Perante a grande intelectualidade e fino gosto estético por que estou cercado, devo redimir-me, quiçá penitenciar-me, e com os meus pobres e desafinados ouvidinhos, nada mais fazer do que colocar por aqui alguma música pimba francesa!
domingo, 10 de fevereiro de 2013
domingo, 16 de dezembro de 2012
Porque compões pá?
Porque
compões pá?
Esta é a
pergunta óbvia que eu merecia que me fizessem...
Lamentavelmente,
a questão de eu ser ou não compositor, é absolutamente irrelevante para a maior
parte dos que me “cercam” no dia a dia. Cada vez me sinto mais isolado enquanto
criador e, no entanto, paradoxalmente, nada disso me importa. A aura romântica
de alguém que compõe sob uma atmosfera de inspiração descontrolada, sombria,
doentia ou exaltada é algo que, curiosamente, ainda sinto apesar de não me
identificar pessoalmente com este paradigma da figura do compositor e sua
projeção artística, até porque esta imagem faliu gradualmente depois da segunda
grande guerra, e nada há a fazer em relação a isso. O mais singular é que eu
próprio nunca me senti na pele de tal tipo de compositor porque sempre me senti
mais completo, e com feedback mais ou
menos imediato, no papel de professor. O que agrava tudo isto é que na missão de
ser professor tudo mudou de mau para muito pior ao longo da última década, hoje
só dentro da sala de aula e com os alunos é que nos podemos iludir, fora isso,
nada mais interessa. Mas voltando ao tema deste pequeno texto, sempre me senti
como compositor (não por ter tido aproveitamento positivo num qualquer curso de
composição) uma vez que já o fazia mesmo antes de o estudar. Desde que comecei
a compor música, com maior ou menor frequência, sensivelmente depois de 1990, experimentava
a exaltação, que uma simples nota escrita provocava em mim, e perguntava-me a
mim mesmo como tinha sido possível eu ter juntado um som aos outros! Isso foi
algo que nunca mudou e depois de tantos anos (mais de 20!), pergunto-me porquê?
Tive tantos “contratempos”, para lhe chamar um nome suave, por compor! Tive que
enfrentar um mau curso, um professor castrador de gerações, tive que encarar os
invejosos e os medíocres, tive que tentar sempre ser professor, e outras tantas
tarefas inerentes à minha passagem por cá. Mas para quê tudo isto? Tantos são
os que dizem não valer a pena a pessoa aborrecer-se...
No entretanto,
deixemo-nos de devaneios, este não é o país da cultura, a grande parte das
pessoas não valoriza coisa nenhuma que não seja a aparência daquilo que supostamente
são, não diferenciam o trigo do joio, as instituições culturais são orientadas
no que fazem ou deixam de fazer por poderes mais fortes do que as suas próprias
linhas de pensamento; por outro lado as instituições não deixam de ser as
pessoas que nelas mandam e por isso mesmo foram as “escolhidas”. Tendo em conta
esta introdução e para quem estiver a pensar que agora não sairei mais deste
discurso de vitimização do artista mal compreendido, desengane-se. Não é por
isso que o estou a escrever. A razão que me leva a deixar como públicas estas
palavras é bem mais interessante e prende-se com a atitude perante os outros e
perante mim próprio no que diz respeito aquilo que faço, que é como já
perceberam, compor e ensinar a compor e fazer com que os alunos percebam alguma
coisa de música. O que hoje me leva a escrever estas linhas é o facto consumado
em mim mesmo de que me estou literalmente “nas tintas” para todo o tipo de
interesses e bajulices que seriam necessários para que a minha música fosse,
eventualmente, mais ouvida e tocada. Reparem que este não é o discurso de quem
perdeu ou está a perder, pelo contrário! Assumo na plenitude total das minhas
capacidades mentais que não me interessa praticamente coisa nenhuma em termos
profissionais que não seja o escrever música, nem que seja, como disse em
tempos, para a minha “gaveta”. Se sobrevivi ao terror do curso de composição da
ESMAE nos anos que por lá passei também vou sobreviver a tudo o resto.
Escrevo
agora este memorial por sentir algumas correspondências entre o ano de 2012 e o
ano de 1996 no que à minha produção musical concerne. O ano de 1996 foi um ano
particularmente atribulado e excitante para mim, tinha acabado o curso de
composição, tinha começado a trabalhar onde ainda hoje trabalho, e acima de
tudo, estava a compor com um ritmo muito marcado, cada momento, cada bocado de
tempo, tudo era aproveitado para compor, quando viajava, quando esperava por
alguém, quando ensinava, a cabeça e os sons estavam sempre ligados como se um
cordão umbilical se tratasse. Digo isto, sem explicar em detalhe, mas a verdade
é que um compositor não compõe apenas quando se chega perto do papel, ou do
computador, compõe sempre e depois só tem que passar ao chamado suporte, a
partitura, a ideia mais próxima daquilo que ouve. O ano de 2012 foi igualmente
marcado por um ritmo mais acentuado na minha produção escrita musical.
Escrevi aliás
este ano de 2012 mais obras do que em 1996, onze obras completas fora as que
ficaram em standby, a saber: meu madrigal de madrugada – (Orquestra de Cordas, Flauta, Harpa e Piano); Like a bandoneón – (Quarteto de Saxofones); Urban
Walk – (Marimba de 4 oitavas – versão pequena); Urban Walk –
(Marimba de 5 oitavas); Urban Walk
– (Duas Marimba de 5 oitavas); Old fashioned pieces for Harp – (Harpa); 10
peças infantis (Piano); Pequenas
histórias de um fagote – (Fagote e piano); Pequenas histórias de um Clarinete - (Clarinete e piano); O Elefante e a Pulga – (Coro infantil e
piano); Pequenas histórias de um Harpa
(Harpa), todas elas editadas, ou a editar, pela AvA Musical Editions. Apenas
uma destas obras foi apresentada na sua totalidade em público! Neste momento
tenho em mãos uma peça para Saxofone barítono e electrónica, um quarteto de
cordas, uma obra electrónica, e uma ou outra que não devo relevar. Estes
momentos de escrita musical funcionam para mim essencialmente como um meio de
sobrevivência, não aguentaria viver o que estou a viver no meio em que me movo
sem recorrer a estes momentos de criação, feita em minutos, horas e pouco mais,
entre muitíssimas tarefas a que a minha condição de pai, professor, cidadão
aparentemente apresentável, etc., me sujeitam. Repare-se que, compor música,
para além de ser aquilo que me faz sentir verdadeiramente vivo, é também, um
acto de higienização intelectual. Não sobreviria se perdesse isso!
Também a ideia de perder a memória me assusta porque tenho-a sempre
muito presente (do género da do elefante) e, apesar de me pesar como uma pedra de
granito, é o que me resta para estar consciente, lúcido e convicto das minhas
posições. É bastante fácil aos meus “não amigos” dizerem, “lá está ele com o
seu mau feitio... as coisas que ele sabe e pensa são certas, mas era melhor não
as dizer, não são socialmente aceitáveis e inteligentes, assim nunca pertencerá
a nenhum grupo, nunca será nem daqui nem dacolá”. E eu respondo que é assim
mesmo, não pertenço a lado nenhum senão a mim mesmo, mesmo que orgulhosamente
só, os tachos, lobbies, grupos e
afins são para os outros, não para mim. Para concluir, volto a reforçar que o
acto de compor e também ensinar os mais jovens a fazê-lo, é um privilégio, nem
todos o têm, e, quanto a tudo o resto, as imprecisões como alguns lhe chamam, o
esbanjar de incompetência, as fanfarras, as palminhas, os bombos, as latas e os
pinotes, parafraseando Mário Sá-Carneiro, não são mais do que verbos de encher
ou por encher, murchos, moles e colados uns aos outros, pura matéria plástica, como
compôs Frank Zappa, Plastic people.
domingo, 18 de novembro de 2012
GENEROSIDADE
Ontem,
no Theatro Circo em Braga revivi com emoção a música e a pessoa de António
Pinho Vargas. Já não o ouvia a tocar desde o final dos anos oitenta, numa
altura em que o seu piano era apoiado pelo irmãos Barreiros e pelo José
Nogueira em quarteto, isto no Teatro Carlos Alberto no Porto. Foi arrepiante
ouvir outra vez, a dança dos pássaros, Tom Waits, etc. Está tudo lá ainda, mas
mais refinado, as articulações a expressividade, os súbitos e curtos silêncios
em jeito de hoquetus, e, acima de tudo, aquelas melodias, de uma beleza
inexplicável, infinitamente lusitanas no seu contorno e perfil linear. Enfim,
para além de toda aquele grande jazz português que reouvi, as palavras de APV –
que separaram, em jeito de prelúdios, os momentos exclusivamente musicais – sempre
sábias, lúcidas e, mais do que tudo, generosas. Se alguma palavra pudesse
definir o dia de ontem, antes do concerto – em que tive o prazer da companhia
de APV num longo café adiado há muito tempo, anos mesmo – durante o concerto, e
depois do concerto essa palavra será GENEROSIDADE. Possivelmente, para alguns
parecerá um lugar comum, mas não o é, uma vez que é cada vez mais difícil
encontrar esta palavra expressa e encarnada na alma das pessoas. Numa altura em
que tanto se “partilha” e tão pouco se dá as “gentes” são cada vez menos
generosas, e uma grande parte não o é sequer.
Obrigado,
António.
(foto da culturgest)
(foto da culturgest)
terça-feira, 13 de novembro de 2012
simples versus complicatus (não, não é a flor!)
É
assim, em Lisboa as coisas funcionam de uma forma mais óbvia, mais simples, mais assumida. Ou
seja, Pequenos Cantores do Conservatório de Lisboa e a Camerata de Lisboa,
maestrina Joana Carneiro, álbum de Natal, Canções de Natal Portuguesas,
compositores contemporâneos portugueses, como Carlos Marecos, Vasco Pearce de
Azevedo, Sérgio Azevedo e João Madureira, todas os temas escritos tendo como
ponto de partida o cancioneiro tradicional português.
A
ser no norte, não podia ser assim, não, nem pensar! Tinha que ser uma coisa em
Grande! O maestro tinha que ser estrangeiro, de preferência com um nome bem
complicado de pronunciar, as músicas teriam que incluir obrigatoriamente,
porque toda a gente gosta, o "A Todos um Bom Natal", o "Noite
Feliz" e o "Jingle Bells", o cancioneiro tinha que ser da freguesia de nascença da pessoa que organizasse o evento e posterior gravação, e quanto aos compositores é
melhor ficar por aqui neste breve, irónico e patético comentário...
sábado, 13 de outubro de 2012
Um astro doido a sonhar
Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto
E hoje, quando me sinto.
É com saudades de mim.
Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha
vida...
Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem
hoje:
O tempo que aos outros
foge
Cai sobre mim feito
ontem.
(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:
Porque um domingo é
família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem
família).
O pobre moço das
ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que me abismaste nas
ânsias.
A grande ave doirada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os
céus.
Como se chora um amante,
Assim me choro a mim
mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.
Não sinto o espaço que
encerro
Nem as linhas que
protejo:
Se me olho a um espelho,
erro -
Não me acho no que
projeto.
Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.
Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.
Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi... Mas
recordo
A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.
(As minhas grandes
saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho
saudades
Dos sonhos que sonhei!...
)
E sinto que a minha morte
-
Minha dispersão total -
Existe lá longe, ao
norte,
Numa grande capital.
Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.
Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos
brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos
brancas...
Tristes mãos longas e
lindas
Que eram feitas pra se
dar...
Ninguém mas quis
apertar...
Tristes mãos longas e
lindas...
Eu tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai
de mim!...
Desceu-me n'alma o
crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o
crepúsculo.
Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.
Perdi a morte e a vida,
E, louco, não
enlouqueço...
A hora foge vivida
Eu sigo-a, mas
permaneço...
Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba...
Paris - maio de 1913.
Mário de Sá-Carneiro
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