Muitos o pensam...
poucos o dizem.
Mas é assim, para todos os efeitos, sou eu o elitista, o exagerado e o maldisposto!
segunda-feira, 15 de abril de 2013
segunda-feira, 8 de abril de 2013
"brevemente disponível"
Ontem à noite, acabei por ver no site da Ava Musical Editions como "brevemente disponível" esta minha obra. A primeira coisa que pensei foi que tendo a obra acabada de ser estreada era quase estranho vê-la agora editada...
não que eu ache que a obra não o justifica ou que a AvA não presta o serviço público que o estado não faz...
Uma nova obra, ou antiga, tanto faz, de um compositor tem, na melhor das hipóteses, uma estreia e depois arruma-se definitivamente na "prateleira" pessoal do compositor. Esta ideia é aliás, analisada com uma lucidez acutilante no livro "Música e Poder - Para uma Sociologia da Ausência da Música Portuguesa no Contexto Europeu" do meu amigo António Pinho Vargas. Portanto, o que quero transmitir com este pequeno texto é que uma obra musical não existe, apenas e só, porque teve uma estreia. Dessa forma a obra musical nem sequer existe para além do mundo interior do seu criador. Imaginem o que seria se as obras musicais da tradição musical ocidental, vulgo música clássica europeia, tivessem tido apenas uma estreia no seu tempo! Se assim tivesse sido hoje ninguém conheceria, por exemplo, as "Cenas Infantis" de Schumann, qualquer quarteto de cordas de Haydn, ou "Boris Godunov". As obras musicais dos compositores deviam ser tocadas uma ou outra vez para além da, hipotética, estreia. Por isso mesmo também acabam por estar à venda. E um original é um original e não uma fotocópia...
(para além da música também a capa é minha, concepção gráfica, tipo de letra, e, claro, foto, tirada no final dos anos oitenta com uma antiga reflex no Porto, bairro da Fontinha. As traves e a sua aridez urbana representam simbolicamente uma ponte com o travejamento de um piano de cauda aberto).
— com Francisco José Costa e Alfredo Figueiredo Costa em Fontinha, Porto.RESISTIR É VENCER
Canto Dos Torna-Viagem
Foi no sulco da viagem
Já sem armas nem bagagem
Nem os brazões da equipagem
Foi ao voltar
Pátria moratória
No coração da história
Que consumiste a glória
Num jantar
Foi como se Portugal
P’ra bem e p’ra seu mal
Andasse em busca dum final
P’ra começar
Ávida violência
Reverso da inocência
Sal da inconsciência
Que há no mar
Império tão pequenino
De portulano caprino
Bolsos de sina e de sino
Em cada mão
Pátria imaginária
De consistência vária
Afirmação diária
Do teu não
As malas do portugueses
São como os olhos das rezes
Que se mastigam três vezes
Em cada chão
Cândida ignorância
Grande desimportância
Os frutos da errância
Já lá estão
Melodia 2
Ai Senhora dos Navegantes me valei
De África, do sal e do mar só eu sobrei
Foi p’ra me encontrar que amanhã já me perdi
Longe vai o tempo que eu já não estou aqui
Ai Senhora dos Talvez-Muitos-Mais- Sinais
Socorrei estes desperdícios coloniais
Foi na noite fria que o dia me cegou
Inda agora fui, inda agora cá não estou
Ai Senhora dos Esquecidos me lembrai
O caminho que p’ra lá vem e p’ra cá vai
Etecetera e tal, Portugal é nós no mar
Inda agora vim e estou longe de chegar
Ai Senhora dos Meus Iguais que eu subtraí
Foi pataca mim e não foi pataca a ti
Se é tão grande a alma na palma do meu ser
Algum dia eu vou finalmente acontecer
Melodia 3
Porque não tentar outro ponto de vista
A história dos outros quem a contará
Se qualquer colónia sem colonialista
São os que já estavam lá
Tentemos então ver a coisa ao contrário
Do ponto de vista de quem não chegou
Pois se eu fosse um preto chamado Zé Mário
Eu não era quem eu sou
Os navegadores chegaram cá a casa
E foi tudo novo p’ra eles e p’ra mim
A cruz e a espada e os olhos em brasa
Porque me trataste assim?
Não é culpa nossa se quem p’ra cá veio
Não se incomodou ao saber do horror
A história não olha a quem fica no meio
E o que foi é de quem for
letra e música de José Mário Branco
domingo, 10 de março de 2013
Rui Gama e Dora Rodrigues
Foi ontem, L'effetto Ensemble, um verdadeiro e autêntico momento de deleite musical, um excelente programa muito bem orientado e coerente, um dueto de peso coroado pela precisão discreta do belíssimo som de Rui Gama na guitarra e pela avassaladora voz, cada vez melhor (como se ainda fosse possível!) de Dora Rodrigues. Obrigado amigos pelo concerto que deram ontem. A eles dedicada, há cerca de 3 semanas, acabei de compor um ciclo de 5 peças sobre poemas de Mário Sá-Carneiro... Vamos ver se aquilo funciona!
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
O desembaraçado, o opinioso e o consequente analfabetismo musical português
(...) Segundo Manuel Pedro Ferreira, “para mal dos
nossos pecados a necessidade de habitar um terreno musical próprio tem sido
reconhecida por muito poucos”. No momento de encontrar responsáveis o autor
recorre a figuras de retórica: “Os principais responsáveis por essa falta de
reconhecimento têm sido, segundo julgo, a tacanhez e o snobismo, qualidades que
vejo representadas, na minha galeria de tipos sociais, pelas figuras do desembaraçado
e do opinioso. [...] Para o desembaraçado, a música pode bem viver numa tenda,
desmontável à mínima tempestade orçamental. Para o opinioso, a boa arquitectura
sonora nasce das recensões fonográficas e dos escritórios dos agentes e
prescinde de alicerces. Ambos acham que os verdadeiros compositores são
super-homens cujo génio se manifesta independentemente das condições de
aprendizagem e exercício do seu ofício, ignorando que o desabrochar criativo
exige estímulos sociais e um diálogo permanente, através dos executantes com o
resultado sonoro” (Ferreira, 2007: 16).
Ferreira considera que “a comparação com a vida
musical de outros países europeus, conjugada com uma maior preparação técnica e
teórica dos organizadores musicais, possa vir num futuro próximo a sapar a
tradicional influência do snobismo e da tacanhez nacionais. Tal expectativa não
impede que essa influência tenha marcado de forma extremamente negativa o
século findo” (ibid.). Chegando a conclusões relativamente próximas, Paulo
Ferreira de Castro tinha afirmado na sessão comemorativa do Dia Mundial da
Música em 1991: “Confrontemo-nos de uma vez por todas com esta realidade brutal
e incompreensível num país que é parte integrante da Comunidade Europeia: a
esmagadora maioria da população portuguesa é absolutamente analfabeta em
matéria de música, porque o sistema escolar português é praticamente omisso em
matéria de formação geral nesta área”. Mais adiante: “O público português,
sobretudo o lisboeta – ou pelo menos uma parte significativa dele – é
seguramente o mais snob e ao mesmo tempo o mais ignorante da Europa”. E
prossegue: “Portugal tem, apesar de tudo, uma cultura musical antiga – quase
completamente desconhecida, aliás, do cidadão comum – [...] mas – e o facto
constitui motivo de verdadeira vergonha nacional – talvez nenhum outro país da
Europa preste tão pouca atenção à conservação e valorização do seu património
musical. Com excepção de algumas iniciativas da Fundação Calouste Gulbenkian, e
outras pontuais, da Divisão de Música da Direcção Geral da Acção Cultural
(nomeadamente da publicação aliás muito irregular de discos consagrados à
música portuguesa) e do Departamento de Musicologia do Instituto Português do
Património Cultural, muito pouco se tem feito no sentido de divulgar a herança
musical no nosso país, e mesmo o investigador especializado esbarra em
múltiplas dificuldades na tentativa de aprofundar o conhecimento desse sector
fundamental da cultura portuguesa” (Castro, 1991).
Quanto mais se avança nesta direcção mais facilmente
se chega a zonas profundas da sociedade portuguesa. Nos textos que acabamos de
ver, no momento em que se trata de apontar os responsáveis recorre-se
normalmente ao défice estrutural ou a figuras de retórica, evitando, deste
modo, a identificação explícita de responsáveis directos e uma análise de
práticas institucionais concretas. Paulo Ferreira de Castro aponta
responsabilidades genéricas ao analfabetismo musical do público, ao snobismo
lisboeta e à insuficiente acção dos organismos oficiais, e a interpretação de
Manuel Pedro Ferreira não identifica com total clareza os responsáveis da falta
de reconhecimento: “a situação do compositor em Portugal está, de resto, ligada
ao tratamento de que a Música em geral tem sido objecto, até há pouco, por
parte das instituições do Estado” (Ferreira, 2007: 14). Onde está a raiz deste
conjunto de problemas?
Nós – a
tacanhez – e os outros, in MÚSICA E
PODER – Para uma sociologia da ausência da música portuguesa no contexto
europeu de António Pinho Vargas
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
cultura musical de algibeira...
Sobre esta História da Música e, para além da primeira impressão interessante, principalmente na velocidade e qualidade do artista gráfico, de estar de uma forma geral correcta a cronologia em termos científicos, este video sofre de um lamentável equívoco...
O que dá para perceber é que, e para a maior parte das pessoas que vir isto com atenção, das chamadas músicas de vanguarda, das novas formas musicais, do impressionismo, do dodecafonismo, de Debusy e de Schoenberg do início do século passado saltamos de imediato para uns divertidos ragtimes, para o Jazz, para o Blues, Rock, Hardrock, invasão britânica, Heavy metal, rock progressivo, pop, etc., através de nomes como Armstrong, Elvis, Beatles, Led Zeppelin, Pink Floyd, Queen, New Order, etc.!!! Ou seja, passa-se de uma música de particular grau de abstracionismo enquanto objecto estético para uma sub-cultura popular, ou outra ainda mais sub. Quando é que será possível que se entenda de uma vez por todas que há galhos para cada macaco, que não é tudo a mesma coisa, e vá, deixem-se de acusações de visões elitistas pois estas nunca me serviram nem nunca me servirá a carapuça. É por estas e por outras que as coisas são como são, a cultura, musical ou outra qualquer, é, para a grande parte das pessoas, e grosso modo, de algibeira. O gosto educa-se, aprende-se, e cultiva-se! Já para pensarmos e agirmos todos de igual forma perante as coisas nada é preciso fazer, basta estarmos quietos e de cara alegre. Esta a pior ditadura dos nossos tempos!
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