domingo, 10 de julho de 2005

Férias (3)


Torreira
1 Comments:
At Segunda-feira, 11 Julho, 2005, Rogério Matos said...
Torreira?? Furadouro??? Hum, que saudades... cheira-me também ao Torrão do Lameiro onde tenho metade das costelas!!

Férias (2)


Paris

Férias (1)

O “encerramento” do Bajja e outras coisas, é claro, quer eu queira ou não, provocaram algum esmorecimento no ritmo “postante”.
Para além disso também sinto que precisava de férias...
burgau.jpg
Burgau, Lagos
2 Comments:
At Domingo, 10 Julho, 2005, dgp said...
Boas férias. Ainda bem que são só férias, isto dos blogs cria alguma dependência afectiva.

At Domingo, 10 Julho, 2005, pb said...

É verdade, o caso do Bajja é significativo... Mas ainda não estou de férias, embora a vontade seja muita e eu esteja realmente necessitado.

segunda-feira, 4 de julho de 2005

Philip Guston (2)


Philip Guston, Friend - To M.F., 1978
2 Comments:
At Terça-feira, 05 Julho, 2005, Anonymous said...
Agradeço o regresso. Sofia.

At Terça-feira, 05 Julho, 2005, pb said...
Ora essa! Não há nada a agradecer.

Bajja

Vou voltar aqui sempre!
Fico a pensar que a blogosfera tem coisas para as quais não estamos preparados.
Esta é uma delas.
A sensação de uma perda muito grande...

domingo, 3 de julho de 2005

E depois de uma grande pausa

É, parece que este blogue entrou em pausa... mas um dia destes volto em força!
Até lá.
9 Comments:
At Segunda-feira, 04 Julho, 2005, Anonymous said...
Não demores,a saudade é tónica dominante.Sofia.

At Segunda-feira, 04 Julho, 2005, nívea samovar said...
Até que enfim...
Pensava que nunca mais ias conseguir sentar-te no teu escritório!
Então até mais logo no meu país.
:-)

At Segunda-feira, 04 Julho, 2005, Carlos a.a. said...
A gente aguarda.

At Segunda-feira, 04 Julho, 2005, CHICOZÉ said...
AVÉ MARIA.

At Segunda-feira, 04 Julho, 2005, IO said...
Isto das férias deu forte nos blogs de música... abraço, outra à espera.

At Segunda-feira, 04 Julho, 2005, pb said...
Obrigado a todos pelos comentários!

At Terça-feira, 05 Julho, 2005, il dissoluto punito said...
Bom regresso !
Não parta, de vez, como outros :(

At Sexta-feira, 29 Julho, 2005, Anonymous said...
esperamos que a pausa não seja mt grande claro *** e isto não é graxa senhor professor :)lol* ou melhor, o mestre paulinho... tania gulb.

At Sexta-feira, 29 Julho, 2005, pb said...
Pois, pois... mas férias são férias, por isso também a actividade bloguista vai parando!

domingo, 19 de junho de 2005

époque horrible

(Messiaen sobre Boulez...)

Je savais que c’était une personnalité dévorante. Je l’ai deviné dès le premier instant. Je me souviens du jour où nous revenions ensemble vers la rue Beautreillis où il habitait. “Quelle époque! Me disait-il, quelle époque! Quel sera le grand musicien qui va assainir cette époque horrible?” Et je lui ai répondu: “Mais, Boulez, ce sera vous!

Claude Samuel, Permanences d’Olivier Messiaen, 1999
3 Comments:
At Terça-feira, 21 Junho, 2005, hfm said...
Gostei do comentário. Gosto muito de Boulez e tenho saudades de Berio.

At Quarta-feira, 29 Junho, 2005, Carlos a.a. said...
Não conhecia o texto. Boa premonição, a de Messian.

At Quarta-feira, 29 Junho, 2005, impressaodigital said...
:) gostei. e é francês...

Philip Guston (1)


Philip Guston, Book, 1968
2 Comments:
At Domingo, 19 Junho, 2005, Luís Aquino said...
Ora aqui está um autor que não teve problemas em mudar de estilo ou corrente artística: do abstraccionismo para o figurativismo, quando a moda era fazer a mudança no sentido inverso. Provavelmente, porque, para Guston, haver correntes e estilos é só para quem se dedica a inventar etiquetas, que servem de muleta para falar de arte. (que tal, foi profundo?...)

At Segunda-feira, 04 Julho, 2005, pb said...
Poça! Eu realmente de arte pouco ou nada percebo... Quando faço posts com obras de pintores é sempre pela maior ou menor proximidade que há entre estes e a música e se gosto ou não do que vejo. No caso específico de Philip Guston a relação de proximidade é com Morton Feldman. Este compositor tem aliás sido alvo de muitas ligações pictóricas aqui no blogue. Basta lembrar também Francesco Clemente e Mark Rothko.

Language of emotions

Music is often characterized as the language of emotions. Ironically, the vast majority of experiment al studies has been devoted to the study of musical structure as a non-verbal language, rarely as an emotional language. Part of this situation can be attributed to the widely held belief that emotional interpretation of music is a highly personal and variable experience, hence escaping scientific examination. A fortiori, emotional interpretation of music is not conceived as the product of a neuro-anatomical arrangement that can be shared by most members of a given musical culture.

Isabelle Peretz, Lise Gagnon, Bernard Bouchard, Music and emotion: perceptual
determinants, immediacy and isolation after brain damage, 1998
1 Comments:
At Domingo, 19 Junho, 2005, Analepse said...
Se é verdade que há poucos estudos sobre a interpretação emocional da música, é pena. Precisamente por ser uma linguagem não verbal é que é mais difícil separá-la da sua parte não emotiva, ou digamos discursiva(?). Mas é compreensível que haja essa resistência. Talvez por ser tão óbvio que a música transmita emoções, que quem faz a sua análise queira distanciar-se o mais possível dessa componente, com o receio que esta entorpeça aquela. Como digo, é pena, mas é tudo uma questão de haver iniciativas no sentido de contrabalançar essa falta de abordagens. Alô, compositores e analistas?...

terça-feira, 14 de junho de 2005

de conhecimento obrigatório (10)

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György Ligeti Edition 3: Works for Piano (Etudes, Musica Ricercata)
Pierre-Laurent Aimard, Piano
10 Comments:
At Quarta-feira, 15 Junho, 2005, Paulo Mesquita said...
Parece que o comentário a Feldman (referência à 1a peça da Musica ricercata) o inspirou para este post. A propósito da ricercata, quando fui à estreia do filme do Stanley K., protagonizado por Nicole e o marido da altura Tom Cruise, fiquei estarrecido quando ouvi partes desta obra de Ligeti. O enquadramento não podia ter sido melhor. Precisamente a musica ricercata é, das obra de ligeti, a que mais toquei e toco. É das coisas que mais gozo dá a tocar. Acreditem. Quanto ao cd, a música é do melhor que há. Por vezes penso que Ligeti queria era ser músico de jazz, dado haver, em muitos momentos algo de third Stream. Uma palavra para o intérprete, como não podia deixar de ser: fantástico.

At Quarta-feira, 15 Junho, 2005, paulo mesquita said...

Correcção O comentário de que falo, no primeiro parágrafo, referenta “a Feldman”, deve ler-se “à Ionisation”. As minhas desculpas

At Quarta-feira, 15 Junho, 2005, pb said...
A série de posts “de conhecimento obrigatório” está preparada há muito tempo. O teu post só me relembrou deste grande disco que já tinha em lista de espera.

At Sábado, 18 Junho, 2005, César Viana said...
Estou a pensar ir esta semana ao Porto fazer a minha estreia da Casa da Música, indo ouvir o Quodlibet. Vai estar por lá?

At Sábado, 18 Junho, 2005, nívea samovar said...

César, eu respondo por ele porque se aqui não veio... (baixinho e para que ninguém ouça ou descodifique: ele está para ser progenitor a qualquer momento) P.S. Depois apagas isto Paulo, não fiques chateado :-)

At Domingo, 19 Junho, 2005, pb said...
Nívea Samovar, Samovar!!! Muito bem, agora o que está escrito está escrito e como não costumo apagar comentários... De qualquer forma já respondi a César Viana, mas pelo seu email directo, e não por aqui, não vá eu desgraçar-me ainda mais! :-)

At Domingo, 19 Junho, 2005, César Viana said...
Peço desculpa por esta invasão do vosso quotidiano familiar; acreditem que foi involuntária. Não vos sabia juntos. Ficará para uma altura mais propícia o nosso encontro, realmente há coisas que se sobrepõem a tudo. (e parabéns; não sei se é o primeiro que têm, mas é uma altura maravilhosa nas nossas vidas; os meus já são grandes - fazem blogues e tudo...- mas recordo as alturas dos seus nascimentos com uma alegre saudade que se renova dia-a-dia ao vê-los ser uns homens)

At Domingo, 19 Junho, 2005, nívea samovar said...
Ahahahahahahahahah Ó César... mas que mal entendido eu fui provocar :-)))))) Não sou eu! Eu estou aqui quietinha em Genève e o nosso amigo com sua esposa no Porto! (ai que já me fizeram rir tanto aqui com estas conversas malucas) Vocês são todos uns queridos. Agora quem vos convidava era eu para virem comigo à Festa da Música que dura nesta cidade há 3 dias consecutivos, noite e dia. Um S. João de música ao vivo e grátis por imensos espaços da cidade, de todos os géneros e para todos os gostos. Ontem, o Grand Théâtre de Genève e o Victoria Hall estavam a abarrotar de humanos de todas as idades. No fim dos concertos, os músicos misturam-se ao público e é uma animação de conversa. Tiram os laços e vêm refrescar-se com tubas, oboés, fagotes e flautas para o meio da rua. As estátuas seriíssimas dos grandes Reformadores estavam espartilhadas por um imenso palco para o rock! (O Calvino, sobretudo, devia estar a roer-se furibundamente, de tanto deboche). O Jazz espraiava-se pelos jardins onde uma multidão se deleitava nos relvados, deitando-se em enormes ursos de pelouche que a Câmara deposita na natureza para os cidadãos (ninguém rouba nada, não...). Nos espaços de etnologia musical, para além de um grupo do Burundi, ia actuar um rancho folclórico da “Casa do Benfica”! (Lamento mas aí pirei-me...). Enfim, vou-me embora para a última noite. Tá muuuuito calor... 31 graus. Saudades para esse país à beira mar plantado :-)

At Domingo, 19 Junho, 2005, pb said...
Hehe! Caro César Viana, eu já lhe respondi ontem por email para cesar.viana@oninet.pt, onde referi mais pormenores desta saga, a de ser pai para breve! Um abraço. :-)

At Domingo, 19 Junho, 2005, César Viana said...
Não digo mais nada...

Ária de Bach redescoberta

A propósito de obras musicais esquecidas e/ou perdidas no tempo, vale a pena ler este artigo.

domingo, 12 de junho de 2005

Glosa e Fanfarra sobre uma Fantasia de António Carreira

Glosa e Fanfarra sobre uma Fantasia de António Carreira é uma das obras mais significativas da produção de Álvaro Salazar, que descobriu António Carreira ainda nos anos 50, depois da edição holandesa de Macario Santiago Kastner, ficando na altura maravilhado com a elevada qualidade musical deste compositor do século XVI, e verificando mesmo que tudo o que António Carreira havia escrito era do melhor que se fazia nessa época e estava a par de toda a restante música europeia.
Esta obra para grande orquestra (piccolo, flautas 1 e 2, oboés 1 e 2, corne inglês, clarinetes em sib 1 e 2, clarinete baixo, fagotes 1 e 2, contrafagote, trompas em fá 1, 2, 3 e 4, trompetes em dó 1, 2 e 3, trombones 1, 2 e 3, tuba, grupos de percussão 1, 2, 3 e 4, harpa, piano/celesta, violinos I, violinos II, violas, violoncelos e contrabaixos) foi criada em 1975 e revista em 1999. Durante muitos anos a inviabilidade da realização desta obra em Portugal foi um facto incontornável, realçado pela grande crise que as orquestras portuguesas passavam nessa altura. Não só a obra era manifestamente difícil, como exigia um efectivo instrumental, nomeadamente na percussão, inexistente nessa altura nas orquestras portuguesas. Foi tocada pela primeira vez em 2001 numa versão parcial (apenas a Glosa) no Festival de Bachau, na Roménia. A sua primeira apresentação mundial completa deu-se em 3 de Abril de 2002 pela Orquestra Sinfónica de Madrid, na cidade do mesmo nome, sob a direcção de José Ramón Encinar, sendo de salientar que esta primeira versão completa obteve uma óptima reacção da critica e do público. A segunda, e mais recente interpretação desta obra, realizou-se em 27 e 28 de Março de 2003, em Lisboa, pela Orquestra da Fundação Calouste Gulbenkian sob a direcção de Lawrence Foster. A sua interpretação tem sido sempre precedida pela audição de uma transcrição para metais (duas trompetes em dó e três trombones) da Fantasia de António Carreira. Esta é, aliás, uma, entre outras, das obras de António Carreira transcritas por Álvaro Salazar.
Glosa e Fanfarra sobre uma Fantasia de António Carreira representa, na produção musical portuguesa da época, um importante avanço em termos estéticos e técnicos. Formalmente é uma obra livre que vai evoluindo progressivamente de elementos musicais concretos até ao aleatorismo total.
Podemos encontrar nela grande parte dos “sinais” das correntes da sua época:
da vanguarda ao pós-modernismo no que se refere a questões estilísticas, passando pela escrita indeterminista e o seu coabitar natural com a determinista, até ao uso assumido e de forma subtil da citação.
4 Comments:
At Segunda-feira, 13 Junho, 2005, Analepse said...
Se bem percebi, foi preciso que orquestras estrangeiras (uma na Roménia, outra em Espanha)olhassem primeiro para esta obra portuguesa, para que só depois os portugueses percebessem que valia a pena começarem a fazer o mesmo...

At Segunda-feira, 13 Junho, 2005, César Viana said...
Foi exactamente assim; e já agora, se me permitem, também vale muito, muito a pena conhecer a música do António Carreira, embora não seja fácil encontrá-la...

At Quarta-feira, 15 Junho, 2005, Paulo Cardoso Mesquita said...
Admito que nunca ouvi a obra em questão, embora saiba da sua existência. Depois de um post destes, e dado tratar-se de uma peça de quem é, vou tentar suprir esta lacuna.
Só espero é que o Prof. Álvaro Salazar, caso seja frequentador deste blog, me perdoe esta falha.
É um daqueles inconvenientes de estarmos devidamente identificados.

At Quarta-feira, 15 Junho, 2005, pb said...
Álvaro Salazar, frequentador de blogues???
Tu não deves estar bem...

Exuberância

Arte e pensamento
Em 1992, Emmanuel Nunes afirmou numa entrevista:

“Quando observamos substâncias orgânicas ao microscópio, e também os astros do sistema solar, somos atingidos pela exuberância que reina em toda a parte. O júbilo está inscrito na Natureza. E quando um intérprete é grande, mesmo ao tocar pela milésima vez uma obra que sabe de cor, acrescenta-lhe a exuberância da sua vida interior. A exuberância, cuja presença se revela nalgumas das minhas obras, nomeadamente em ‘Grund’, não surge como o resultado de uma vontade. Inscreve-se na própria realidade do fenómeno musical. Poderá de resto uma obra de arte ser apenas fruto do pensamento? Se pretendermos que assim seja, ou ouvimos mal, ou a obra foi mal pensada”.
5 Comments:
At Domingo, 12 Junho, 2005, pb said...
Confesso que fiquei surpreendido com este texto de Emanuel Nunes. É que relacionei sempre a sua obra com o domínio do arquitectónico, do pensamento e da razão e não tanto com o júbilo que escapa à força do criador. Acho estas frases de Emanuel Nunes um verdadeiro assombro, fantásticas mesmo...

At Domingo, 12 Junho, 2005, César Viana said...
Deveria contactar pessoalmente com o Emmanuel Nunes. Ele costuma dar uns cursos na Gulbenkian várias vezes por ano e é um homem brilhante e apaixonante, embora, por vezes, difícil.
A surpresa poderá vir do facto de, por vezes (e não digo que seja o seu caso), associarmos o júbilo ou outras manifestações expressivas a certos tipos de música e não a outros. Penso que a partir do momento em que a técnica de composição esteja razoavelmente dominada há sempre lugar para estes tipos de expressividade ou outros, independentemente do tipo de música. O problema é quando o compositor é escravo da técnica por não a dominar. Aí não há pura e simplesmente “júbilo” ou , se houver, vem de receitas e clichés. Há também o caso, possivelmente o do E.N., de a linguagem da obra apresentar certo tipo de dificuldade que faz com que só ao fim de um tempo é que possamos descortinar o seu potencial expressivo.
Os seus posts revelam um grande sentido de oportunidade e pertinência já que, quase sempre, suscitam interrogações e vontade de “charlar”. É, sem dúvida, um dos meus poisos favoritos na blogosfera.

At Domingo, 12 Junho, 2005, Horácio said...
Gostei muito pb. A música como o cantar dessa desmesura que transborda, o júbilo inscrito na natureza, a natura. E uma fenomenologia da música onde o pensar, o entendimento não está nas antípodas da sensibilidadea, da estética. Como diz Emanuel: “Se pretendermos que assim seja, ou ouvimos mal, ou a obra foi mal pensada”.
um braço
Horácio

At Domingo, 12 Junho, 2005, pb said...
Cheguei a passar por um dos cursos do Emanuel Nunes aqui há uns anos e foi também dessa altura que a impressão, manifestada no comentário acima, me ficou. Nunca me esqueço o terror que Nunes manifestava ao ver oitavas escritas! Herança (pesada) pós dos pós-serialismos... Mas ouvi, ouvi muito, e gostei sempre das suas obras, passei mesmo dias da minha vida a ouvi-lo. Lembro-me particularmente de uma Edição dos Encontros de Música Contemporânea da Gulbenkian (compositores ibéricos, salvo erro, para aí em 96 ou 97) quase exclusivamente dedicada a Emanuel Nunes, em que ouvi desde as suas (longas) obras para instrumento solo até às estreias das grandes obras orquestrais. Nessa altura ouvia e vasculhava tudo que dissesse respeito à composição, não perdia nenhum espectáculo dos Encontros, aliás mudava-me de armas e bagagens para Lisboa, ai conheci também Jorge Peixinho, a quem ainda hoje ninguém fez justiça, com quem partilhei interessantes conversas em longos jantares e almoços (também com Álvaro Salazar e António Sousa Dias).
Bem, já me estou a esticar, como é hábito dizer-se... Assim sendo, vou ter que publicar um dia destes algo sobre Jorge Peixinho, compositor que tanto escreveu, sempre, sem parar, até ao fim...

At Terça-feira, 14 Junho, 2005, paulo mesquita said...
A propósito de Emanuel Nunes, e tendo em conta os seus condicionalismos físicos, alguém me dizia que a escrita para piano de Nunes parecia que tinham saído directamente do piano (da forma da mão, portanto de um pianista), tal a sua qualidade em termos de pianismo.

sábado, 11 de junho de 2005

Século do avião, o século passado...

Não será nosso dever encontrar meios sinfónicos de expressar o nosso tempo, meios que evoquem o progresso, o arrojo e as vitórias dos dias modernos? O século do avião merece a sua própria música!

Claude Debussy, 1913
4 Comments:
At Domingo, 12 Junho, 2005, sasfa said...
A frase de Debussy remete-me imediatamente para uma questão que não é a que se pretende, mas que está indirectamente relacionada - a questão das interpretações “à época”, muito em voga por causa da crescente força (justíssima) da música antiga...
Como é que nós, que conhecemos o avião e a nave espacial, e que temos por isso um conceito obviamente diferente de espaço, tempo, velocidade, etc, podemos procurar tocar a mundividência de um Bach, cujo conceito de velocidade se esgotava provavelmente num cavalo a galope?

At Domingo, 12 Junho, 2005, César Viana said...
Acho que a sua questão está mesmo directamente relacionada. É um excelente comentário. Toda a música é igualmente contemporânea, mesmo a do Bach (pelo menos a do Bach que ouvimos, com mais tripa ou mais aço...). Se calhar é a mundividência do Bach que nos toca a nós e não o contrário. Temos conceitos de espaço, tempo etc. diferentes, mas também, e isso é muito importante, um universo sonoro completamente diferente. (e já agora uma “música de Bach” completamente diferente, seguramente, da do tempo de Bach.

At Terça-feira, 14 Junho, 2005, Paulo mesquita said...
Eu gostava que muita gente, até com alguma importância na música - e alguns de nós sabem quem são, que afirma que a música contemporânea acaba em Debussy, desse uma olhadela a esse escrito. Respondendo directamente, temos o quarteto dos helis.
Tergiversando, temos a Concord Sonata do Ives. Quanto à comentação de Sasfa, tremendamente azada, merecedora, porventura de uma mais aturada atenção, mas que, de momento, não vai ser possível, devia ser digna de um Post.

At Terça-feira, 14 Junho, 2005, a mulher electrica said...
Penso que a afirmação de sasfa é realmente pertinente e merece atenção. Quanto a existirem pessoas importantes a pensarem que a música termina em Debussy, já não possso concordar.
Onde estão elas? Em que meios são assim importantes? No pequenino meio musical dos chás das cinco do Porto e Lisboa? Valha-me Deus!!
Que raio de importância essa!
As pessoas que realmente provam o seu valor e são verdadeiros musicos não pensam assim.
Esses que refere já ninguem intelegente os ouve.

Ionisation

Ionisation foi composta entre 1929 e 1931 e é possivelmente a obra mais característica de Edgar Varèse por ser, e antes de mais, a sua única composição exclusivamente feita para instrumentos de percussão. O uso de vários instrumentos de altura indefinida, de sirens, do piano descontextualizado semanticamente, e ainda outros aspectos, fazem desta obra um importante avanço no radicalismo da linguagem musical de Varèse. É mesmo a primeira obra de música pura para percussão solo nascida no meio musical do ocidente. A integração de sonoridades urbanas num contexto composicional tinha que ser uma realidade e era absolutamente necessária. Varèse não pretendia o uso de sonoridades (ruídos) urbanas descontextualizadas de um pensamento musical organizado como era o caso das obras resultantes do movimento futurista italiano, obras estas que conhecera depois da primeira guerra em Paris. Algumas das técnicas e a própria instrumentação da obra, para além de um grito de revolta futurista, eram, sim, um passo importante para uma nova música que não seria possível com instrumentos das famílias tradicionais – madeiras, metais e cordas (...). Em Ionisation Varèse não altera nada daquilo que eram os seus traços essenciais de escrita. A sua preferência por temas que insistiam e polarizavam uma nota – neste caso não é uma altura mas uma ideia rítmica - até ao seu limite (como o da flauta em sol em Amériques), campos dinâmicos verdadeiramente contrastantes, grande diferenciação tímbrica, ritmos complexos totalmente independentes, libertação do sistema temperado. Tudo isto, não era, afinal, o que Varèse sonhava para uma nova forma de organizar o som? Uma nova forma de orquestração era neste contexto instrumental um dado inevitável. Como orquestrar com um efectivo instrumental tão invulgar? Tinha aqui o terreno ideal para dar resposta a esta pergunta, numa obra feita quase exclusivamente para instrumentos de percussão de altura indefinida. Em suma, esta obra foi exemplo marcante de uma nova música, sendo ainda hoje, uma das peças mais tocadas e um marco importantíssimo no repertório de ensembles de percussão.
4 Comments:
At Sábado, 11 Junho, 2005, César Viana said...
Um post muito interessante. Também acho que esta obra tem uma enorme importância pelo facto de pura e simplesmente recusar os que, até então, tinham sido os pilares da música ocidental: melodia e harmonia. Como era possível estruturar uma obra sem temas, sem tónica e dominante, sem... sem?


At Sábado, 11 Junho, 2005, pb said...
É verdade!
Tenho uma admiração especial por Varèse pela forma como se deteve persistentemente sobre aquilo em que acreditava. Foi pena que só nos últimos tempos da sua vida, quando já merecia um justificado repouso, lhe tenham reconhecido o génio e mérito...
(este excerto de texto é parte de um trabalho académico que realizei há uns anos).

At Terça-feira, 14 Junho, 2005, Paulo mesquita said...
Sem dúvida um post de difícil comentário, pois já está lá quase tudo em relação à Ionisation.
Resta-me pois dizer Bravo.
Quando, em análogo contexto académico, estudei essa obra confesso que, em casa, me divertia, um pouco à laia da primeira peça da Musica Ricercata de Ligeti(sempre na nota lá, ora oitavada, ora alternada, com cadência final a ré ), a tentar transpôr para o piano a ionisation.
Claro está que tive de «quitar» o piano com umas partituras e uns cd's dentro das cordas, de modo a a conseguir a diferenciação tímbrica desejada, e o resultado até nem foi mau. Em certas partes acabou por resultar bem. Mais unma vez os parabéns pela forma como apresentaste a análise deste assombro de obra.

At Terça-feira, 14 Junho, 2005, pb said...
Obrigado a todos os comentários.
Paulo Mesquita, neste texto, como dizes, não está lá quase tudo porque lhe falta o essencial, a análise, embora, claro, não seja este o “sítio” ideal para tais apresentações. Aliás neste espaço tento sempre, com alguma dificuldade, não ser muito técnico, faço um esforço por isso pelo menos...

Música

“A vingt ans, j’ai découvert une définition de la musique qui éclaira soudain mes tâtonnements vers une musique que je sentais possible. C’est celle de Hoene Wronski, physicien, chimiste, musicologue et philosophe de la première moitié du XIXe siècle. Wronski a défini la musique comme étant «la corporification de l’intelligence qui est dans les sons». Je trouvais là pour la première fois une conception de la musique parfaitement intelligible, à la fois nouvelle et stimulante. Grâce à elle, sans doute, je commençai à concevoir la musique comme étant spatiale, comme de mouvants corps sonores dans l’espace, conception que je développai graduellement et fis mienne.”

Edgar Varèse
2 Comments:
At Domingo, 12 Junho, 2005, Anonymous said...
Em primeiro lugar parabéns pelo blog. Tenho vindo cá várias vezes e sempre com interesse.
E já agora, música como uma arte do tempo ou espaço/tempo? Tudo aponta para que desde o início do século XX vários compositores como Varèse orientassem a evolução estética/musical, no sentido de incluirem o “espaço” (até então dominado pelas artes plásticas) como um elemento a ter em conta na obra musical. Sendo isto efectivamente mais claro com Stockhausen e a moment-form aliada a um novo conceito de tempo musical - o momento fixo no tempo e consequentemente no espaço. Curiosamente acontece o mesmo com as artes plàsticas em relação ao tempo - Calder e as esculturas móveis e mais tarde a pintura de Pollock. Para terminar onde posso encontrar a citação de Varèse?

At Domingo, 12 Junho, 2005, pb said...
Caro(a) Anónimo(a):
Obrigado pelo elogio ao blog.
A citação é do livro “Varèse” de Odile Vivier, da Seuil, 1973:15. Usei esta citação como forma de iniciar um trabalho académico - “Dinâmica e Orquestração em Amériques e Ionisation”) – que realizei há uns anos. Em relação à questão de espaço e espacialização da arte musical é assunto, com certeza, para um post a publicar com mais calma. Basta pensarmos que espacialização é um conceito com aplicação bem diferente em Varèse, depois em Xenakis nas suas obras em permanente movimento através das rotações, espirais e afins, em Stockhausen, com a sua sala de concerto ideal e outras “visões” místicas decorrentes dos seus sonhos, em Nono com o monumental “Prometeu” (a que tive a sorte de assistir duas vezes), com Ligeti, as massas sonoras de “Atmosphère”, ou com Nunes no “Quodlibet”. Isto claro, para não falarmos do caso particular da música electrónica, que aí, e nessa sim, a espacialização é um dado inerente à própria criação da obra.

sexta-feira, 10 de junho de 2005

por acumulação

Poça!
Tanto post de repente, e tudo por atacado, que gana!
(bem, vou ver outro écran...)
1 Comments:
At Terça-feira, 14 Junho, 2005, paulo mesquita said...
Espero que esse título não seja uma referência velada a qualquer coisa que tenha que ver com , Em Si, No (muito pouco) especializado «mundo» da música, mormente certo tipo de acumulações ...

retrato (5)

mfkitaj.jpg
Morton Feldman por R.B. Kitaj, 1967

Ensino "muito pouco" Especializado da Música (3)

Nesta terceira vez do "muito pouco" vou remeter tudo e todos para aqui!

Francesco Clemente (3)


Francesco Clemente, Self Portrait (Yellow), oil on canvas (1999)