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terça-feira, 11 de abril de 2017

ao meu amigo Paulo Mesquita

A propósito do grande concerto de ontem deixo um pequeno texto que escrevi há tempos. Resume, de alguma forma, o que se ouviu ontem na Casa da Música ao fim da tarde: A música de Paulo Mesquita tem como contorno essencial a sua visão total do acto da performance, através de todos os parâmetros essenciais do som, começando pelo timbre total do instrumento (piano, guitarra, entre outros), passando por uma exploração rítmica de grande subtileza até à qualidade e consciência harmónica das suas démarche cadenciais de clara sonoridade urbana. No primeiro cd de Paulo Mesquita, “Piano Harp and Percussion”, ouvimos, porventura, o seu som mais original onde este explora abertamente o piano na sua perspectiva mais ampla, ou seja, nas suas cores como instrumento de teclado, de cordas e de percussão, ou, nas suas próprias palavras, “na endogenia das ressonâncias, dos harmónicos dos travejamentos e madeiras”. Para além do cd supracitado, nos seus vários trabalhos encontram-se dois cd’s de piano solo já terminados, música para bandas sonoras, bailados, teatro, entre outras experiências performativas. A generalidade da sua música revela, não só a formação clássica do pianista, o seu gosto pelo jazz, a sua experiência na manipulação de loops em tempo real, mas também, e principalmente, o requinte de execução instrumental percorrido em linha recta, a uma velocidade estonteante, entre o seu gosto eclético e o gesto musical propriamente dito. Paulo Mesquita, fora dos rótulos e circuitos tantas vezes sofríveis do mediatismo do meio musical, é ele próprio música!


(facebook | 1 de Outubro de 2014Foto: Lauren Maganete)

bastava fazer umas "flores" bem feitas

"Para ensinar bem é preciso saber bem o que se vai ensinar"
Nuno Crato

Inacreditável, andei anos e anos da minha vida como professor a pensar que esta premissa era verdade. Entretanto fui ficando convencido do contrário, que nem sequer era importante saber alguma coisa do que se ia ensinar, e que bastava fazer umas "flores" bem feitas, andar nas escolas com ar de quem sabe o está a fazer, e colocar-se ao lado dos mandantes com um ar sorridente e patético. Agora vem este senhor da pedagogia moderna confundir-me...

(facebook | 24 de Novembro de 2014)

domingo, 4 de maio de 2014

Tónica Dominante fez 9 anos em 19 de Março!

Para quem ainda se lembra…
começou em 2005, já lá vão 9 anos!
O que eu passei para manter isto online, ninguém imagina. A censura sempre existiu, antes e depois do 25 de abril. Na altura em que escrevia muita coisa sobre o ensino especializado da música tinha visitas diárias de "bufos" que imediatamente colocavam a par os que tinham o poder de me excluir, de me espezinhar o quanto pudessem, agiam de forma organizada na sua mediocridade e mesquinhez.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O desembaraçado, o opinioso e o consequente analfabetismo musical português


(...) Segundo Manuel Pedro Ferreira, “para mal dos nossos pecados a necessidade de habitar um terreno musical próprio tem sido reconhecida por muito poucos”. No momento de encontrar responsáveis o autor recorre a figuras de retórica: “Os principais responsáveis por essa falta de reconhecimento têm sido, segundo julgo, a tacanhez e o snobismo, qualidades que vejo representadas, na minha galeria de tipos sociais, pelas figuras do desembaraçado e do opinioso. [...] Para o desembaraçado, a música pode bem viver numa tenda, desmontável à mínima tempestade orçamental. Para o opinioso, a boa arquitectura sonora nasce das recensões fonográficas e dos escritórios dos agentes e prescinde de alicerces. Ambos acham que os verdadeiros compositores são super-homens cujo génio se manifesta independentemente das condições de aprendizagem e exercício do seu ofício, ignorando que o desabrochar criativo exige estímulos sociais e um diálogo permanente, através dos executantes com o resultado sonoro” (Ferreira, 2007: 16).
Ferreira considera que “a comparação com a vida musical de outros países europeus, conjugada com uma maior preparação técnica e teórica dos organizadores musicais, possa vir num futuro próximo a sapar a tradicional influência do snobismo e da tacanhez nacionais. Tal expectativa não impede que essa influência tenha marcado de forma extremamente negativa o século findo” (ibid.). Chegando a conclusões relativamente próximas, Paulo Ferreira de Castro tinha afirmado na sessão comemorativa do Dia Mundial da Música em 1991: “Confrontemo-nos de uma vez por todas com esta realidade brutal e incompreensível num país que é parte integrante da Comunidade Europeia: a esmagadora maioria da população portuguesa é absolutamente analfabeta em matéria de música, porque o sistema escolar português é praticamente omisso em matéria de formação geral nesta área”. Mais adiante: “O público português, sobretudo o lisboeta – ou pelo menos uma parte significativa dele – é seguramente o mais snob e ao mesmo tempo o mais ignorante da Europa”. E prossegue: “Portugal tem, apesar de tudo, uma cultura musical antiga – quase completamente desconhecida, aliás, do cidadão comum – [...] mas – e o facto constitui motivo de verdadeira vergonha nacional – talvez nenhum outro país da Europa preste tão pouca atenção à conservação e valorização do seu património musical. Com excepção de algumas iniciativas da Fundação Calouste Gulbenkian, e outras pontuais, da Divisão de Música da Direcção Geral da Acção Cultural (nomeadamente da publicação aliás muito irregular de discos consagrados à música portuguesa) e do Departamento de Musicologia do Instituto Português do Património Cultural, muito pouco se tem feito no sentido de divulgar a herança musical no nosso país, e mesmo o investigador especializado esbarra em múltiplas dificuldades na tentativa de aprofundar o conhecimento desse sector fundamental da cultura portuguesa” (Castro, 1991).
Quanto mais se avança nesta direcção mais facilmente se chega a zonas profundas da sociedade portuguesa. Nos textos que acabamos de ver, no momento em que se trata de apontar os responsáveis recorre-se normalmente ao défice estrutural ou a figuras de retórica, evitando, deste modo, a identificação explícita de responsáveis directos e uma análise de práticas institucionais concretas. Paulo Ferreira de Castro aponta responsabilidades genéricas ao analfabetismo musical do público, ao snobismo lisboeta e à insuficiente acção dos organismos oficiais, e a interpretação de Manuel Pedro Ferreira não identifica com total clareza os responsáveis da falta de reconhecimento: “a situação do compositor em Portugal está, de resto, ligada ao tratamento de que a Música em geral tem sido objecto, até há pouco, por parte das instituições do Estado” (Ferreira, 2007: 14). Onde está a raiz deste conjunto de problemas?

Nós – a tacanhez – e os outros, in MÚSICA E PODER – Para uma sociologia da ausência da música portuguesa no contexto europeu de António Pinho Vargas


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

"Sobre a melancolia física do artista”

Do seu fantástico e lúcido livro "Música e Poder" passo a citar.

Em 2004 escrevi numa nota de programa da estreia da peça Reentering para orquestra, o seguinte texto, intitulado “Sobre a melancolia física do artista”:intima e desoladamente, vou estando cada vez mais convencido da inutilidade da arte e da música no quadro do espaço-tempo em que vivo. Uma nova obra portuguesa, amputada quase sempre dos seus modos actuais de sobrevivência – a edição da partitura e a edição discográfica – destina-se à categoria de desperdício patrimonial virtual e acrescenta-se às anteriores como alimento para a persistência do secular discurso lamentoso. É tempo de considerar esta situação definitiva, irreformável. Esta não é uma boa notícia mas mais vale considerá-la verdadeira para melhor se poder interpretar a hipocrisia dos discursos oficiais de sempre e a permanência das insuficiências de todo o Século XX.Resta ao criador considerar a sua obra como uma carta escrita aos amigos destinada a ser lida daqui por mil anos, na melhor das hipóteses. No entanto, quando componho, sinto-me como que deslocado para fora das determinações do real e concentrado na coisa-em-si e assim posto em sossego na atitude desinteressada kantiana.
António Pinho Vargas

domingo, 17 de junho de 2012

sobre a ausência de gosto musical

Para além da questão do ensino especializado da música, que é o que tema que sempre mais me preocupou, ainda há a música contemporânea portuguesa em si mesma. A maior parte das obras que escrevo (desde 1990 sensivelmente) nunca foram tocadas, e aquelas que o foram não passaram da primeira e única vez. A comparação que posso estabelecer e forma mais simples de perceber é a de um escritor que escreve um livro para crianças, por exemplo, e apenas uma criança no mundo o ler! Não há qualquer forma, que eu esteja a ver de este tipo de coisas mudar por diversos motivos.
(comentário meu algures no facebook)

Quem ler o que acabei de escrever pode tirar vários tipos de conclusões...

pode eventualmente pensar que estou a aludir aos velhos problemas dos grupos daqui e dali, dos que são mais privilegiados no que à divulgação da sua música concerne, ou das questões das periferias - onde agora me incluo cada vez mais uma vez que me mudei do Porto para Braga, uma cidade sem qualquer tipo de estimulo cultural sério que eu vislumbre - e dos centros de poder, ou, pura e simplesmente, pode o leitor pensar, que afinal o tipo (eu) não tem é nada decente para mostrar e está para ali a lamentar-se. Mas desenganem-se os que põem acreditam em qualquer uma das hipóteses simplistas anunciadas acima! Sempre me passou literalmente ao lado todos este tipo de quesitos. No que diz respeito à composição portuguesa penso que tivemos um longo e sinuoso período, durante o século XX, verdadeiramente negro no que à qualidade diz respeito, com uma série de clichés atrasados do que melhor se fazia pelo resto do mundo em termos musicais. A época a que me refiro, com algumas excepções, é o chamado “antigo regime” que fez também os seus estragos no que à música portuguesa dizia respeito. Agora temos este modelo de “Actual Regime” disfarçado de coisa boa e democrática que também é, e muito, repressivo. A ressaca do antigo regime é o “Actual Regime” que hoje se vive. Voltando à questão central deste pequeno prelúdio, que é a composição portuguesa, sempre achei que a diferença de divulgação e amostragem da música dos compositores vindos de Lisboa e os do Porto se justificava. Pessoalmente, nem sequer estranho o facto de a massa composicional de Lisboa estar muito mais representada em Portugal (nomeadamente no norte) e no resto do mundo. Afinal há uma diferença de qualidade e quantidade abissal entre aquilo que foi produzido de um lado e do outro lado do país ao longo dos últimos 20 anos. É evidente que, para além de nós mesmos, tudo tem uma causa e responsáveis. Os poucos compositores portuenses que saíram do curso de composição da escola superior de música nos anos noventa não foram formados, foram, de forma lapidar, claramente deformados! Nas duas décadas seguintes, alguns apenas, iniciaram um processo lento de reconstrução e desconstrução de uma série de tiques e fobias confusas transmitidas pela intitulada geração de 60 reiniciando tardiamente a recuperação do seu espaço enquanto compositores. Alguns endireitaram-se e sempre escreveram música, outros não, e ele houve outros ainda que não tinham mesmo porque se endireitar.
Conheço, e sou leitor atento do que melhor se escreve sobre a produção cultural e, em especial da produção musical, no nosso país. Confesso-me como alguém que partilha uma grande parte das lúcidas e claras ideias difundidas por António Pinho Vargas na sua tese de doutoramento – “Música e Poder: Para uma sociologia da ausência da música portuguesa no contexto europeu”. No entanto, como em tudo, nem sempre nos revemos na totalidade dos argumentos de quem mais nos convence e há algo que percebi como não referido no que a “ausência da música portuguesa na europa” diz respeito. Num pais, pequeno como é o nosso, assistiu-se, até sensivelmente ao final de século XX, a uma clara assimetria entre a formação de compositores oriundos de Lisboa, que foram sempre muitos, e os do Porto. Será que esta realidade concreta não terá tido os seus efeitos nefastos para além das vitimas mais próximas, ou seja, os projectos de compositores do norte? Será que esta questão não é ela mesma uma das causas do enfraquecimento da própria realidade composicional para além das fronteiras territoriais? Porque a evidente ausência da música portuguesa na europa e consequentemente em Portugal? Para além das muitas razões da fraca visibilidade da música portuguesa na europa apresentadas por António Pinho Vargas, com que concordo na totalidade, na sua tese de doutoramento e livro, poderia, com certeza, constar também esta assimetria que refiro aqui, a de um país provinciano que nunca sairá dos ambientes que Eça de Queirós tão bem caracterizou.
Note-se que eu nem sequer acho que a música portuguesa moderna e contemporânea tenha que ter visibilidade só porque sim! Defendo mesmo que um bom programa de concerto não tem que ter música portuguesa, mas porque é que a há-de ter? Onde está isso escrito? É, aliás, de um provincianismo absoluto alguém pensar que deveria ser assim, só porque nos orgulhámos de ser portugueses, em nome de um qualquer tipo de nacionalismo bacoco, nada presente em praticamente tudo o que fazemos. Muito sinceramente, tanto me faz ser português como ser outra coisa qualquer! É-me indiferente... o que penso, isso sim, é que um bom programa de concerto deve primar pela forma de organização e interação entre as várias obras nele presentes e, acima de tudo, pela qualidade e coerência do objecto estético aí revelado em música. O que não se pode é colocar intermediários castradores e desabilitados (não me refiro a habilitação académica, mas sim, aos que vivem felizes sem o mínimo de saberes culturais) a organizar programas culturais de instituições, programas mal conduzidos, ou, até, in extremis, a gerir a própria cultura. Parece-me que, com os erros da história da música pouco ou nada se aprendeu por cá, basta lembrar as escandalosas estreias de obras Edgard Varèse em Paris, pois nada poderia funcionar, como é óbvio não ouviria com normalidade uma estreia de uma obra de Varèse entre Mozart e Mendelssohn. Mas todas estas questões têm os seus quês… para vermos pontes entre compositores diametralmente opostos é sempre necessário termos uma visão de conjunto que justifique as nossas escolhas. A título exemplificativo, e na primeira ideia que me ocorre, porque é que um concerto que cruze um certo tipo de obras de Bach, Kurtág, Janacek, Webern e Scriabin vai funcionar? A resposta a esta pergunta está com certeza na evidência de pensamento de quem as propõem enquanto programa de um eventual concerto. Para tal é necessário alguns saberes culturais, não muitos, mas alguns... ele há coisas que nunca se escondem, e a maior é, sem dúvida, a ignorância. A minha questão fundamental em relação à música, quer seja ela a portuguesa ou outra, é sempre a mesma e contradiz o espírito das regras “sociais” e democráticas, é aquela que banaliza a célebre frase de que “o gosto não se discute”! Discute, pois. E, concretamente, o gosto musical discute-se e educa-se. Só é pena é que já ninguém esteja para isso, nem para educar nem para ser educado.