domingo, 20 de março de 2016

dia do pai


Ontem foi dia do pai. Não tendo pai desde os meus 5 anos sou pai de duas meninas há 10 anos. E ontem tive um dia do pai mais feliz do que o normal com prendas que me encheram o coração. No mesmo dia em Almada tive a estreia de duas canções para crianças de uma obra minha chamada "Pelo aroma das sílabas" e à noite outra estreia de um "Ave verum corpus" em Esposende. Poderia apenas ser isto e nada mais, mas assim não foi...

Ao meu lado esteve António Pinho Vargas, um compositor, um ser humano enorme, um intelectual, que tanto admiro, com outra estreia, "Sabat Mater". Tal nunca se me afigurou sequer como uma possibilidade tal é a distância respeitosa que tenho por este músico, mais ou menos desde o final dos anos 80.



O concerto da noite foi verdadeiramente emocional e espiritual, não sentia isto há muito tempo, ver músicos que depois de cantarem (CPCE), de tocarem (Carlos Pinto da Costa e Diogo Zão) e dirigirem (Helena Isabel Venda Lima) nos demonstrassem e se revelassem tão expostos também na sua emoção.

Um abraço enorme de agradecimento a todos por ontem me terem feito sentir, ver e ouvir tudo. As lágrimas também estiveram nos meus olhos, e não apenas nos vossos...

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

entre o Musical e o amusical

(parabéns José Diogo, Francisco, Júlia e Pedro)

relembrando um parágrafo final de um texto que escrevi em 2012.

ele há coisas que nunca se escondem, e a maior é, sem dúvida, a ignorância. A minha questão fundamental em relação à música, quer seja ela a portuguesa ou outra, é sempre a mesma e contradiz o espírito das regras “sociais” e democráticas, é aquela que banaliza a célebre frase de que “o gosto não se discute”! Discute, pois. E, concretamente, o gosto musical discute-se e educa-se. Só é pena é que já ninguém esteja para isso, nem para educar nem para ser educado.

in “sobre a ausência de gosto musical”


texto integral em http://tonicadominante.blogspot.pt/2012/06/sobre-ausencia-de-gosto-musical_8240.html

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

"Boulez est mort"

"Boulez est mort"

O penúltimo da sua geração foi agora chamado… (só resta Kurtág!)
Lembro a partida de Messiaen, Nono, Berio, Stockhausen, Ligeti, e agora o emblemático Boulez. Leva com ele os seus dogmas, as suas exemplares mutações da vanguarda mais radical às surpreendentes obras dos últimos anos. Fica entre nós o que nos deixou, a desmontagem da tríade Debussy/Stravinsky/Schoenberg pela Debussy/Stravisnky/Webern, o pragmatismo total, o rigor absoluto e, acima de tudo, o mérito da sua coerência mesmo quando assumida em sentidos opostos.
Pelo seu exemplo, pensemos música com rigor dogmático rumo à anarquia total dos sentidos!

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

O que desejei às vezes

O que desejei às vezes 
Diante do teu olhar, 
Diante da tua boca! 

Quase que choro de pena 
Medindo aquela ansiedade 
Pela de hoje - que é tão pouca! 

Tão pouca que nem existe! 

De tudo quanto nós fomos, 
Apenas sei que sou triste. 



António Botto
Aves de Um Parque Real
As Canções de António Botto
Editorial Presença
1999

sábado, 29 de agosto de 2015

[Mas agora estou no intervalo em que]

Mas agora estou no intervalo em que
toda a sombra é fria e todo o sangue é pobre.
Escrevo para não viver sem espaço,
para que o corpo não morra na sombra fria.
Sou a pobreza ilimitada de uma página.
Sou um campo abandonado. A margem
sem respiração.
Mas o corpo jamais cessa, o corpo sabe
a ciência certa da navegação no espaço,
o corpo abre-se ao dia, circula no próprio dia,
o corpo pode vencer a fria sombra do dia.
Todas as palavras se iluminam
ao lume certo do corpo que se despe,
todas as palavras ficam nuas
na tua sombra ardente.
António Ramos Rosa, A Construção do Corpo, 1969

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Pudesse eu não ter laços nem limites

Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Pra poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes.

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Quanto Morre um Homem

Quando eu um dia decisivamente voltar a face 
daquelas coisas que só de perfil contemplei
quem procurará nelas as linhas do teu rosto? 
Quem dará o teu nome a todas as ruas
que encontrar no coração e na cidade?
Quem te porá como fruto nas árvores ou como paisagem
no brilho de olhos lavados nas quatro estações?
Quando toda a alegria for clandestina
alguém te dobrará em cada esquina?
Ruy Belo

Confusão, decidam-se!

"Para ensinar bem é preciso saber bem o que se vai ensinar"
Nuno Crato

Inacreditável, andei anos e anos da minha vida como professor a pensar que este premissa era verdade. Entretanto fui ficando convencido do contrário, que nem sequer era importante saber alguma coisa do que se ia ensinar, e que bastava fazer umas "flores" bem feitas, andar nas escolas com ar de quem sabe o está a fazer, e colocar-se ao lado dos mandantes com um ar sorridente e patético.
Agora vem este senhor da pedagogia moderna confundir-me...

sexta-feira, 4 de julho de 2014

música_papel_delírio

Nada se compara com a exaltação que sinto no momento em que acabo de escrever uma obra de que goste, por mais insignificante que esta possa eventualmente ser, um padrão harmónico, uma linha, uma nota que seja...
A obra quando consumada nasce completa, como um parto, no meu imaginário e provoca-me uma alegria infinita na sua singeleza. A música nasce no papel e nos meus ouvidos. Não, não nasce, como muitos pensam, na eventual estreia e performance!
Perdoem-me por tudo isto.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não 
Porque os outros usam a virtude 
Para comprar o que não tem perdão. 
Porque os outros têm medo mas tu não. 
Porque os outros são os túmulos caiados 
Onde germina calada a podridão. 
Porque os outros se calam mas tu não. 
Porque os outros se compram e se vendem 
E os seus gestos dão sempre dividendo. 
Porque os outros são hábeis mas tu não. 
Porque os outros vão à sombra dos abrigos 
E tu vais de mãos dadas com os perigos. 
Porque os outros calculam mas tu não. 
Sophia de Mello Breyner

Comunicado

Na frente ocidental nada de novo.
O povo
Continua a resistir.
Sem ninguém que lhe valha,
Geme e trabalha
Até cair.


Miguel Torga

Depoimento

Deponho
no processo do meu crime.
Sou testemunha
E réu
E vítima
E juiz
Juro

Que havia um muro,
E na face do muro uma palavra a giz.
MERDA! – lembro-me bem.
– Crianças......
– disse alguém que ia a passar.
Mas voltei novamente a soletar
O vocábulo indecente,
E de repente
Como quem adivinha,
Numa tristeza já de penitente
Vi que a letra era minha…..

Miguel Torga

domingo, 4 de maio de 2014

Tónica Dominante fez 9 anos em 19 de Março!

Para quem ainda se lembra…
começou em 2005, já lá vão 9 anos!
O que eu passei para manter isto online, ninguém imagina. A censura sempre existiu, antes e depois do 25 de abril. Na altura em que escrevia muita coisa sobre o ensino especializado da música tinha visitas diárias de "bufos" que imediatamente colocavam a par os que tinham o poder de me excluir, de me espezinhar o quanto pudessem, agiam de forma organizada na sua mediocridade e mesquinhez.

Hélia Soveral

Acabei de saber pelo fb de Joana Resende que 3 de maio era o dia de aniversário de D. Hélia Soveral, minha professora de piano, inspiradora na persistência com que exigiu tudo o que o que eu tinha para dar, inovadora nos programas que me punha a tocar, que saudades tenho dela, de tudo o que me deu e cá ficou. O que eu gostaria de poder estar outra vez com ela, Parabéns D. Hélia Soveral por tudo, esteja onde estiver...

pudor da merda!

Essa coisa da canção ganhadora do festival já me anda a enervar! Não oiço falar de outra coisa na net, por muitos dos meus alunos e colegas professores, sim, claro, colegas todos ofendidos, com pudor por Portugal, porque o país vai ficar mal visto com esta canção perante o resto dos participantes… palavra de honra se eu percebo estas posições! Num país como o nosso esperavam o quê? Um "Depois do Adeus" de Paulo de Carvalho agora? É só um festival de canção e, actualmente, nas circunstâncias em que temos a cultura por este país à beira mar plantado, a distância entre música pimba e música ligeira portuguesa já não é o que era, é muito, mas muito mais ténue. Estranharia era se a canção fosse boa, isso sim seria motivo de debate. Deviam ter vergonha é por opinar sobre a pretensa falta de qualidade da canção e sobre Portugal. Para mim o mais grave é este ser um assunto discutido por alunos e professores de Ensino Especializado da Música! Pouca vergonha...

agradecimento de uns versus "não fazes mais do que a tua obrigação" de outros

Ora aqui está!
Um agradecimento formal de uma fundação em Basel ao Kla-Vier Duo pela estreia nacional de uma obra de Morton Feldman, "Work for two pianists".
Foi um momento musical mágico no Auditório Adelina Caravana em Braga com casa praticamente vazia.
Se tivesse havido uma salva de morteiros, antes ou durante o concerto, possivelmente estaria mais gente.


Assunto: AW: for Ms Patricia Ventura, Ms Sonia Amaral - Work for two pianists on behalf of Dr Felix Meyer | Morton Feldman Collection - unpublished work

Dear Ms Ventura, dear Ms Amaral

Thank you very much indeed for the recording of your feldman performance of March 26. I look forward to listening to it and can assure you that it was a Portuguese first performance.

Yours sincerely
Felix Meyer

PAUL SACHER STIFTUNG
PAUL SACHER FOUNDATION
Dr Felix Meyer, Director
Münsterplatz 4
CH - 4051 Basel

domingo, 16 de fevereiro de 2014

O Ofuscante Poder da Escrita

(...) O ofuscante poder da escrita é que ela possui uma capacidade de persuasão e violentação de que a coisa real se encontra subtraída. 
O talento de saber tornar verdadeira a verdade. 

Herberto Helder, in 'Photomaton & Vox'

terça-feira, 15 de outubro de 2013

náuseas


Estranho-me ao lembrar-me, ainda ontem, de tão censurado achar.
Não sou eu, nem sequer o outro, nem sei qual,
É um sentir com náuseas repleno e desfocado.