés senão o artista chateia-se» Isto em português, inglês, francês e svenska (não sei que lingua é, mas vem sempre no menu dos dvd, por isso deve ser importante) 1.2.Em alternativa, revistar a assistência à entrada, obrigando todos os portadores a deixarem o dito aparelho no bengaleiro. Não se faria nenhuma identificação dos tlms, porque isso ficaria muito caro e a CdM é um exemplo de poupança; no fim do concerto, a devolução resolvia-se distribuindo os aparelhos fazendo uma correspondência, que me parece justa,entre o modo de vestir e a marca de telemóvel. Ex.:os telemóveis da quarta geração iriam para quem usasse peles, mostrasse as chaves de um Mercedes ou exibisse dente de ouro; os aparelhos pré-históricos (+ de 3 anos)para quem se apresentasse de t-shirt ou tivesse ar de artista (ainda que vagamente).
2.No caso dos ataques de tosse:
2.1.Os prevaricadores (aqueles que tossissem mais de 1,5 vezes), no fim do concerto, seriam atirados aos donos dos telemóveis que tivessem ficado a perder com a devolução.

At Terça-feira, 10 Maio, 2005, pb said...
Valente “oficial e comentadeiro”!!!
No ponto de 2.1 quase rebentava de rir!!!
Assim sim, vale a pena...

At Terça-feira, 17 Maio, 2005, sasfa said...
Não é só no norte que estas coisas acontecem... Lembro-me do último recital da Maurizio Pollini na Gulbenkian, onde aconteceu exacatamente a mesma coisa. Bom, não três telemóveis, só um, mas já nos encores!! O ar incrédulo de Pollini...

At Sexta-feira, 20 Maio, 2005, Anonymous said...
Admira-me que tenham sido 3 telemóveis apenas... ou teria sido o mesmo telemóvel a tocar três vezes?


At Sexta-feira, 20 Maio, 2005, pb said...
Ai Paulinho, Paulinho! Com que então Anonymous? Pois, pois...

At Sábado, 04 Junho, 2005, pb said...
Afinal não era o Paulinho o ou a Sr(a) Anonymous. É o que acontece quando não se assina os comments...

sábado, 7 de maio de 2005

La réalité d’une transcendance

Je suis convaincu que les oeuvres d’un Homère, d’un Goethe, d’un Dostoïevski, d’un Beethoven, d’un Picasso ne peuvent exister dans un monde totalement séculier et qu’elles posent la question de l’existence de Dieu. La musique en particulier me démontre la réalité d’une présence, d’une transcendance.

George Steiner, Entretien avec Jean-François Duval, 1998

A propósito de "5 % ou menos?"

A propósito da recente investida de excelentes comments no post “5 % ou menos?” queria dizer que, apesar da situação real e lamentável da música ser, em Portugal, a que aí se descreve, me lembrei, em auto-defesa, apenas desta (in)consolável (in)certeza:

“La vie sans musique n’est qu’une erreur, une besogne éreintante, un exil.”

Friedrich Nietzsche, lettre à Peter Gast, 15 janvier 1888
2 Comments:
At Quinta-feira, 12 Maio, 2005, Teresa said...
«Aprended a pensar: [...] - que el pensar ha de ser aprendido como ha de ser aprendido el bailar, como una especie de baile... [...] No se puede descontar, en efecto, de la educación aristocrática el bailar en todas sus formas, el saber bailar con los pies, con los conceptos, con las palabras; ¿he de decir que también hay que saber bailar con la pluma, que hay que aprender a escribir?» Crepúsculo de los ídolos (1889)

(Desculpem: mas não tenho a tradução portuguesa. Li a frase transcrita pelo Paulo e lembrei-me logo disto).

At Sexta-feira, 13 Maio, 2005, pb said...
A música, tal como a compreendemos hoje, é igualmente uma excitação e uma descarga conjunta dos afetos, mas, não obstante, apenas o que, sobrou de um mundo de expressão dos afetos muito mais pleno, um mero residuum do histrionismo dionisíaco. Para a viabilização da música enquanto arte específica, imobilizou-se uma certa quantidade de sentidos, antes de tudo o sentido muscular (no mínimo relativamente: pois em certo grau todo ritmo ainda fala a nossos músculos): de modo que o homem não imita e apresenta mais imediatamente com seu corpo tudo que sente. Apesar disso, é este o estado normal propriamente dionisíaco, em todo caso o estado originário; a música é a especificação lentamente alcançada deste estado, em detrimento das faculdades que lhe são mais intimamente aparentadas.
Crepúsculo de los ídolos (1889)
(gostei particularmente desta parte - encontrei neste site brasileiro)
http://www.odialetico.hpg.ig.com.br/filosofia/nietzsche.htm

a bd de pb (2)


Yslaire
3 Comments:
At Sexta-feira, 06 Maio, 2005, samovar said...
:)))))))
Então andava eu a tentar encobrir este acontecimento e tu descobriste-o?! Maldita net... já não se podem fazer surpresas nem guardar prendas à la longue!
É favor aguentar a curiosidade ou então fazer anos mais cedo! :)

At Sábado, 07 Maio, 2005, pb said...
Pois é...
já tinha visto há algum tempo! A saga “XXe ciel” vai continuar. Mas de qualquer forma estas coisas nunca vão sair em Portugal, por isso, a prenda de aniversário é sempre bem vinda! Hehe!

At Terça-feira, 10 Maio, 2005, Luís Aquino said...
Então, como é? Desde que este blog foi criado as pessoas desataram todas a fazer anos...?

Mau!... Já não há blogs como antigamente...

terça-feira, 3 de maio de 2005

de conhecimento obrigatório (7)

kindofblue.jpg
Miles Davis, Kind of Blue (1962)

Este post vai ao encontro do que é dito por César Viana (comment: 5% ou menos?), quando refere John Coltrane, confirmando que a erudição é um conceito muito vago e uma palavra a ter em fraca conta. Apresentem-se pois os músicos, pouco ou nada eruditos, tanto importa, três dos melhores de sempre estão lá, é mais do que certo!

Miles Davis, trompete
John Coltrane, sax tenor
Bill Evans, piano
Julian Adderley, sax alto
Paul Chambers, contrabaixo
James Cobb, bateria
Wyn Kelly, piano (só em Freddie Freeloader)

01 So What
02 Freddie Freeloader
03 Blue In Green
04 All Blues
05 Flamenco Sketches

(por não conhecer este disco, um(a) indivíduo(a), de uma cultura musical média, seja lá isso o que for, devia ter que sofrer um qualquer castigo ao longo de, vá lá, uns tempos, tipo peixe cozido durante duas semanas seguidas...)
7 Comments:
At Terça-feira, 03 Maio, 2005, pb said...
Não disse quem eram os tais 3!
Claro que são Miles Davis, John Coltrane e Bill Evans.
E já agora os outros 2 intérpretes, de Jazz, também de sempre, e dos antigos...
Ella Fitzgerald e Louis Armstrong!

At Quarta-feira, 04 Maio, 2005, César Viana said...
O Miles comentou numa entrevista que este disco era tanto dele como dos outros, mas a editora queria o nome dele na capa. Aliás, o papel do Bill Evans na concepção, arranjos, e até nas notas da contracapa é bem nítido e decisivo. Que disco! “Os milagres acontecem”, diz uma canção que anda por aí...


At Quinta-feira, 05 Maio, 2005, MrMystic said...
Miles was a great musician but he was a foofy husband


At Quinta-feira, 05 Maio, 2005, samovar said...
Eu adoro peixe cozido. Também conheço esse disco mas há mais de dez anos que não me apetece ouvi-lo.

O Sr. Paulo o que é que me prescreve??

At Quinta-feira, 05 Maio, 2005, pb said...
Não prescrevo nada!
O caso é tão grave que não tem solução...
:-P

At Sexta-feira, 06 Maio, 2005, César Viana said...
Para lá de ser inacreditável não ouvir este disco há 10 anos, haverá uma razão para o fazer agora; a edição original em LP e as primeiras em CD, devido a um problema de transcrição, estavam uma pouco mais agudas do que deveriam, aspecto que foi corrigido nas mais recentes edições em CD. (nomeadamente o cd Columbia CK 64935, que além disso traz um take alternativo do Flamenco Sketches com um solo fabuloso do Coltrane)


At Sexta-feira, 06 Maio, 2005, samovar said...
:)))))
Obrigada pela notícia, César Viana. Sorrio porque isso é aguçar a minha tendência musicopata que tem andando adormecida.

domingo, 1 de maio de 2005

de conhecimento obrigatório (6)

Musik für Streichinstrumente.jpg
György Kurtág, Musik für Streichinstrumente

The Keller Quartett

Aus der Ferne III für Streichquartett Officium breve in memoriam Andreae Szervánsky Ligatura - Message to Frances-Marie Quartetto per archi Hommage à Mihály András 12 Mikroludein für Streichquartett Ligatura - Message to Frances Marie

Recorded October and November 1995
2 Comments:
At Terça-feira, 03 Maio, 2005, Il Dissoluto Punito said...
Eu tb destacaria Le Grand Macabre, pela ousadia (E. P Salonen - SONY)...

At Terça-feira, 03 Maio, 2005, pb said...
Sim, também.
Eu tenho a versão da Wergo com
Michael Meschke e Michel de Ghelderode na adaptação...

Sobre György Ligeti

Pour moi, Ligeti est un des plus grands musicien du XXe siècle. Sans ordinateur et sans appareillage électronique sophistiqué, uniquement avec son instinct, son cerveau et sa sensibilité, il nous a donné certaines des ouvres les plus avancées de l’époque.

Olivier Messiaen
(Claude Samuel in, Permanences d’ Olivier
Messiaen - Dialogues et Commentaires)
5 Comments:
At Terça-feira, 03 Maio, 2005, César Viana said...
assinaria por baixo.


At Terça-feira, 03 Maio, 2005, pb said...
Eu assino de cruz!
Já há duas assinaturas!!!
:-)

At Quarta-feira, 08 Fevereiro, 2006, Sara said...
Concordo em absoluto!! ou nao fosse eu discipula do bloggista......

At Quarta-feira, 08 Fevereiro, 2006, pb said...
Olha a Sarita!
Claro, pois, pois...
Já soube que este ano vamos ter as vossas “Peças frescas” transmitidas na rádio!
Sim senhora, fico bastante orgulhoso, para não dizer babado...
Beijos para as 3 meninas e abraço para o menino aí na capital!

At Quarta-feira, 15 Fevereiro, 2006, sara said...
é verdade sim! finalmente vamos ter a nossa música a andar por aí pela rádio!
gostávamos de contar com a presença do mestre! acho que o osvaldo também
está a pensar vir cá ouvir!
se não pudermos contar com a sua excelentíssima presença pelo menos já
sabemos que temos um par de ouvidos ligados na rádio.....
faço a publicidade: dias 28 e 30 de Março a partir das 18h30 na Antena1
:)

Musique d’ameublement

Satie ne cède jamais à l’abondance, s’il y cède c’est par la longueur voulue pour ses pièces – comme la Musique d’ameublement écrite en 1920, constituée d’une suite de rengaines d’allure populaire, répétées sans fin –, mais non par la multiplicité des figures ou des thèmes employés. L'utilisation que Satie fait de la citation ou du mélange des genres s’affirme au-delà du jeu comme une force de rupture au sein de la forme, et surtout comme une possibilité de distanciation par rapport à la question de l’expression ou de la pureté d’un style.

Béatrice Ramaut-Chevassus
4 Comments:
At Segunda-feira, 02 Maio, 2005, Revolucionário pós-modernista said...
O Satie - que adoro, não que isso importe, mas fica dito - esteve muito bem no seu tempo. Basta ver o modo como Cocteau e o grupo dos 6 se “aproveitaram” da sua atitude estética...

Mas eu acho, e perdoem-me a arrogância, que o que precisamos não é de “Saties” que nos chamem à atenção para a necessidade de romper com a flatulência do romantismo artístico através da ironia da atitude estética...hoje em dia, precisavamos mesmo era de músicos/compositores que comunicassem... Se calhar de “Wagners” que tão odiados eram então...

At Quinta-feira, 05 Maio, 2005, samovar said...
E não existem? Então estamos tramados! Se não gosto de flatulências e me aborrece a atitude estética irónica, que hei-de ouvir?? Ou o chefe deste blog começa a “comunicar” ou só me restam os Sepultura!


At Sábado, 07 Maio, 2005, César Viana said...
Não se pode decidir por decreto que tipo de compositores temos. Podemos, sim, criar as condições para que um meio artístico sólido e profissional torne o seu trabalho coeso, regular, apreciado por um público conhecedor, mas isso dá muito trabalho. Vamos continuar a entregar o dinheirinho dos nossos impostos para subsídios, tem mais a ver com a nossa personalidade de brandos costumes...


At Sábado, 07 Maio, 2005, samovar said...
1 - Claro que sim. A boca foi só para picar o Paulo Bastos e porque achei piada à expressividade do “revolucionário”.
2 - Não vamos não... Não vislumbro uma revolução mas ainda acredito nos agentes da mudança!

5 % ou menos?

De acordo com as mais fidedignas estimativas, cerca de 95% da música erudita reproduzida em discos, tocada na rádio, executada em concertos, é música do passado. Nem a literatura, nem as artes visuais conhecem tal proporção. Os compositores vivos estão lutando por 5% ou menos do tempo total e dos meios de acesso acústico. É uma situação fantasticamente distorcida.

George Steiner, The Politics of Music, 1977
(tradução de Augusto de Campos)
17 Comments:
At Segunda-feira, 02 Maio, 2005, Revolucionário pós-modernista said...
E seria muito bom que os compositores pensassem nisso! Parabéns pelo post. Ainda por cima, essa situação não é nova... desde, pelo menos, o pós 2a guerra mundial que é assim... o fosso entre a arte dita erudita e o público cresce... Os “Boulez” deste mundo deviam pensar nisso... Ou será culpa da nossa amusicalidade, quer dizer, da falta de cultura musical, do ensino musical que não existe - para a grande maioria - deste nosso capitalismo selvagem onde os “media” controlam o que ouvir)...enfim.

At Terça-feira, 03 Maio, 2005, Luís Aquino said...
Não tenho a certeza (nem poderia ter) de que o facto de os compositores vivos terem acesso a 5% ou menos do mercado seja por estas razões. Quer dizer, estas poderão estar presentes, mas tenho dúvidas se são as principais.

A ideia que tenho é que a música clássica vive no extremo oposto da pop/rock:
enquanto que nesta,a apetência é mais para a novidade do que para os consagrados, na primeira é exactamente ao contrário. O que me leva a pensar que a música clássica, desde o aparecimento de outros estilos menos ‘formais’, sempre foi vista como algo demasiado sério e que se deve a todo custo evitar banalizar. A resistência à novidade na clássica,como forma precisamente de evitar o efeito ‘chiclet’ da pop/rock, terá caído no exagero e nas últimas décadas tornado quase uma instituição dar prioridade aos compositores com mais de 50 ou 100 anos. Claro que esses acabam por ser banalizados, porque o Beethoven, o Chopin ou o Mozart também têm os seus hits. Enfim, é um pouco especulativo, mas é uma ideia. Como mudar? É claro é preciso um esforço em várias frentes: compositores, professores de música (um papel importantíssimo para criar apetência junto de um público pré-sensibilizado, e como se sabe, a procura origina a oferta), meios de produção e meios de divulgação de massa.
Digamos que o post do PB é um bom princípio!

At Terça-feira, 03 Maio, 2005, César Viana said...
Atenção que o comentário do Steiner é de 77 e há diferenças assinaláveis em relação aos nossos dias, já em pleno século XXI. Uma talvez não de subestimar é o facto de a questão da erudição não ser assim tão evidente para mim. Onde está a erudição da 2345a versão de, por exemplo, o canon de Pachelbel, mal tocado e sem estilo, por uma qualquer orquestrazeca de ex-países socialistas? E quanto ao John Coltrane? É claro que isto distorce as referidas percentagens, já que há muito lixo descartável classificado como “erudito” e muitas obras primas por aí, perdidas num mar de música comercial, escapando assim à nossa “erudita” atenção. Quanto a culpas... claro quer não há culpas; a vida pura e simlesmente é, e a arte vai refletindo o que pode ou sabe. Mas é um bom assunto, sem dúvida, e é sempre estimulante discutir um texto do George Steiner.


At Quinta-feira, 05 Maio, 2005, samovar said...
O senhor Steiner opinava assim em 1977 em relação a que realidade? À mundial, à europeia, à do país dele? Gostava de saber.
De qualquer forma, o que me tocou nessa afirmação foi ela lembrar que nas outras artes a relação percentual é diferente. Acho até que invertida. E eu nunca tinha reparado nisso.
Concordando com o que diz César Viana aqui em cima, fico a matutar porque é que tal acontece na música dita erudita e não na literatura, na pintura, na escultura... e por aí fora.

At Sexta-feira, 06 Maio, 2005, César Viana said...
Caro sr. Samovar, em relação à escultura e pintura, penso que o facto de se poder comprar a obra de arte, devido à sua materialidade, ajuda a que a situação seja muito diferente, já que torna possível o chamado “investimento em arte”, independentemente de os bancos, companhias de seguros, etc. que compram as obras gostarem delas ou não. Acho que fará mais sentido contextualizar a música com outras artes do espectáculo do que com a literatura (já que esta não precisa de estruturas de produção tão complexas para chegar ao público). Aí, (dança, teatro...) a situação já não será tão flagrantemente diferente, mas não possuo dados objectivos que me permitam confirmá-lo.


At Sexta-feira, 06 Maio, 2005, samovar said...
Pois, César Viana, concordo consigo. Mas fiquei a pensar nos comentários do “revolucionário pós-modernista” aqui e no post do Satie. É que independentemente dos condicionalismos das obras musicais e do investimento na sua divulgação, há essa questão que não me parece nada de subestimar das atitudes estéticas dos compositores contemporâneos e do fosso em relação ao público.
O revolucionário sugeria a necessidade de novos “Wagners”... :))) Recusando a linha das “culpas” e não fazendo questão no rótulo das erudições, interrogo-me sobre a dimensão da relação compositor/público. Quanto à divulgação, o bailado, por exemplo, tem feito muito na divulgação da música contemporânea.

At Sábado, 07 Maio, 2005, César Viana said...
Mas a percentagem de dança contemporânea nos grandes palcos mundiais é absolutamente ínfima; com algumas (importantes) excepções, as produções que têm impacto significativo junto do grande público são as remakes dos grandes clássicos. Já experimentou ir ao “danças na cidade” ou outro festival do género e contar quantas pessoas lá estão? (repare que não há aqui qualquer juízo de valor, apenas a constatação de um facto). Além disso, a música contemporânea que, em geral, as produções coreográficas utilizam, é a que já tem uma maior aceitação junto do público (Reich, Glass,às vezes Berio ou Ligeti, na maior parte dos casos bandas sonoras com muito beat e pouca música). Muito raramente verá uma coreografia com música do Emanuel Nunes, Xenakis ou outros compositores igualmente afastados do grande público (Para já não falar do Peixinho, Stockhausen, etc); mesmo o jazz é utilizado muito, muito esporadicamente.
Pessoalmente, a única forma que conheço de respeito pelo público é fazer o melhor que sou capaz. Não simpatizo com a ideia de “simplificar” ou “tornar mais apelativo” ao povinho burro... Por respeito, vou o mais longe que conseguir, tendo por balizas os meus limites técnicos, as barreiras do meu talento, e o respeito pela minha verdade.

At Sábado, 07 Maio, 2005, samovar said...
E parabéns por fazê-lo assim! Isso é tudo (e é bastante) do que eu, como público, espero ouvir dos músicos. Fico-lhe reconhecida por ter respondido dessa forma à minha interrogação um pouco nebulosa. Não pretendo ser mais que uma ouvinte atenta e curiosa e as minhas interrogações aqui limitam-se a isso mesmo, para aprender convosco. Acho que ficou mais claro, para mim, que a questão mais importante - nestas percentagens em desfavor da adesão do público às manifestações culturais contemporâneas que assinalou - tem a ver com a formação do gosto por um lado e as políticas de investimento na divulgação por outro. São esses os temas quentes que os portugueses têm pela frente para debater, fazer e mudar. Quanto às escolhas dos “grandes” palcos mundiais, e do “grande” público não sei, não. Parece-me que o que interessa não é que seja “grande” mas que exista! Que as oportunidades de criadores e público disponível se realizem. Só lhe posso dar o meu feedback de quem está fora de Portugal há sete anos e se tem misturado, na Europa, com os mais variados públicos, nomeadamente de música e dança. O que eu constato é que a oferta é sempre maior que a minha procura (e eu procuro bastante). Que tudo mexe, dos grandes palcos aos grupos independentes, às produções caseiras ou underground. E claro, o público existe e bem diversificado. Sinto-me sempre uma sortuda por ter tantas oportunidades e lá penso nos amigos que deixei aí e que mereciam estar a tê-las também, (como o autor deste blog, eheh).
Por isso, aqui deixo os meus parabéns aos vossos “diários interactivos” e desejo-vos garra para navegar contra a maré dos “brandos costumes”. Que não quero continuar a pagar impostos pra subsídios... ;) P.S. Quanto ao Peixinho, ao Stockhausen... e ao afastamento do público... uiiii... isso dava um comment novo e muito longo :) Fica para outra altura, se se proporcionar :)

At Sábado, 07 Maio, 2005, sasfa said...
Não sei a que realidade se referia George Steiner, mas acho que essa questão nem sequer se põe no nosso país - aqui os compositores, vivos ou mortos, lutam ainda contra o I-V-I do Emanuel ( não Nunes) e seus compinchas!!! Antes de tudo, seria preciso que o público se alfabetizasse, musicalmente falando, mas penso que estamos a caminhar no sentido contrário, pois cada vez mais, em escolas do ensino especializado da música se tocam musicais da Broadway, ou temas dos Beatles e até da Dulce Pontes... Não me parece que o futuro público vá estar preparado nem para Mozart, quanto mais para Emanuel Nunes...

At Domingo, 08 Maio, 2005, pb said...
ouve-se mais “palminhas” do que “musiquinha”, mais musicais do que música a sério! - Foi a minha resposta a propósito do nível das audições infantis nas escolas de ensino especializado da música (EEM).
Porque é bom não esquecer que é nas apresentações musicais dos mais pequenos que se vê a desorientação (musical e pedagógica) de muitos professores do EEM, sendo que estes e os pequenos alunos representam o presente e o futuro do EEM em Portugal.
Assim não vamos lá!!!
Era necessário um 25 de Abril na música.

At Domingo, 08 Maio, 2005, sasfa said...
Nem tanto, bastava fechar algumas comportas de onde todos os anos brotam hordas de “músicos”!!!

At Quinta-feira, 12 Maio, 2005, Teresa said...
Algumas notas soltas e pouco correctas:
Os próprios músicos contribuíram para a criação de um cânone que, em grande parte, acabou sendo transformado no repertório. Falo do século XIX, claro, mas há coisas que se compreendem melhor olhando para as origens. O cânone, a invenção de uma tradição da música erudita (com Schumann a liderar) foi uma maneira de legitimar a própria composição, a própria música no “concerto das artes”.
Quando se fala de “música artística”, a situação era similar nas últimas décadas do século XIX, nos anos 10-20 (lembro-me das memórias do Gieseking, de quem se falou há pouco no Ópera e demais interesses, e das dificultades que encontrou quando tentou incluir música contemporânea nos seus concertos depois da Primeira Guerra Mundial), nos anos 50... Seria interessante verificar se há alguma recorrência nisto que possa ser cruzada com as linguagens. E, ainda, isto acontece sempre que o compositor não se empenha na divulgação das suas próprias obras (comparem-se, como exemplo, os casos de Franck e de Brahms, vejam os casos de Mahler e de Strausss, ou de Britten, com o seu festival...). Outro caso interessante é o de Massenet, cujo impacto foi enorme em grande parte devido ao seu particular charme com as damas... Bom, e, também, quando a composição deixa de ser um veículo para o nacionalismo ou para a representação de qualquer outro tipo de poder. Vejam o caso, bem sucedido, de Stravinsky, que foi capaz de inventar também a sua “pertinência” em termos sociais.
Isto merecia um post inteiro, ou mehor, vários artigos, porque há outros muitos factores a ter em conta: a “geografia cultural” - a que já se fez referência -, a história, o estatuto da própria música erudita, o papel dos intérpretes como mediadores, quais são as diferenças conforme os géneros ou formatos instrumentais...
Para já não falar da responsabilidade que os próprios compositores têm de procurar o seu lugar sob o sol.
Finalmente (sem termos agora a preocupação de verificar a veracidade da percentagem nos nossos dias), para forçar o pensamento, deveriamos tentar descobrir primeiro nas razões pelas quais a situação deveria ser a inversa. A quem beneficiaria? (e não me parece aceitável usar como argumento o bem da humanidade ou variantes deste).
De facto, começa a estar bastante generalizada, entre os compositores e os apreciadores da música contemporânea, a ideia de que fazem parte de uma subcultura e de que isso não é problema nenhum. Inclusive, pelos vistos, em termos de mercado esses “nichos”, no século XXI, estão a ganhar uma importância crescente.
Prossigamos...

At Quinta-feira, 12 Maio, 2005, Teresa said...
Só mais uma coisita, relativa aos coreógrafo/as e bailarino/as: César, tu conheces bem o meio, sabes se há muitos que saibam ler uma partitura ou que distingam as execuções gravadas da mesma obra entre si? Tenho a suspeita (e aceito que possa estar a ser muito injusta: digamos que é uma pergunta em forma de palpite) de que, uma quantidade significativa de vezes, nos espectáculos de dança, a música é usada mais como fundo do que como elemento integrado no espectáculo.
Façamos mais percentagens...

At Quinta-feira, 12 Maio, 2005, César Viana said...
Na maior parte dos espectáculos de dança (com algumas, apesar de tudo bastantes, excepções)a música tem uma ou as duas de duas funções: ou é um relógio obcessivo que martela os tempos implacavelmente para que os bailarinos saibam a coreografia, ou é um cenário sonoro, surgindo então a música “de ambientes”. Quanto a saber ler uma partitura, depende dos países; em Portugal até vão sabendo, mas não me parece, infelizmente, que esse seja um factor decisivo. Já fizeste algum inquérito para saber que música os membros da generalidade das orquestras ouvem maioritariamente? Sabes qual a altura do ano em que a maior parte dos músicos da Gulbenkian metiam baixa? Durante os Encontros de Música Contemporânea, que “fecharam” entretanto. Penso que nos habituámos ao longo da história da música a uma situação em que a arte era disfrutada por uma elite infimamente minoritária. Com a progressiva democratização seria inevitável algum tipo de divórcio com a generalidade do público, que não dominará os códigos, mas provavelmente nem estará interessado em dominá-los; e porque haveria de o fazer? E essa democratização ainda só chegou ao 1o mundo, imaginem quando chegar (se chegar...) aos 2o e 3o...

Por outro lado, esta mesma democratização fez surgir nas culturas ditas “populares” nichos de excelência verdadeiramente incontornáveis, mas vamos tendendo para catalogar entre “clássico/não clássico”, Jazz/não Jazz, Pop/não pop e isso, evidentemente, contribui para uma progressiva “ghettização” de expressões minoritárias, o que poderia não ser um problema, mas que se passará quando economicamente não for já viável manter as grandes orquestras e companhias de ópera? Não considero de todo como um dado adquirido que as gerações dos meus filhos e netos possam continuar a ouvir Beethoven ou Bartok sem ser em suporte digital. Dificilmente nichos insignificantes numericamente poderão por muito tempo continuar a justificar organismos pesados e altamente deficitários como são as companhias de ópera e orquestras, suportadas pelo dinheiro dos impostos de todos, sendo que a meioria se está borrifando para o assunto. Não estou a criticar; estou a constatar um facto que nos deveria alarmar e fazer reflectir.

At Segunda-feira, 16 Maio, 2005, t. said...
Este debate, ao qual já cheguei tarde, é interessantíssimo.
Vocês já disseram tudo, mas vou só acrescentar umas coisitas:
A música...aquela que é por excelência a arte mais abstracta - anda a ser enxovalhada Toda a gente ouve música. Toda a gente opina sobre música, mas que tipo de “discursos” estão as pessoas habituadas a ouvir e a opinar sobre? Estarão as pessoas “treinadas” para ouvir música erudita? Música improvisada?
Não estão.
Não sabem ouvir, acham uma seca.
De todas as pessoas com quem me cruzo no meio das artes, são os músicos e os cantores aqueles que melhor entendem de que é que nós estamos aqui a falar, mesmo no meio do teatro e no da dança nem actores nem bailarinos OUVEM realmente a música enquanto discurso mental. ( Há excepções, claro mas por o serem, fogem à regra)
Eu estudei música muitos anos, tive a sorte inclusivé de ter o Fernando Lopes Graça como professor, o meu pai era um amante de ópera e ouvia-se muita música clássica lá em casa, tive sorte, tive muita sorte. Mas agora, hoje, nas escolas, o ensino da música é muito infeliz. O meu filho mais pequeno( 4 anos) quando chega às aulas de manhã, tem sempre música na sala de aula - o Batatoon - no outro dia perguntei à professora se não seria mais agradável estarem a ouvir Mozart ( desculpem mas eu acho-o muito divertido e “infantil”) respondeu-me que os miúdos não iriam gostar. O mais velho ( 11 anos )está no Conservatório de dança de lisboa e num ano lectivo, aprendeu a tocar e a cantar vários hit’s da Broadway e agora dos Beatles ( um castigo para mim porque nunca gostei dos beatles) As orquestras, andam a acabar com elas.
Os apoios para a música são escassos.
( No IPAE os subsídios de apoio à música são bastante reduzidos e normalmente são vinculados para Festivais)
Haveria que reeducar as pessoas.
Espalhar novamente a ideia da Arte como prazer sublime da alma.
Mas quê?
Emanuel Nunes????
Quem sabe quem é?
Mas o Castelo Branco toda a gente conhece.
É triste. Mas estamos a viver num país Triste.
Ou não?
Ah.. a título de curiosidade digo-vos que no Teatro, se usa muito a música como “música de fundo” ( como eu detesto esta definição) e nunca como voz activa na narrativa, resultado: nunca se percebe o porquê da sua escolha. São raros os encenadores que têm cultura musical.
o que me dói dizer isto-
Um abraço
Belo blogue.

At Segunda-feira, 16 Maio, 2005, pb said...
Olá T.!
Nunca é de mais um comentário porque afinal este assunto nem sequer tem uma resolução à vista. São questões de fundo que ultrapassam os limites dos nichos culturarais portugueses. É, em Portugal, e antes de qualquer outra coisa, a fundamental e pouco visível educação, e só depois a cultura. Obrigado pelo elogio ao blogue.

At Terça-feira, 17 Maio, 2005, sasfa said...
Concordo 100% com T. Não se podem construir as casas pelo telhado... O problema, não só na música, mas em tudo, é a falta de educação... Os nossos alunos, os professores, os pais e as direcções das escolas não querem profundidade, rigôr, nem sequer honestidade, querem superficialidade, resultados rápidos e bem maquilhados, um sucesso bacoco para inglês ver! A discussão das “quotas” da música contemporânea não fará muito sentido neste contexto!!

de conhecimento obrigatório (5)

wakajawaka.gif
Frank Zappa, Waka/Jawaka
Julho de 1972
4 Comments:
At Terça-feira, 03 Maio, 2005, Luís aquino said...
Por que é nunca se fica indiferente às capas dos discos do Zappa? Outra coisa: só ainda vi duas citações, mas parece que foi boa ideia a de colocar o Citador aqui no blog.

At Terça-feira, 03 Maio, 2005, pb said...
Confesso, na verdade “roubei” a ideia do Citador do um blogue que leio assiduamente - “Decompor”.


At Terça-feira, 03 Maio, 2005, luís aquino said...
“Roubar” boas ideias não é pecado. Pecado é não as saber usar.
(Epa! será que o Citador aceitava esta frase?...)

At Terça-feira, 03 Maio, 2005, pb said...
Claro que aceita!
Vai lá e propõe!
Ena...