terça-feira, 15 de outubro de 2013

náuseas


Estranho-me ao lembrar-me, ainda ontem, de tão censurado achar.
Não sou eu, nem sequer o outro, nem sei qual,
É um sentir com náuseas repleno e desfocado.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

SONETOs D'ELLEs-PRÓPRIOs!


“Como toda a gente sabe, vendo opiniões.” Transformou-se numa das pessoas mais influentes, e, nesse sentido, poderosas, em Portugal. É uma coisa em que pensa?
Nada. Vivo num buraco. Não faço vida social. Não ando nos salões. Nem poderia escrever o que escrevo se o fizesse. Tomei o compromisso de não ceder a ser simpática com pessoas que não valem um pataco. Fazer esse tipo de vida obrigar-me-ia a compromissos numa zona onde não me quero comprometer. Também sou punida por isso, mas foi o que escolhi. Dou-me com muito pouca gente. Amigos íntimos que são uma espécie de família, e que me põem no meu lugar porque não acham que sou poderosa. Nunca fiz nada para ter poder, não quero ter poder, não me interessa nada o poder. O único poder que gostava de ter, e que não tenho, era o de disciplinar a minha vontade. Sou extraordinariamente disciplinada, mas não o suficiente. É de mim para mim. O segundo poder que gostava de ter era o de me conhecer melhor. “Conhece-te a ti mesmo”, como dizia Sócrates. Não conheço." 
Clara Ferreira Alves


A primeira coisa que me lembrei quando li esta parte do texto de Clara Ferreira Alves foi de um conto que li, ainda muito jovem, demasiado jovem talvez, "O Covil" de Franz Kafka. Aquilo que este conto incompleto, descrevia era o de uma criatura não definida de forma clara que vivia dentro de uma toca, um covil, e, de quando em vez, espreitava cá fora recolhendo-se rapidamente, um livro muito metafórico, inesquecível. Li este e outros livros do género demasiado novo, talvez aí com uns 13, 14 anos. Só de Kafka li, num ápice, nesses anos, não necessariamente nesta ordem, O processo, A metamorfose, O Castelo, Amerika, Carta ao pai e os Contos todos. Mas a verdade é que, independentemente da tenra idade com que devorei estes livros e muitos outros de Herman Hesse, Milan Kundera (todos), Eça de Queirós, Jorge Amado, entre muitos outro escritores que não me apetece enumerar agora, essas obras fazem parte da minha vida, ou como diz Clara Ferreira Alves noutro momento deste artigo, reflectem instrução, logo, a minha vida interior. Não vivo na margem sul com 4 ou 5 livros, mas também não tenho um enorme casarão cheio de enormes vazios, vivo em Braga, cidade pequena, mas com uma vivência de sempre cheia de livros e outras coisas boas. 

Ainda que nada disto diga nada vezes nada a ninguém é assim que me devo posicionar, como um tipo que claramente não pretende nada mais do que o que tem. 

Que se lixem os Relvas deste "nobre" e podre país que somos!

Como dizia o poeta, os Relvas usam CEROULAS DE MALHA, cheiram MAL DA BOCA, são uns SONETOs D'ELLEs-PRÓPRIOs!

Pim!

sábado, 7 de setembro de 2013

Mokuso (versão original para 2 pianos)


Esta obra, escrita em 1993 está agora, 20 anos depois, editada na AVA Musical Editions.

Republico aqui no Tónica Dominante porque tenho a noção de que a maior parte das pessoas não perde tempo a ler o texto que escrevi recentemente para acompanhar a partitura. Mas isto é algo que me interessa porque, de uma maneira geral, escrevo música para as pessoas e dedico, num gesto romântico, pessoal e transmissível, essas obras às pessoas.
Como escrevo no tal pequeno texto, em jeito de auto-citação, “esta obra foi tocada apenas uma vez pelas minhas colegas de escola Catarina Cameira e Elsa Silva a quem, de resto”, a dediquei.
Em tudo na vida, assim penso, para além do que nos fica, muito importante é também o que fica de nós nos outros…
Gostava com isto de expressar um novo agradecimento, 20 anos depois, e de perguntar se alguém sabe destas pianistas?
Para mim era realmente importante que elas soubessem que, tantos anos passados, lhes dedico esta obra.
Vale o que vale...

quarta-feira, 31 de julho de 2013

sexta-feira, 19 de julho de 2013

terça-feira, 18 de junho de 2013

"Baritnok" na Association Bar&Co


Hoje é para mim um dia de grande alegria.
Foi com grande orgulho que hoje, 18 de Junho de 2013, vi republicada (uma vez que já está na AvA Musical Editions) a minha obra “Baritnok” para saxofone barítono na “Association Bar&Co”. Esta é uma editora internacional que edita exclusivamente repertório de saxofone barítono nas mais várias formações. Tudo o que apresenta no seu eclético catálogo circula pelos melhores instrumentistas do mundo deste espectacular instrumento. Assim, queria fazer dois agradecimentos especiais, um ao Romeu Costa (a quem é dedicada), que me sugeriu que escrevesse a obra e a estreou de forma magnífica. O outro agradecimento vai para Joan Martí-Frasquier, saxofonista catalão fabuloso, que fez chegar “Baritnok” a todos os membros da “Association Bar&Co”.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

PAULO MESQUITA

Agora que estão de saída na FNAC mais 2 cds de Paulo Mesquita deixo aqui o texto que escrevi sobre este excepcional músico.

http://www.culturafnac.pt/paulo-mesquita-2/


A música de Paulo Mesquita tem como contorno essencial a sua visão total do acto da performance, através de todos os parâmetros essenciais do som, começando pelo timbre total do instrumento (piano, guitarra, entre outros), passando por uma exploração rítmica de grande subtileza até à qualidade e consciência harmónica das suas démarche cadenciais de clara sonoridade urbana.
No primeiro cd de Paulo Mesquita, “Piano Harp and Percussion”, ouvimos, porventura, o seu som mais original onde este explora abertamente o piano na sua perspectiva mais ampla, ou seja, nas suas cores como instrumento de teclado, de cordas e de percussão, ou, nas suas próprias palavras, “na endogenia das ressonâncias, dos harmónicos dos travejamentos e madeiras”.
Para além do cd supracitado, nos seus vários trabalhos encontram-se dois cd’s de piano solo já terminados, música para bandas sonoras, bailados, teatro, entre outras experiências performativas. A generalidade da sua música revela, não só a formação clássica do pianista, o seu gosto pelo jazz, a sua experiência na manipulação de loops em tempo real, mas também, e principalmente, o requinte de execução instrumental percorrido em linha recta, a uma velocidade estonteante, entre o seu gosto eclético e o gesto musical propriamente dito. Paulo Mesquita, fora dos rótulos e circuitos tantas vezes sofríveis do mediatismo do meio musical, é ele próprio música!

Paulo Bastos, compositor

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Hoje, 25 de abril de 1974 de luto...


Hoje, 25 de abril de 1974 de luto...
Sem música nem imagens, profundamente enlutado.
Na época os militares fizeram a revolução acontecer, hoje nem eles, nem, aparentemente, ninguém tem força para tal. Hoje, que temos tanto a mais, falta-nos tudo, massa crítica, opinião, cabeça para pensar. Acima de tudo, temos medo, toda a gente tem medo. Chama-se a este fenómeno, o de criar e sentir medo nos outros, terror, ou em palavras socialmente menos adequadas, assim se diz por ai de forma hipócrita, terrorismo.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

segunda-feira, 8 de abril de 2013

"brevemente disponível"

Ontem à noite, acabei por ver no site da Ava Musical Editions como "brevemente disponível" esta minha obra. A primeira coisa que pensei foi que tendo a obra acabada de ser estreada era quase estranho vê-la agora editada...
não que eu ache que a obra não o justifica ou que a AvA não presta o serviço público que o estado não faz...
Uma nova obra, ou antiga, tanto faz, de um compositor tem, na melhor das hipóteses, uma estreia e depois arruma-se definitivamente na "prateleira" pessoal do compositor. Esta ideia é aliás, analisada com uma lucidez acutilante no livro "Música e Poder - Para uma Sociologia da Ausência da Música Portuguesa no Contexto Europeu" do meu amigo António Pinho Vargas. Portanto, o que quero transmitir com este pequeno texto é que uma obra musical não existe, apenas e só, porque teve uma estreia. Dessa forma a obra musical nem sequer existe para além do mundo interior do seu criador. Imaginem o que seria se as obras musicais da tradição musical ocidental, vulgo música clássica europeia, tivessem tido apenas uma estreia no seu tempo! Se assim tivesse sido hoje ninguém conheceria, por exemplo, as "Cenas Infantis" de Schumann, qualquer quarteto de cordas de Haydn, ou "Boris Godunov". As obras musicais dos compositores deviam ser tocadas uma ou outra vez para além da, hipotética, estreia. Por isso mesmo também acabam por estar à venda. E um original é um original e não uma fotocópia...


(para além da música também a capa é minha, concepção gráfica, tipo de letra, e, claro, foto, tirada no final dos anos oitenta com uma antiga reflex no Porto, bairro da Fontinha. As traves e a sua aridez urbana representam simbolicamente uma ponte com o travejamento de um piano de cauda aberto).
 —  com Francisco José Costa e Alfredo Figueiredo Costa em Fontinha, Porto.

RESISTIR É VENCER


Canto Dos Torna-Viagem

 Melodia 1

Foi no sulco da viagem
Já sem armas nem bagagem
Nem os brazões da equipagem
Foi ao voltar

Pátria moratória
No coração da história
Que consumiste a glória
Num jantar

Foi como se Portugal
P’ra bem e p’ra seu mal
Andasse em busca dum final
P’ra começar

Ávida violência
Reverso da inocência
Sal da inconsciência
Que há no mar

Império tão pequenino
De portulano caprino
Bolsos de sina e de sino
Em cada mão

Pátria imaginária
De consistência vária
Afirmação diária
Do teu não

As malas do portugueses
São como os olhos das rezes
Que se mastigam três vezes
Em cada chão

Cândida ignorância
Grande desimportância
Os frutos da errância
Já lá estão

Melodia 2

Ai Senhora dos Navegantes me valei
De África, do sal e do mar só eu sobrei
Foi p’ra me encontrar que amanhã já me perdi
Longe vai o tempo que eu já não estou aqui

Ai Senhora dos Talvez-Muitos-Mais- Sinais
Socorrei estes desperdícios coloniais
Foi na noite fria que o dia me cegou
Inda agora fui, inda agora cá não estou

Ai Senhora dos Esquecidos me lembrai
O caminho que p’ra lá vem e p’ra cá vai
Etecetera e tal, Portugal é nós no mar
Inda agora vim e estou longe de chegar

Ai Senhora dos Meus Iguais que eu subtraí
Foi pataca mim e não foi pataca a ti
Se é tão grande a alma na palma do meu ser
Algum dia eu vou finalmente acontecer

Melodia 3

Porque não tentar outro ponto de vista
A história dos outros quem a contará
Se qualquer colónia sem colonialista
São os que já estavam lá

Tentemos então ver a coisa ao contrário
Do ponto de vista de quem não chegou
Pois se eu fosse um preto chamado Zé Mário
Eu não era quem eu sou

Os navegadores chegaram cá a casa
E foi tudo novo p’ra eles e p’ra mim
A cruz e a espada e os olhos em brasa
Porque me trataste assim?

Não é culpa nossa se quem p’ra cá veio
Não se incomodou ao saber do horror
A história não olha a quem fica no meio
E o que foi é de quem for

letra e música de José Mário Branco

domingo, 10 de março de 2013

Rui Gama e Dora Rodrigues

Foi ontem, L'effetto Ensemble, um verdadeiro e autêntico momento de deleite musical, um excelente programa muito bem orientado e coerente, um dueto de peso coroado pela precisão discreta do belíssimo som de Rui Gama na guitarra e pela avassaladora voz, cada vez melhor (como se ainda fosse possível!) de Dora Rodrigues. Obrigado amigos pelo concerto que deram ontem. A eles dedicada, há cerca de 3 semanas, acabei de compor um ciclo de 5 peças sobre poemas de Mário Sá-Carneiro... Vamos ver se aquilo funciona!

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O desembaraçado, o opinioso e o consequente analfabetismo musical português


(...) Segundo Manuel Pedro Ferreira, “para mal dos nossos pecados a necessidade de habitar um terreno musical próprio tem sido reconhecida por muito poucos”. No momento de encontrar responsáveis o autor recorre a figuras de retórica: “Os principais responsáveis por essa falta de reconhecimento têm sido, segundo julgo, a tacanhez e o snobismo, qualidades que vejo representadas, na minha galeria de tipos sociais, pelas figuras do desembaraçado e do opinioso. [...] Para o desembaraçado, a música pode bem viver numa tenda, desmontável à mínima tempestade orçamental. Para o opinioso, a boa arquitectura sonora nasce das recensões fonográficas e dos escritórios dos agentes e prescinde de alicerces. Ambos acham que os verdadeiros compositores são super-homens cujo génio se manifesta independentemente das condições de aprendizagem e exercício do seu ofício, ignorando que o desabrochar criativo exige estímulos sociais e um diálogo permanente, através dos executantes com o resultado sonoro” (Ferreira, 2007: 16).
Ferreira considera que “a comparação com a vida musical de outros países europeus, conjugada com uma maior preparação técnica e teórica dos organizadores musicais, possa vir num futuro próximo a sapar a tradicional influência do snobismo e da tacanhez nacionais. Tal expectativa não impede que essa influência tenha marcado de forma extremamente negativa o século findo” (ibid.). Chegando a conclusões relativamente próximas, Paulo Ferreira de Castro tinha afirmado na sessão comemorativa do Dia Mundial da Música em 1991: “Confrontemo-nos de uma vez por todas com esta realidade brutal e incompreensível num país que é parte integrante da Comunidade Europeia: a esmagadora maioria da população portuguesa é absolutamente analfabeta em matéria de música, porque o sistema escolar português é praticamente omisso em matéria de formação geral nesta área”. Mais adiante: “O público português, sobretudo o lisboeta – ou pelo menos uma parte significativa dele – é seguramente o mais snob e ao mesmo tempo o mais ignorante da Europa”. E prossegue: “Portugal tem, apesar de tudo, uma cultura musical antiga – quase completamente desconhecida, aliás, do cidadão comum – [...] mas – e o facto constitui motivo de verdadeira vergonha nacional – talvez nenhum outro país da Europa preste tão pouca atenção à conservação e valorização do seu património musical. Com excepção de algumas iniciativas da Fundação Calouste Gulbenkian, e outras pontuais, da Divisão de Música da Direcção Geral da Acção Cultural (nomeadamente da publicação aliás muito irregular de discos consagrados à música portuguesa) e do Departamento de Musicologia do Instituto Português do Património Cultural, muito pouco se tem feito no sentido de divulgar a herança musical no nosso país, e mesmo o investigador especializado esbarra em múltiplas dificuldades na tentativa de aprofundar o conhecimento desse sector fundamental da cultura portuguesa” (Castro, 1991).
Quanto mais se avança nesta direcção mais facilmente se chega a zonas profundas da sociedade portuguesa. Nos textos que acabamos de ver, no momento em que se trata de apontar os responsáveis recorre-se normalmente ao défice estrutural ou a figuras de retórica, evitando, deste modo, a identificação explícita de responsáveis directos e uma análise de práticas institucionais concretas. Paulo Ferreira de Castro aponta responsabilidades genéricas ao analfabetismo musical do público, ao snobismo lisboeta e à insuficiente acção dos organismos oficiais, e a interpretação de Manuel Pedro Ferreira não identifica com total clareza os responsáveis da falta de reconhecimento: “a situação do compositor em Portugal está, de resto, ligada ao tratamento de que a Música em geral tem sido objecto, até há pouco, por parte das instituições do Estado” (Ferreira, 2007: 14). Onde está a raiz deste conjunto de problemas?

Nós – a tacanhez – e os outros, in MÚSICA E PODER – Para uma sociologia da ausência da música portuguesa no contexto europeu de António Pinho Vargas